terça-feira, 22 de novembro de 2016

A questão do Negro no Brasil: a violência e a escola

Teríamos muito para comemorar neste Dia da Consciência Negra, se não fossem os dados estatísticos apresentados em estudo denominado Homicídios e Juventude no Brasil, do Mapa da Violência (2013)*. Os números são alarmantes: morrem 153% mais negros do que brancos por homicídios no país e, conforme apontamentos do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, há cinco anos, 71,4% das 49,3 mil vítimas de homicídios eram negras. O que se vê, portanto, é o abismo entre o discurso falacioso da pretensa democracia racial e a realidade de boa parte da população brasileira que, infelizmente, é marcada pela indiferença e pelo preconceito histórico vinculado à cor da sua pele. 
Evidentemente, do ponto de vista jurídico, alguns avanços foram notados nas últimas décadas: em 1951, foi criada a Lei 1390/51, mais conhecida como Lei Afonso Arinos; e, em 1989, a Lei 7716/89 - mais conhecida como “Lei Caó”- proposta pelo jornalista, ex-vereador e advogado Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos, previa a igualdade racial e o crime de intolerância religiosa. Sem dúvida, as penalidades atribuídas por essa lei foram significativas na tentativa de construção de uma sociedade mais justa nas suas relações inter-raciais. Todavia, a violência e a brutalidade demonstradas na pesquisa supracitada revelam que, na verdade, o direito de existir e de ser negro, no Brasil, está muito longe do ideal preconizado pela legislação. 
Outro aspecto, extremamente negativo, apontado pelo estudo: ao se observar os homicídios em meio à população jovem (o Mapa da Violência 2013 considerou apenas pessoas com idade entre 15 e 24 anos), no país, morrem 237,4% mais negros que brancos. Tendo em vista todas as possibilidades de desenvolvimento humano (cultural, educacional, profissional e social), nessa faixa etária, especificamente, não nos é difícil chegar à conclusão de que uma geração inteira de potencialidades está sendo perdida e jogada numa vala comum. Resta-nos ainda indagar: a quem interessa tantas mortes? A uma elite econômica majoritariamente racista e preconceituosa? A um Estado subserviente e ineficaz na defesa dos direitos humanos? Aos defensores de teses retrógradas do século XIX e início do século XX (teses do branqueamento e eugenia)? 
Urge, portanto, a construção de uma sociedade mais humana e dotada de valores voltados ao bem comum, à igualdade e ao respeito entre todos. Obviamente, a Educação se torna um caminho viável para mudanças radicais e profundas no contexto apresentado desde que favoreça a um amplo debate acerca da questão do negro no Brasil e não apenas reproduza a "espetacularização" dessa condição – como se vê em projetos comemorativos do Dia da Consciência Negra nos quais o homem negro é lembrado como objeto de estudo, mas esquecido enquanto sujeito de sua própria história. O Dia da Consciência Negra deve ser ensinado todos os dias da vida a fim de serem evitadas tantas mortes no cotidiano dos nossos atuais palmares.

Edemir Fernandes Bagon

*  HOMICÍDIOS no brasil: 71,4% das vítimas são negras. Uol. Brasil, 13 may. 2014. Disponível em:< https://noticias.terra.com.br/brasil/homicidios-no-brasil-714-das-vitimas-sao-negras,6e8009c39f0f5410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 21 nov. 2016.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Espelhos


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Os destinos dormem nas escadas e
Envelhecem nos corpos

Os deuses esperam que Deus caminhe sobre as águas
Despejando seus olhos em vinganças

Caem as flores
E os frutos não nascem

No ventre das palavras e atrás da alma
São pregados os espelhos
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Edemir Fernandes Bagon


 'Minotaure aveugle guidé par une fillette dans la nuit' (1934), Pablo Picasso




Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...