domingo, 10 de novembro de 2019

"I never left you"*

Era um dia encantado 
[ desses em que germinam sementes
                 e  nascem flores do campo.]

Ali, pertinho do coração, a mãe abraçou o filho.
O corpo macio zelava o espírito e
                                                    as palavras vieram para acalentar o mundo.

- Eu te amo para sempre, Gui.


E o menino, como que encantando o tempo, reinventou o sonho:
- Eu te amo desde o passado.






*Verso da canção "Mother", de John Lennon. 

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

μαρίνα

Único lugar em que me sinto pleno é perto dos seus olhos.
De certo, o destino existe em espírito.

O mar aberto em mistério e as sementes dentro dos frutos resistem
                           [citricamente].

De perder-se tanto, o presente renasce em palavras e gestos.
Encontra ele anjos carnais de verdes cintilantes.

O amor descansa numa namoradeira embaixo da árvore.
E diz, o tempo inteiro, para o céu cortado em suas raízes:

"Toque em minhas mãos para ser meu desejo."


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Eighty-four



os nomes escritos num papel de caderno
o doce encontro nos cantos da escola
[o riso deixado para além das horas]

o mar inventado num quadro azul e branco
o barco deixado no lado de onde vejo o tempo
[presente perfeito conjugado em seu nome]



Edemir Fernandes Bagon










quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Pedro

Parecia perdido diante do portão de ferro da escola.  Aquilo tudo era para ele um mundo feito de concreto. Ali, naquela hora, zelava pelo acolhimento de seus dois irmãos. A mãe ficava no guichê, esperando atendimento. Os papéis de matrícula e a falta de sensibilidade dos atendentes.
O orgulho  e a inquietude da infância faziam dele um ser muito mais do que especial. Era ele os braços e os olhos do irmão menor (cadeirante), bem como a consciência do irmão do meio. De repente, seu nome foi chamado pela mãe. Teria que dar conta de encontrar o irmão mais novo. E, por entre os carros no estacionamento do prédio escolar, deslizou seus olhos na direção do outro (perdido, talvez?).
Sem querer, no entanto, encontrou uma mulher de olhos verdes sentada perto de uma coluna. Sentiu seu toque suave nos braços e um abraço foi trocado no tempo. Timidamente dissera seu nome ("Pedro").
O corpo franzino e as roupas sujas.
Outro abraço na forma interrogativa .

A mulher de olhos verdes perguntou:   

- Achou seu irmão? Sua mãe quer saber onde ele está.  

Pedro correu para um canto. Logo depois,  voltou com um sorriso (quase perfeito), empurrando uma cadeira de rodas de cor azul.
O irmão mais novo estava perto.
Estava salvo.

- Como se chama seu irmão?  
- Lucas. 
- Por que ele está na cadeira?
- Ele perdeu os movimentos das pernas, mas logo vai voltar a andar.


Edemir Fernandes Bagon






sábado, 24 de agosto de 2019

Laços*


“Ninguém escolheria viver sem amigos mesmo 
se tiver todos os outros bens, a nobreza ou gentileza para si."  
(Aristóteles)



algo assim feito céu
feito mar de Deus

tanto desse jeito
que se perde
tanto desse modo
que se encontra

tanto mar íntimo
tanto marítimo

tanta alma
tanto tempo que num abraço cabe


Edemir Fernandes Bagon



(*)  Para Ana, Márcia e Marina.
    

Insano

O destino é incapaz de reconhecer a insanidade do desejo.



Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Resiliência LIII

Em pouco tempo Elisa descobriu quem era. Restava ainda buscar do outro lado do mundo a parte misteriosa de sua vida. Quase no final, sentou-se na calçada da Avenida Plutão e arriscou sentir um pouco de tudo que não via com bons olhos. 
Enxergou de longe as sombras do passado que ela  cuidava. Viu de perto seus próprios inimigos reais e inventados. Distanciou-se dos cínicos, mas continuou ali para esperar com resignação a vinda de seu maior amor. 
Vieram a chuva e o frio. Vieram as flores e o sol. Cresceram os frutos e as sementes que foram deixadas no chão. Os pássaros azuis chegaram e se alimentaram dos frutos e dos sonhos de Elisa. Assim, ela seguiu  em direção  ao oriente e acabou se deitando bem perto do céu.


Edemir Fernandes Bagon


terça-feira, 13 de agosto de 2019

La beauté






a chuva sobre as marquises
a solidão guardada a sete chaves

estranho desapego do sentir
assim como o próprio tempo que visita o amor

estranha forma de caírem no chão as moedas do bolso
                         de os cabelos embranquecerem
                         de os olhos deixarem a beleza ter fim



Edemir Fernandes Bagon








quarta-feira, 24 de julho de 2019

Esperança

Encontrei tão perto de mim a parte que buscava.
Esperei
o tempo para ter certeza do que existe.

Ao sentir medo, porém, toquei em meu próprio coração.

[A dúvida é um precipício] 




sexta-feira, 12 de julho de 2019

Lunar


Há um tipo de querer  que pode ser completamente desmedido.

A razão não dá conta de tudo. 
Nem sempre as coisas desse mundo são como se apresentam diante dos olhos.



P.S. :  vejo a lua para me lembrar de você .



Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 2 de julho de 2019

Mar


Se as mãos tocarem o céu através do vidro
Se atrás do mundo estiverem seus cabelos
Se o silêncio não quiser mais ser olvido
Se o mar inadvertido for tomado de um desejo

Se os olhos descobrirem todos os meus defeitos
Se a luz se cansar de mostrar os sonhos encobertos
Se a tarde chegar e tiver que andar por sobre o mar
Se eu deixar de ser quem fui para ser seu


Se estiver concebido no mistério
Se tocar em mim, revivo
Se partir agora, serei lembrança
Se chegar mais tarde, espero


Edemir Fernandes Bagon




terça-feira, 18 de junho de 2019

June 15th, 2019.



i think that i will search for your green eyes tomorrow


but i don't know what's happening with my mind
i don't know what's wrong with me

the sea holds my hairs with all force of the world

the wind draws my soul 
the last song 
the last night 

i come back from unknow place
            and from somewhere i hear your name 


the  skyscrapers 

the rivers  
the bridges
the black jacket 


the lights
the black dress


my hands write in  your body
            

my love.





edemir fernandes bagon



sábado, 1 de junho de 2019

Corais



Num tempo
                    e noutro
descanso.



tira de mim
                  para me colocar
no mundo,



meu amor.


                                               


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 21 de maio de 2019

Cais



amor é perder-se no verde intenso e diminuto de seus olhos

sentir o teu corpo
ouvir tua voz [mar de alento]

amor é domínio completo
num silêncio perdido deixado no ouvido em forma de beijo

um poente sobre lençóis de lembranças

amor é um dividido por inteiro
     quase profano
     (e) quase sagrado

tocado em suas mãos, (*)




Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 15 de março de 2019

Commedia dell'arte

Gritava pelo mundo que não era ainda quem pensava ser. Era tudo uma história inventada por sua própria alma. Não havia motivo para deixar de lado aquela farsa, pois, dizia ele,  "sinto-me feliz dessa maneira". Talvez fosse a vida muito melhor assim. 


Edemir Fernandes Bagon



Tartaglia (commedia dell'arte)


terça-feira, 12 de março de 2019

Salvação



[entre o torto cartaz de emprego colocado na Avenida do Estado e o antigo portão escorado no tempo, desvencilham-se do amargo da vida os olhos tristes do menino Isaías]



 Edemir Fernandes Bagon


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Brumas


         
           








             palavra feita de barro
             telúrica

             homens político-metafísicos 
             em moedas de minério de ferro.

             morto o destino onde dormem as montanhas



Edemir Fernandes Bagon