segunda-feira, 10 de julho de 2017

Renascença


Cabem no tempo
As pedras cristalinas tocadas pelos pés dos anjos sobre as águas dos rios
A espera
Dos que sentem amor por aqueles que nada têm a entregar

Cabem no tempo
O mistério das palavras atrás das nuvens
E o silêncio dos olhos 

Cabem no tempo
Os caminhos perdidos ou deixados dentro do baú das horas
E as histórias inventadas pelo desespero

Cabem no tempo
O sentido e o desejo
O pronome e o nome do mundo

Cabem no tempo
A corda estendida do alto da casa em direção à rua
O menino com a pipa no horizonte

Cabem no tempo
O ainda
O talvez
A saudade e o recomeço


Edemir Fernandes Bagon


Andrew Biraj/Reuters

Menino empina pipa em Cabul, Afeganistão


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Memórias












Pedras guardadas nos caminhos dos esquecidos
Anjos arrastados sobre palavras escritas em pergaminhos
Vinte pássaros de prata em torno de estrelas cadentes
Mistérios de barro e de ferro condenando os olhos dos reis
A cidade em ruínas diante dos réus
A invenção das máquinas de mentir
Corpos escuros e nus amarrados a doutrinas
O homem-estado decepado por espadas de bronze
Os impostos de Saulo cobrados pela solidão
As valas encobertas pelo pó
Sinais e montes invisíveis engolidos vivos pela Loucura
Imensidão da memória


Edemir Fernandes Bagon







sábado, 10 de junho de 2017

Inquietações



Os olhos
O passado
O que vem depois
As cores do céu
A terra sob os pés

A fé
Os caminhos deixados atrás dos vales
Os círios colocados perto do espírito

Existir em versos e em arcos prateados
Em pedaços de madeira colados
Em sinais de trânsito
Em declarações de guerra e de amor

Deixar o pensamento acalentando o desespero
Para então silenciosamente conhecer a vida


Edemir Fernandes Bagon




sábado, 13 de maio de 2017

oração . a banda mais bonita da cidade (c/ leo fressato)

Vestes



são as coisas perdidas  no tempo
os encantos das estátuas sob a chuva
os espaços escritos na memória

são os anúncios publicados nos becos
as inúmeras formas de existir no mundo sem forma

são os olhos dos pedintes nas ruas
são os gritos dos filhos do incesto
a pátria morta
a república dos senhores dos grandes empreendimentos

são os pastores cortados na carne e alimentados por demônios
são os criadores da miséria nos planaltos, nas planícies e desertos

são as mãos levantadas no calvário
os apostólicos personagens de uma grande farsa encenada por egos monstruosos









("A Torre de Babel", Van Valckenborgh - séc. XVI)
no alto do edifício babilônico
estendidas foram as vestes sujas daqueles que vociferam



Edemir Fernandes Bagon