domingo, 2 de novembro de 2025

sábado, 13 de setembro de 2025

Eros


nas insígnias dos campos de estrelas 
descansavam os homens com flores
ensurdecedoras

cantavam os fiéis incrédulos 
soberbos
desumanizavam os rios com suas verdades encilhadas em suas culpas

traziam os ventos o mel vertido nas feridas 
nas encostas cravejadas de estranhas vertentes

os olhos envelhecidos machucavam a vida

deixaram as traças dormirem nos bancos empoeirados
e vieram armados com os seus sonhos 

para sentir o gosto amargo do tempo
atravessaram as nuvens os céus

conquanto os ipês eros amava


Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 21 de abril de 2025

Isaías


O tempo nomeia o medo das coisas.

Não há distanciamentos destinados por encantos humanizados. 

Tudo é temporariamente um nome.

Existem dores permeadas por pensamentos inconclusos. 

Mas a resiliência das palavras permite 
aos mais sinceros 
que sonhem, 
pintem, 
cantem 

ou escrevam.

Os inventores de histórias ficam despojados da alegria de ver o mundo: apenas o representam. 


Dói a imperfeição da vida 
                        - a saudade.

O medo não permanece. 


Edemir Fernandes Bagon

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Distâncias



das coisas que em silêncio 
refazem os ritos 

dos formatos prescritos na memória
da dor compreendida pela vida

do encanto em cada nascente
desconstruída 

abraçam-se mar e terra 
como vidros colocados em lençóis cinzas

do tempo corpóreo dividindo a alma que espera 
do sorriso fabricado pelas sobras

da virtude dos sinos delicados 
das flores azuis que os véus suplicam
 
 
do cansaço acolhido pelo perdão em seus braços 
de um nome destinado sem ter corpo ainda 

tempo das águas caírem do céu 
das pedras brilharem no escuro 
tempo de orar palavras com velas acesas

de encontrar sinais despidos
de fazer as pazes com o vício 

de dançar no submundo da saudade
de ficar por entre as pedras dos rios
de estar entre os fios tecidos pelas Fúrias

Edemir Fernandes Bagon

domingo, 3 de novembro de 2024

1965



Cada linha descrita 
Cada forma falada 
Cada instante encontrado
Cada um dos seus mundos
Cada caminho vivido 
Cada história de filme contada
Cada traço sublinhado 
Cada tempo percorrido no espaço 
Cada um de seus sonhos
Cada toque de seus dedos em meus braços 
Cada vez que me encanto com seus olhos
Cada passo inquieto deixado 
Cada gesto delicado e seu sorriso
Cada querer trazido de longe
Cada parte 
Cada inteiro 
Cada degrau sob a lua
Cada pôr do sol dançando com ternura
Cada uma das pontes 
Cada uma das margens 
Cada um dos destinos da chuva 
Cada uma das luzes do teatro 
Cada uma das vozes 
Cada linha do tecido em tua pele
Cada vestido preto despido 
Cada cor vermelha transcendendo a vida
Cada travessia feita por dentro 
Cada língua no gozo entrelaçada 
Cada nascente revivida na terra
Cada terço 
         Ou metade 
Cada pleno
Cada 


Edemir Fernandes Bagon




domingo, 2 de junho de 2024

Colheita



Taças de vinho servido nos teus       
lábios acesos como velas

O tempo no meu corpo 
sente inexplicavelmente teus sentidos


Edemir Fernandes Bagon









domingo, 12 de maio de 2024

Pueri Domini

Deus viu um menino perdido na rua e perguntou aos anjos de seu Reino:

- Por que o deixaram assim?
- Pois era vontade do Senhor Nosso que se cumprisse tal destino.

Então, o Senhor cerrou os olhos. Desceu ao mais profundo de sua alma e continuou sendo um menino. 

Edemir Fernandes Bagon

sábado, 23 de março de 2024

Veleiros

   sem a vontade do tempo
   o coração é que transforma 
   o próprio sentir das coisas 
                                   
                                      [sem nomes
           [complexo de águas salinas


            Edemir Fernandes Bagon


 




domingo, 3 de março de 2024

Rastelos



das águas o destino

do tempo a semente

do dia a canção

do medo a palavra


do céu o amargo

das cores o começo

do ventre o inteiro

das montanhas o segredo


dos olhos o cinzeiro

das cancelas o silício

dos engodos a prisão

dos concílios as memórias


dos vazios os percursos

das manhãs os silêncios

dos poemas as imagens

das promessas as migalhas


das histórias os heróis

dos canteiros os rastelos

das bandeiras os sertões

dos perdidos os enredos


dos errantes a moral

da saudade os amantes

dos quintais os nevoeiros

dos sentidos a censura


da vida

o instante


Edemir Fernandes Bagon






sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Má Educação


Final de bimestre. Erick Christian estava sentado no fundo da sala de aula. 
Parecia absorvido pelo mundo de fracassos em que seus olhos foram ensinados a viver. 
Diante da turma, o professor regurgitava as notas dos meninos e das meninas da classe. 
Quando soube do seu desempenho, Erick não esboçou nenhum tipo de tristeza. "Insatisfatório".
Ao retornar para casa, depois da aula, entrou em seu quarto. Foi até a gaveta da escrivaninha, pegou uma folha de papel e um lápis. 
Rabiscou seus tesouros imaginários e suas angústias. E deixou seus olhos, acostumados com o fracasso, chorarem.

Edemir Fernandes Bagon


domingo, 13 de agosto de 2023

Soli Deo Gloria


Estava aparentemente tranquilo. Nenhuma guerra verbal explícita. Nenhuma tempestade litúrgica. Nada que colocasse em risco a cor do céu naquele momento. 

Resolvera, de uma hora para outra inventada, questionar a si mesmo sobre a condição de sua infinitude. Perscrutou seu coração e, por vontade própria, decidiu estender os encantos de sua onisciência.

Quando caminhava sobre a terra de seus domínios, cuspiu por entre os dedos de seus segredos mais ocultos. Estes seguiram de perto o silêncio dos seus olhos. 

A saliva de sua boca encontrou, porém, a terra virgem das montanhas e dos desertos. Foi assim que ele viu o homem ser criado para cuidar dos seus sonhos.  

E Deus sentiu medo.


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 27 de junho de 2023

Jacó luta com o Anjo no Vau do Jaboque

Deixou seus olhos no passado. Dividiu suas glórias com os mais próximos. Reconheceu suas fraquezas. Mas quando ouviu seu nome ser anunciado no caos, sentiu medo da saudade que lhe tocava o fêmur. Quis rebelar-se contra o céu. Era tempo. 


Edemir Fernandes Bagon


Jacob struggling with the Angel , 1856-1861, Eugène Delacroix 


sábado, 13 de maio de 2023

Delta


O frio das palavras e das paredes despidas

O escrito sobre as sombras nos muros e nos espelhos

O silêncio dos caminhos retilíneos e do destino

A plenitude ancorada no passado

O desvio desfeito em linha reta 

O encontro e o desencontro das canções dos anjos 

A água límpida deixada nas taças do ego


[O querer dos olhos é pelo ausente]


Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 16 de março de 2023

Releituras


[...]

Trazia no silêncio dos olhos o diálogo escrito pelo desejo. Refazia seus estranhos caminhos por entre as cores transtornadas pela loucura da alma. 

Deixava perto das mãos um pincel de cravos e rosas para delinear, em suas veias, cavernas mitológicas. Reconquistava seu reino e toda a armada inglória de sombras e folhas de outono. 

Um deus de prata era colocado em xeque no tabuleiro de homens despidos. Monstros de lodo e suas musas de barro aniquilados por incautos domadores de demônios - os primeiros a encontrar o tecido que envolvia as entranhas de Perséfone.

 

domingo, 9 de outubro de 2022

Ritos


O inteiro céu escrito em prateados ritos

Diante de todas as horas espelhadas  


Os degraus


cinzas perpendiculares

O gosto das danças e das línguas nuas


O desejo contempla o tempo em suas mãos

O destino espera pelo jamais vivido



Edemir Fernandes Bagon



 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Homens de Bem


Logo após converter-se ao mais profundo dogmatismo religioso, Theodoro prosperou em seu ego e passou a dividir sua visão particular de mundo.
Na tarde de um sábado apocalíptico, decidiu caminhar pelas ruas de uma comunidade bastante simples, perto da linha do trem. Esperava que todas as pessoas viessem ouvir suas pregações iluminadas e reveladoras do caos pós-moderno. Nem os mais necessitados, tampouco os doentes vieram.
Comungou suas ideias apenas com os seus iguais e prósperos homens de bem. Sentiram-se todos mais fortes e mais capazes para assim sustentarem os planos divinos demonstrados.
Então, Theodoro chorou por amar a si mesmo.



Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Cristais



portão diante do muro da casa branca 

                                        e telhados colados nas folhas das árvores imaginárias

                                         

                                                    passos desencontrados que atravessam o destino cansado do mundo 

 


céu vestido de rosa e de branco e azul translúcido: 

para onde vai o sentido das formas das asas dos pássaros de cristais?


Edemir Fernandes Bagon



Ecos proustianos

Viu o tempo passar. Em busca do perdão perdido, prostrou-se diante do cisne. Edemir Fernandes Bagon