segunda-feira, 19 de abril de 2010

Saudade



Ela abriu o portão de sua casa e ficou na calçada... imóvel.
Um vestido cinza e a mão no rosto.
O que fizera da moça que existia ainda em seu espírito, mas que um dia fugiu de seu corpo?
O sol perto de sua morada.
Alguns passos à direita  para depois retornar ao mesmo canto em frente ao antigo portão.
Seu pai um dia ali esteve .
 Sua mãe e irmãos, também. 
Sua avó brincara naquele canto...
De repente, levou os dedos aos cabelos brancos que não se ajeitavam mais como queria.
Silêncio de toda a gente que passava.
E era um silêncio de mar. 
Era o silêncio da avó, do pai, da mãe, dos irmãos. 
Silêncio e tempo.
Olhara novamente para as ruas de todo o passado e se viu tão sozinha que não quis esperar pelo pôr do Sol.
Pensou em Carlos (seu único filho).
Desejou que o tempo passasse depressa para encontrá-lo.
Desejou que o tempo viesse numa pétala de rosa e que lhe fosse entregue.
Achou o tempo injusto com ela .
Achou o filho bonito no sonho.
E desejou partir sem ter outono...sem ser .
Deixou que o corpo idoso brincasse com o espírito do filho. 
Quando abriu, porém, um sorriso e viu sem querer o sol se pondo ...
Em silêncio, arrastara os pés para dentro de seu próprio corpo com uma saudade imensurável de Carlos. 
Fechou o portão com as mãos tristes e, com  seu vestido cinza, despediu-se da vida.



Edemir Fernandes Bagon