domingo, 9 de maio de 2010

Dicotomia



Obscuramente, não vos pertenço.

Nem ao sonho,
Nem à vida...

Cantem aos mortos, meus inimigos verdadeiros,
Pois dentro de cada um de nós há o silêncio de um passado inteiro.

Viajantes, por que vos calais para tudo?

O gosto pelas nuvens e pelas montanhas e pelas estradas do espírito
Não é o mesmo que descobre o estranho vício da existência sobre-humana?

Assim que o Tempo terminar o canto do coração,
Seremos mar...
Nascerá de vós, amigos falsos, um filho morto e todo salmo virá à alma para encantar toda forma...
Talvez toda dúvida e também toda partida ou toda a invenção de uma estrela caída.

O que importa ser num instante entrecortado no sempre,
Se podemos esperar pela Esperança montada num cavalo de prata...?

Somos rios imaginários
Somos conchas
Somos livros
Somos advérbios ambulantes...

[E Eco se deita sobre o espelho d'água para beijar Narciso]

Todo amor é fagogênico.
E silenciosamente todo amor descobre o sentido de suas próprias palavras
Quando não há palavras.

[não há mitos para o instante desenhado num céu quase de estrelas]

Claramente, vos perco - imagens tristes.

Agora, não preciso mais de vós ou de outrem.
Agora não me encontro mais no espelho à espera da Esperança.
Agora não mais sou Eco.
Agora redescubro o mar que fui  inteiro
                                                       feito na lembrança
                                                       sem nenhuma linha
                                                       me dividindo ao meio

Pertenço a mim mesmo como pedra no fundo mágico de um rio perdido no horizonte.

[Edemir Fernandes Bagon]