sexta-feira, 27 de abril de 2012

Candeia



Flores coladas na pele
Prosa iludindo o mundo
Canto cingindo Édipo
Reverberar na transparência de seus olhos
Histórias da vida privada explicitadas
Deleite da dor arrancada no tempo
Informes publicitários de ambição
Discursos profanos nos bancos da igreja
Erudição hipócrita dos ilustres senhores de família



edemir fernandes bagon

domingo, 22 de abril de 2012

Hexagrama

Desvia seu olhar do horizonte.
Separa seu egoísmo do seu entendimento
Como fizeram o céu e a terra.

Descansa no vazio o seu destino.
Enterra seu insano espírito no outono.



edemir fernandes bagon



domingo, 15 de abril de 2012

Cronologia

tempo e espaço nascidos de mim
memória e linguagem que ficam no escuro

ser livre é romper com o passado.


edemir fernandes bagon

sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa

Era festa na casa de José - um sujeito importante na favela Monte Alegre porque conduzia a bateria do bloco carnavalesco do morro. Ele festejava o primeiro aniversário do filho. Havia registrado o menino em seu nome como Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios. Sua mulher chamava-se Maria. Corintiana e ex-testemunha de Jeová. José era um fanático torcedor da escola de samba Mangueira.

Desde quando nasceram, aquele era o dia mais feliz de suas vidas. Não era sempre que José tinha no bolso meio salário-mínimo ou que Maria pesasse cinqüenta quilos e meio. A verdade é que, após o nascimento da criança, ela não conseguiu mais pedir e receber esmolas. Antes existia a desculpa de que a refeição não seria propriamente para ela, mas para seu filho Jesus que estava em seu ventre. José era analfabeto. Descobriu isso aos vinte e três anos de idade. Não sabia assinar a ficha policial ao ser preso por furto. Aos trinta, vendia papel e ferro-velho. Dizia-se um “taxista de papelão”.

E na festa de aniversário do menino Jesus... as estrelas do rádio cantavam. Quinze quilos de carne de segunda, duas caixas de cerveja, bolo de fubá e salgados. Alegria ao som de outros Zecas. E o morro se alegrava feito reino nas alturas.

Vadão – traficante do morro e ilustre convidado – percebera um movimento estranho na parte baixa da favela. De repente, tiros de metralhadoras. Alguns homens se escondiam nos barracos. Outros atiravam contra homens fardados. Mortos nas escadas. A polícia procurava Vadão que estava na casa de José. Tiros e choro de criança. Juízo Final sem Deus.

O noticiário da manhã seguinte informava que vinte pessoas teriam sido feridas. Três mortos. Um dos jornais trazia na capa a imagem dos corpos: um homem, uma mulher e uma criança. 

Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.

Era domingo de Páscoa.

edemir fernandes bagon

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Plásticos



como é possível ir de um mundo ao outro 

se o amor descansa nos olhos de uma criança que sente fome

sentir a vida se estamos todos pensando na melhor forma de obter fortuna

ouvir o espírito se não há mais respeito pelo corpo vendido em praça pública

falar verdades se fingimos que somos verdadeiros sem  palcos programas ou telas






Edemir Fernandes Bagon

A coerência do voto e a consciência social

É preciso explicar ao eleitor brasileiro a importância de ser coerente na hora do voto. É bastante simples. Em primeiro lugar, tenha a consc...