sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa

Era festa na casa de José - um sujeito importante na favela Monte Alegre porque conduzia a bateria do bloco carnavalesco do morro. Ele festejava o primeiro aniversário do filho. Havia registrado o menino em seu nome como Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios. Sua mulher chamava-se Maria. Corintiana e ex-testemunha de Jeová. José era um fanático torcedor da escola de samba Mangueira.

Desde quando nasceram, aquele era o dia mais feliz de suas vidas. Não era sempre que José tinha no bolso meio salário-mínimo ou que Maria pesasse cinqüenta quilos e meio. A verdade é que, após o nascimento da criança, ela não conseguiu mais pedir e receber esmolas. Antes existia a desculpa de que a refeição não seria propriamente para ela, mas para seu filho Jesus que estava em seu ventre. José era analfabeto. Descobriu isso aos vinte e três anos de idade. Não sabia assinar a ficha policial ao ser preso por furto. Aos trinta, vendia papel e ferro-velho. Dizia-se um “taxista de papelão”.

E na festa de aniversário do menino Jesus... as estrelas do rádio cantavam. Quinze quilos de carne de segunda, duas caixas de cerveja, bolo de fubá e salgados. Alegria ao som de outros Zecas. E o morro se alegrava feito reino nas alturas.

Vadão – traficante do morro e ilustre convidado – percebera um movimento estranho na parte baixa da favela. De repente, tiros de metralhadoras. Alguns homens se escondiam nos barracos. Outros atiravam contra homens fardados. Mortos nas escadas. A polícia procurava Vadão que estava na casa de José. Tiros e choro de criança. Juízo Final sem Deus.

O noticiário da manhã seguinte informava que vinte pessoas teriam sido feridas. Três mortos. Um dos jornais trazia na capa a imagem dos corpos: um homem, uma mulher e uma criança. 

Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.

Era domingo de Páscoa.

edemir fernandes bagon