sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Lírios

E foi assim que Fergus deixou o passado num quadro de sua vida. 
Recolheu todos os seus mais sagrados caprichos escritos em suas memórias.
Desfolhou seu olhar no chão em que caminhava e esperou placidamente pelo futuro.
Feliz por não ter que pensar em mais nada. 
Livre por não sentir, também.
Seguiu os conselhos dos sinos espelhados nas ruas.
Quis ser ele mesmo um arcanjo. 
Desenhava as coisas da terra no céu feito de barro.
Construía barcos com linhas e anzol.
Ceifava o trigo de suas angústias.
Uma noite, porém, andou pelos trilhos d'água.
Dançou no meio de um vórtice pintado com a fúria e o ódio dos olhos.
Deixou que a fome de ser lhe tocasse cítara.
Engoliu seu ego no meio do deserto.
Serpenteou o mistério proibido sem vida.
E descansou sozinho bem perto dos lírios. 

Edemir Fernandes Bagon