sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mistérios


Chegará um dia em que terá a chance de reencontrar a vida
Mesmo que tudo tenha acabado.
Seguirá em frente
De punhos fechados
E com um sorriso no rosto.
Seguirá
E terá vivido.
Poderá ensinar aos outros sua vida, sua dor...
Seguirá para não mais ser humilhado e dirá ao mundo inteiro que liberdade é amor -
Intenso desejo de viver.
Seguirá em frente para recitar versos livres
Num mundo dissonante cujo futuro a sua história perguntará: "Quem é?"
Virá a serpente conforme a canção anti-celestial
Fechará os olhos para não sentir os leões a dilacerarem seus braços e
Será visto como a árvore seca no meio da praça, sustentando raízes sob o cimento da calçada.
Seguirá em frente como substância
Como amanhecer
Como chuva
Como um rato morto em cima do colchão de espuma
Como cão raivoso uivante
Para sempre .
Seguirá em frente todo desgosto da morte
Seguirá em frente toda forma de submissão
Seguirá em frente o paraíso
E renascerá talvez tão longe o eterno, numa nuvem, o pássaro - oriundo
De uma rosa cortada e exalará um perfume benigno diante
Da traição de um amigo
E seguirá em frente não feito judas ,tampouco todas as dalilas, mas com todos os irmãos e meios-irmãos...
Terá o mundo algo inexplicável de modo que um porco irá falar num alto-falante e sairão dos bueiros as almas brancas.
Seguirá em frente o Corpo
O trono aviltado
O sangue do útero jorrará a vida e seguirá em frente cada passo dado na angústia
Abrindo-se numa ferida misteriosa o mar.
Seguirão em frente a política do pão da tarde,
A partida trágica, a corda de cima do teto e um prêmio recusado pelo grande artista no carvalho.
Seguirá para fora
Pelo meio-fio
Pela mais-valia
E encontrará o silêncio da vida...

[Edemir Fernandes Bagon]