quarta-feira, 2 de junho de 2010

Lago do Tempo

                                                                                                                                                                           
a vida não é um eterno retorno...


se trata de um instante
no qual se descobrem os abismos
e os céus avermelhados da tarde
que amiúde procuram os lagos perdidos em que
às vezes se julgam as horas cansadas e
noutras tantas se desfaz o sentimento assim repentinamente
como um gemido ou como uma rosa....

e no que se pensa e no que se diz
não há a intensa verdade de uma
oração voltada para uma divindade

não há sequer um pouco do desejo puro
porque este é apenas invenção dos olhos

ainda que se diga o contrário disso

pensar o amor e vivê-lo são coisas diversas -
coisas que não se encontram como os céus avermelhados e a terra.

e, no entanto, deve existir, ou melhor, existe em algum canto do mundo.

mas esse é o abismo interior distanciado da mentira...


a vida é um pouco mãe - que - morre quando se é menino ainda

de repente, com o tempo passado, a imagem vai se desfigurando...se desfigurando...desfigurando... ando
e uma estranha dor com a forma de algo sem forma é colocada à frente de tudo
e logo não se reconhece  mais 
e tão-somente se sente a saudade de dentro.

a vida é saudade puramente saudade [não é eterno retorno de nada].


mesmo assim é necessária para ser dita ao filho
mesmo assim é necessário viver
mesmo assim é imprescindível nascer sempre e contrapor-se aos céticos

e dizer ao menos que não deveria haver injustiça social
que não deveria haver falsidade e egoísmo e racismo e ...

dizer ao menos que a vida é necessária para amar o que se está amando
que é necessária para pensar em outras maneiras de dividir o acumulado nos bancos
                                                                           de repartir as terras
e dividir a beleza dos livros de amor


mas é a saudade que todos repartem com todos -

 vida que fica na rua quase perdida perto do lago do ego atrás do tempo.










Edemir Fernandes Bagon