terça-feira, 1 de junho de 2010

Peles

tira teu coração
e veja o que fica

olhos
boca
pernas
braços
dentes
dedos
unhas


mastiga a alma
e veja o que sobra
solidão
tristeza
dor
morte
cansaço

arranca teus olhos
e pensa no mundo
nas cores
nas formas
nas chuvas
nas montanhas
nos ventos

esconda teus erros
e sinta a verdade
a impossibilidade
a vergonha
o desprezo
o exílio
o martírio
o jugo
o silêncio

corta o tempo
e nada te sobra
do sonho
da vida
do gosto
do encontro
do destino
da loucura

respira a vida sem a graça de Deus: a vontade dos miseráveis
terá sentido?
será omisso o pensamento do que se pressupõe acerca de ti?
[julgamentos puros e irônicos sobre tua forma de viver]

retira teu coração...
não sobra nada
nem origem
nem finalidade
apenas os outros
que te desejam o menor dos sonhos dessa ridícula bobagem de ser o que jamais será.

recomece o canto aos inimigos para pintar o céu de vermelho e as estrelas da cor de todas as peles humanas

[Edemir Fernandes Bagon]