sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ocaso

E ele entrou naquele ônibus por acaso. Decidiu sentar-se naquele banco quase que por vontade. Sentiu um vento passa por entre seus dedos, vindo de um vazio do mundo.

Sentiu-se só diante de todas aquelas pessoas que o viram chegar com sua pele escura.Teria o que para fazer de si mesmo? Por instantes se iludira.

Tempo vindo e indo. Gosto triste. Alegria de ser um pouco de tudo no seu traje deselegante. Ia desistindo de sua inexistência em cada parada  da viagem. 

Os segundos se faziam um pouco mais demorados. Quis descer perto do Mercado Municipal, mas acabou seguindo outro destino. Sem ter a consciência de nada,  a tarde passou.

Em um  desejo, imaginara seu corpo dividido: uma parte dormia profundamente, enquanto a outra ficava assim como um pássaro voando sob o mar.

Vinda da rua, uma canção o fez lembrar de uma blusa vermelha. Instante da ausência de si. Seria mais se não fosse sua chegada ao lugar onde novamente sentiria aquele vento por entre seus dedos.

Corpo inteiro unido aos ouvidos e olhos. Havia medo, porém um medo estranho que não permitia a sua voz escandir os versos de sua vida e que desobedecia o paradigma do destino. Com  seus olhos traduzira o mundo e fizera um gesto simples com a mão.

No caminho de volta para casa, sentou-se no mesmo banco de ônibus e procurou em seu olhar aquele instante. Procurou em seu corpo e  na própria vida. Diante de todos... continuava semelhante. E o mundo não lhe causava mais estranheza nenhuma.

Seu mundo e de todos os outros recompostos à alma. Tripartidos e consubstanciados. Rindo da imensidão do acaso.

Reacendeu-lhe a vontade de viver. 
Tempo vindo e indo. Tempo indo e vindo.

De repente, no meio da rua e com uma caixa nas mãos, uma moça de olhos brilhantes (usando uma blusa vermelha) apareceu diante dele e de seus instantes.

Permanecera imóvel em seu riso unido aos olhos. 
E aquela música se fez continuar para sempre em sua saudade.


edemir fernandes bagon