domingo, 3 de janeiro de 2016

Clarim

Quis erguer os olhos para bem longe.
Longe dos olhos dos outros. 
Teria fugido do tempo se pudesse. 
O corpo inteiro definhava sobre a cama.
Estendia as mãos para tocar os olhos. 
A alma enxergava tudo?
O passado condenava a própria dor? 
Era um pequeno espaço a caminhar para chegar ao banheiro. 
A janela de madeira aberta e o quintal, lá fora, esperavam a madrugada chegar sem as estrelas. 
A pele seca colocada no osso.
A boca entorpecida de morfina.
Os clarins do céu  soavam. 
Veio um grito estridente do final da rua. 
Os meninos jogavam bola ainda. 
Alguns carros passavam. 
Havia do outro lado um rio cinza com margens cheias de ratos.
Uma fábrica de blocos. 
Um espasmo. 
O portão que não se abria nunca. 
No lado direito da cama, no quarto, pés miúdos se levantaram e  tocaram o chão. 
A porta do banheiro amarelo foi aberta.
A torneira do lavabo, também. 
Outra tosse.
Outra. 
Quis segurar o espírito que jorrava sangue.
Quis ter o perdão do corpo. 

Edemir Fernandes Bagon