sábado, 11 de dezembro de 2021

Ancoradouro


                     
pensamento contido 

                          nas linhas dos olhos


formas incompletas 

                          barcos e navios ancorados no cais



Edemir Fernandes Bagon 



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                                                   BARCOS Ancorados. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. 







segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Cinema

               
               trazidos pelas ruas do centro 

               de onde as pedras vermelhas e cinzas [erguidas em silêncio] permanecem 

 

                das imagens encantadas pelo cinema falado em preto e branco  

                da travessia para o outro lado de dentro da vida

                                    e do lado de fora de um antigo casarão que se avistava colado no céu azul


                                                do sensível tecido de frio que me toca com as mãos os cabelos 

                                         

  na clareza dos olhos

 o sentir tem a cor de entardecer



Edemir Fernandes Bagon



 Le Voyage dans la Lune (1902), de Georges Méliès.

                                                    

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Oleiro


dentro de um corpo feito de barro a alma não cabe,

                                              pois sentir é o fim que se desprende do tempo.



Edemir Fernandes Bagon







quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Amrita


parte de mim é tua por inteiro

íntima

perene

vulnerável

                  espalhada em tuas águas entranhadas nas palavras estranhas

                                                           [ e nos círculos descritos em forma de mistérios


Edemir Fernandes Bagon



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Intervalos


  o tecido encantado de azul

  e a clareza da pele


  o implícito das coisas nomeadas

                                         e tocadas pelo tempo de espera

 

 

Edemir Fernandes Bagon 

 




mulher de azul, 1912 por Fernand Léger (1881-1955, France) | | ArtsDot.com.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Praça Pôr do Sol

transliterado o tempo

o apóstrofo desiste de ficar por entre as linhas e por entre as letras escritas em folhas amarguradas

no passado dos olhos (feito cinzas flutuantes),
as elipses se procuram sempre
porque no íntimo das coisas (não faladas e não perdidas),
o amor vive em silêncio
(...)


Edemir Fernandes Bagon




domingo, 9 de maio de 2021

Arquétipos homodesarmônicos



SOL

      


       

       

       i

       

                                                             DÃO





edemir fernandes bagon

quinta-feira, 1 de abril de 2021

DANIELA MERCURY - PENSAR EM VOCE

Rebanhos


o templo dos homens silencia

o tempo das rezas

o campo das guerras 


as crianças que choram

os velhos que ainda cantam

as mulheres que sentem a despedida dos filhos


os pés descalços de um deus

os apátridas dos sonhos

os néscios da vingança


as traições vendidas 

as moedas partidas

por entre os sicários do medo


desce o rio até o mar mais distante 

cortam os fios de luz o vazio de dentro

e com as flores do clero antigo o trigo se espalha em terras secas


por onde vai o que se perde por ter sido amante da estupidez?


o que se encontra por fora do desejo falso da imagem de um mito desumano:

o canto de liturgia e o cálice elevados para o ego dos pastores políticos

                              [o corpo cingido com uma tolha limpa, mas com as mãos e os pés sujos]

                                                         ou

o fim em si mesmo, o próprio homem dissecado em sua própria memória e seu desejo de poder?


os templos silenciam.


Edemir Fernandes Bagon








(REMBRANDT. O BOI ESFOLADO –
MUSEU DO LOUVRE, PARIS, 1655. ÓLEO SOBRE MADEIRA, 94CM X 69CM)


sexta-feira, 12 de março de 2021

Aula


Tudo estava ali como sempre. A lousa, o giz, a lição do dia. Sinônimos e antônimos desafiavam os fatos relembrados pela História. Os Números reivindicavam suas formas arcaicas no meio daquelas inequações. E, diante do que se conhecia sobre as antigas canções de amigo e de amor, os olhos de Sinédrio desenhavam na carteira seu destino incompleto. Quando a aula acabou, caminhou em direção à professora e quis falar-lhe.

"O que deseja saber, Sinédrio?"

"Deus prefere os ateus?"



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Vesperum

 

por um não-sei-o-quê deixado 

     na memória 

................................................

a vida entardece diante dos olhos



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Órion



Caíram sobre as águas perdidas no mundo as duas estrelas mais brilhantes de Órion
 
As flores guardadas em textos bíblicos 
                             [que sonhavam com encantos e invenções 

As lembranças dos anjos em suas asas repletas de esmeraldas
                             [que diziam ser tristes as embarcações sem nenhum destino 

Dançaram o corpo branco e a alma clara diante das letras 
                             [que tocavam o ventre do mar aberto 
                                                   
                            
O tempo delicadamente abraçava o tecido feito de espera


Edemir Fernandes Bagon
                            




sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

"Homo demens"

 

Quando percebeu que seu destino era menor do que imaginava, olhou para o céu com uma saudade imensa de Deus.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 3 de janeiro de 2021

Ano Novo

Terminado aquele ano, guardou na gaveta o antigo calendário. Em seguida, pôs-se a cuidar da casa. Limpara tudo e a alma. Depois, sentou-se no sofá colocado num canto perto dos livros (que seriam lidos ainda). Pensou na vida, no mundo, nas coisas perdidas com o tempo... e  encheu-se de esperança e coragem. 


Edemir Fernandes Bagon



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Faux bleu


Quase perdeu os sentidos depois que encontrara a si mesma. Era amor espelhado e em transe. Teria sido infinito seu desespero se não encontrasse o final da sua história (narrada em sua terceira pessoa). Por outro lado, doía-lhe a saudade daquele sorriso exposto na fotografia tirada por seus olhos. Sem qualquer sentimento de culpa, o passado insistia em estar presente em sua vida. O mistério está sempre vestido de mentira.    

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Estrela binária


Claro que sentia sua ausência. Havia o tempo e as lembranças das coisas. De algum modo, era possível viver com o pouco. Ele sabia da necessidade de dissolver e de coagular seu próprio ego. Talvez fosse necessário redesenhar suas formas espelhadas no destino. Poderia determinar assim sua condição quase humana entre os seus semelhantes e convexos. Livre ou liberto? Escravo ou servo? 

Perto do silêncio do céu, olhou para o mais distante do seu mundo.


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Dísticos

The Kiss by Gustav klimt

Dois anjos surgiram diante de Deus, trazendo nas mãos duas grandes tábuas. Em cada uma delas, ambos escreveram dois versos inteiros (talhados na madeira e ornados com pedras preciosas). 
Enquanto o primeiro deles declamava suas palavras, o outro ficou em silêncio para sentir e contemplar a Graça. 
Depois de ouvir aquele, o Criador ordenou que o segundo viesse diante dele e falasse. A voz desse anjo ressoou por todo o universo. 
Findadas as leituras dos dísticos celestiais, o primeiro esperou receber elogios do Senhor. Este, porém, calou-se. 
O segundo permanecera em oração sem esperar por nada. E, então, Deus criou o amor.  

 

Edemir Fernandes Bagon


sábado, 10 de outubro de 2020

Alameda




Diante de um edifício enorme, parou para confirmar se estava indo na direção correta. Acreditava que seria o verdadeiro caminho, pois este havia sido revelado pela voz que ouvia desde o passado. Uma gota d´água caiu da marquise do prédio em sua mão direita. O destino encontrado numa alameda intranquila nomeada rio. Quando voltou para casa, era outro. Tirou um papel de dentro da gaveta da mesinha da sala e escreveu: "O amor é para sempre, Destino".



Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Óculos de Miguelim


Deixo a palavra ecoar pelo silêncio

Porque amor é imperativo 
         
[óculos de Miguelim]


Edemir Fernandes Bagon

Ecos proustianos

Viu o tempo passar. Em busca do perdão perdido, prostrou-se diante do cisne. Edemir Fernandes Bagon