quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Mar de Dentro



[longe do silêncio o espírito tergiversa]

as letras  caem sobre o mundo
e as flores dos campos dançam diante dos anjos

[para que servem os sonhos dos cegos
se aqueles que vivem ainda descalços os renegam (?)]

ficaram de outrora
apenas encantos indivisíveis

[como alma escrita dentro do mar]



Edemir Fernandes Bagon
















domingo, 19 de agosto de 2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

Princípios


Descia a viela escura, preocupada. Era preciso falar todos os verbos para ele. Do lado direito, um conhecido lhe acenara. À sua frente, perto de um poste de luz, um amontoado de sacos de lixo (esquecidos pelos garis no período da manhã). Entre os degraus irregulares construídos ali, via as fezes de cães e humanos. Segurou com as pontas dos dedos o nariz. Ergueu o olhar para o final da viela e se encheu de coragem para ir além. Sabia que iria encontrá-lo, sentado na calçada, e que seria aquele momento o fim de tudo.  Quando chegou no portão, chamou-o inúmeras vezes. Ninguém respondeu de dentro da casa. Estava vazia desde o princípio.  

Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 12 de junho de 2018

Frações

quero o tempo inteiro
dividido por nós dois
.
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pra sempre



Edemir Fernandes Bagon









sábado, 26 de maio de 2018

Jail


o barulho das águas
 e o desespero do céu

a vida  e o
encontro das pedras

o menino
e sua fotografia na parede

o velho
e seu carrinho no chão

a teia
e as grades na janela

o pássaro
e as asas deixadas no vão
                                          da alma.

o herói
e o perigo da guerra

o destino
e as mãos do pai

o viés
e a porta trancada do lado de fora
                                                        da esperança.



Edemir Fernandes Bagon





domingo, 20 de maio de 2018

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Decantação


o amor que vai embora na clareza das horas
                            perdoa o tempo da solidão,
                            porque não se cabe nunca no vazio da espera.

os sonhos são apenas a medida daquilo que os olhos alcançam
                            desenhos cerzidos em nuvens
                            [que] decantam o invisível dos tecidos feitos na memória.


Edemir Fernandes Bagon

sábado, 31 de março de 2018

Enunohcanê


toque delicadamente
as mãos dos que vieram de longe


entregue a água doce e límpida para os velhos viajantes
enlace o tempo em seu ventre


Edemir Fernandes Bagon


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Pedaços



O céu encobre toda a montanha azul
 E Deus se deita para ver de longe  os homens  se escondendo  no mar

Diáspora de sonhos  sobre a  terra em transe
Eclesiastes em luta corporal com os pedaços da discórdia

Um caminho descoberto pelos olhos do insano


Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Formas

tocam as mãos da infância
os encantos

perdoam os olhos
dos doentes

velhas formas de desejo



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 10 de dezembro de 2017

Entrelaçamento




teça o dia
com seu ego nele entrelaçado

se não fosse o fim,
              que seria do passado (?)

de onde viria
              o destino (?)

ou a cor das folhas caídas
               nos rios inventados (?)





Edemir Fernandes Bagon



segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Vênus escrevendo cartas de amor



a primeira folha no chão deixada pelo outono
o primeiro tempo do jogo perdido

o nem sempre acometido de um brutal arrependimento

por onde vem o canto de Deus?

das janelas são vistas as asas do anjos...
o teu amor sob o mundo
os ritos explicados por xiitas da escuridão
a capital e o capital do abandono
o estado imperfeito de todos os egos
o insano circunspecto da vida
e os sons trazidos de tão longe para se deitar com o mar

(Vênus escrevendo cartas de amor)

das sementes incrédulas nascem as dores
fakes debruçados em camas giratórias de motéis decadentes


toda a extrema-direita lutando com um martelo e uma foice nas mãos contra a chegada de um anticristo anunciado em seu próprio espelho
um cardume inteiro esperando o cesto a ser dividido em partes iguais
anéis colocados nos dedos da discórdia

vendidos são os olhos da virtude



Edemir Fernandes Bagon












sábado, 28 de outubro de 2017

Fada madrinha

era uma vez
uma garotinha que vivia numa floresta quase encantada

um dia, ela se perdeu no caminho de volta pra casa onde morava
e, sem querer, encontrou um espelho no chão e viu diante de seus olhos sua imagem

compreendeu que seria melhor inventar completamente sua história (mas que fosse quase verdade)
quando sentiu fome e desespero...
não titubeou em pedir para sua fada madrinha, que vivia sobre as árvores, "aquela maçã caída na estrada"

e quando mordeu a fruta

sentiu um enorme desejo de não ser mais nada


Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Balas Fini

O trem aproximava-se da plataforma. 
Homens, mulheres e crianças. 
Vendedores entoavam suas frases de vendas.
Vozes, moedas e destinos.
Um menino de nove anos segurava uma caixa de papelão e, incansavelmente, repetia : 
- Balas Fini, um real! Balas Fini, um real! 

Entregou o troco para um passageiro. Encostou a caixa na porta automática. Sentou-se no assoalho. Observou  pela janela a presença dos guardas.

"Estação Osasco! Desembarquem pelo lado direito do trem!"

Fingiu que estava procurando onde descer. As portas foram fechadas. Os homens de azul-marinho não entraram. 
O menino, então, com sua voz aguda, recomeçava a vida (?). 
- Balas Fini, um real! Balas Fini, um real!  O rapa partiu, camelô sorriu! Balas Fini, um real!

Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...