quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Separação

Algumas horas depois, Viera telefonou para dizer que passaria em casa,  a fim de "pegar as coisas que ficaram".
Estela ficou em silêncio, ouvindo apenas.
Silêncio que percorrera seu mundo.
Silêncio que chegara à porta dos fundos e que se estendeu sobre os móveis e as roupas que ficaram.
Ela caminhou até a janela e simplesmente passou a olhar as coisas da rua da frente de sua vida.
Quis compreender.
Quis aceitar o que não podia.
Quis esquecer para ser.


Edemir Fernandes Bagon


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Vanessa Da Mata

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Batellerie


Já não me encontro mais por entre as palavras
Nem mesmo no tempo
Nem mesmo na saudade

Talvez sejam imagens o que sinto no corpo
Talvez sintam as imagens o que não vejo no mundo
Ou ainda o tempo e a espera se confundam em cores

Somos barcos suspensos sobre o mar


Edemir Fernandes Bagon





[Van Gogh. Zeegezicht bij Scheveningen] 



quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Sophia de Mello Breyner Andresen: espiritualidade e religiosidade



Pudesse Eu



Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!



Sophia de Mello Breyner Andreson
(Poesia, Antologia - Moraes Editores, 1970)






Códigos


escrevo para me encontrar 
no tempo
para nascer e ser 

ficar livre]

escrevo para ter a mim mesmo de volta 
e ser mais verdadeiro comigo]

escrevo para sentir 
e compreender a vida]

(mundo de palavras que não são escritas esperando sua voz e seu olhar e seu corpo)

Edemir Fernandes Bagon




sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Cinema Paradiso


resta ainda um pouco do que fomos?

eu já nem sei se pensa o mesmo
eu já nem sei se ainda sente o mesmo
eu também já não sei se eu sou o mesmo
se eu sinto o mesmo

no entanto
de repente
vem-me uma saudade tão grande depois de ver um filme de amor




Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Oceanografia

Perceber o que somos
Talvez não seja tão difícil assim
É muito mais complicado aceitar o que nos transformamos

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Taste

É tão pouco o que as formas trazem
Assim perto do que os olhos sentem
Seriam instantes inventados ontem?
Seriam partes silenciadas para sempre?

Ainda que sejam livres os que sonham
Ainda que sejam fortes os que amam
Ainda que sejam plenos os vazios
Ainda que sejam distantes as histórias

É tão pouco o que dizem as formas para os olhos.

Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Tempo


A gente, no entanto, caminha no tempo.

Para onde? Não sei.

Nem sempre é possível ter de volta o ontem.
Nem sempre é possível reescrever.

Edemir Fernandes Bagon








terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Abrigo

Se fosse possível compreender todas as coisas
Se fosse possível entender todos os homens
Se fosse possível aceitar o que somos
Se fosse possível sermos livres esperando amanhecer
Se houvesse caminhos e destinos escritos no chão
Se fossem inocentes todos os medos
Se longe chegasse qualquer pensamento
Se todos os segundos se tornassem poemas
Se todos os cantos fossem abrigos antigos
Se...

Edemir Fernandes Bagon


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Cartas Comerciais


Prezado Coração,

Considerando que consta ausência de situações de verdadeira reciprocidade em suas relações amorosas idealizadas, vimos convidá-lo a ajustar-se de maneira adequada diante dessas pendências a fim de evitar restrições ao seu crédito inerente à Razão.

Havendo interesse em solucionar a questão de forma rápida e relativamente amigável, colocamo-nos à inteira disposição para esclarecimentos. É importante lembrá-lo que, em tempos modernos, o amor já não é mais um bem de raiz e tende a desvalorizar-se.

Caso já tenha regularizado seu atraso, pedimos que não desconsidere este aviso.

Atenciosamente,

                                                                         Pandora Empreendimentos



Edemir Fernandes Bagon





quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Encantamentos

Tenha em suas mãos
O encanto do mundo

Desfaça das coisas porque elas nada sentem

Vez por outra
Calcule a validade do discurso comparando a forma e seu conteúdo

Às vezes, melhor ser simplesmente
sem que nada mais possa mensurar  a ponto de trocar sua interioridade

Seria sempre o lado mais sensível a perder

Não fale
Há situações em que não existe necessidade de parecer ser
mesmo que as palavras tenham vida própria

Toque o moinho de vento com a ponta dos dedos
Acaricie as moedas sobre a mesa

Sê uma estrutura fictícia de acordo com sua necessidade
Mas se não for
Destrua os plásticos
Rasgue o sono
Desfigura a solidão com todas as letras

Quando se for
escreva sua mais bonita história de amor.



Edemir Fernandes Bagon









segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Releituras

(William Blake. Dante e Virgílio nos portões do Inferno.
 Fonte: desconhecido)


Caminhe no mundo com a esperança de encontrar as palavras livres 

Memória
Tempo
Ser
Instinto

A vida não se encontra sem caminhar pelos círculos



Edemir Fernandes Bagon


Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...