Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
sábado, 13 de maio de 2017
Vestes
são as coisas perdidas no tempo
os encantos das estátuas sob a chuva
os espaços escritos na memória
são os anúncios publicados nos becos
as inúmeras formas de existir no mundo sem forma
são os olhos dos pedintes nas ruas
são os gritos dos filhos do incesto
a pátria morta
a república dos senhores dos grandes empreendimentos
são os pastores cortados na carne e alimentados por demônios
são os criadores da miséria nos planaltos, nas planícies e desertos
são as mãos levantadas no calvário
os apostólicos personagens de uma grande farsa encenada por egos monstruosos
| ("A Torre de Babel", Van Valckenborgh - séc. XVI) |
no alto do edifício babilônico
estendidas foram as vestes sujas daqueles que vociferam
Edemir Fernandes Bagon
sábado, 29 de abril de 2017
Linguística amorosa
Amor é isso: linguística aplicada a uma teoria literária fundamentada na vida e na imagem do outro.
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 21 de abril de 2017
White
Não havia mais tempo.
Era a hora de encontrar a si mesmo.
Compreender suas próprias escolhas e aceitar os erros.
O que poderia fazer da vida agora?
Restava-lhe ir a outro canto do mundo.
Seus olhos queriam ver as nascentes dos rios, embora todo o resto do corpo desejasse não ser.
Edemir Fernandes Bagon
Era a hora de encontrar a si mesmo.
Compreender suas próprias escolhas e aceitar os erros.
O que poderia fazer da vida agora?
Restava-lhe ir a outro canto do mundo.
Seus olhos queriam ver as nascentes dos rios, embora todo o resto do corpo desejasse não ser.
Edemir Fernandes Bagon
terça-feira, 18 de abril de 2017
quinta-feira, 30 de março de 2017
Cegueiras
prontas estão as armas
porque os olhos não enxergam as feridas
prontas estão as armas.
Edemir Fernandes Bagon
porque os olhos não enxergam as feridas
os desvios egoístas
dos homens deformados pela ingratidão
as sombras caídas e abraçadas em terras escuras
os escárnios cruzando ruas e vielas antigas
os restos escolhidos pelo arbítrio
livremente
o pouco tempo transformado em ausência eterna
prontas estão as armas.
Edemir Fernandes Bagon
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| Saturne dévorant un de ses fils (1819-1823), Francisco de Goya |
sábado, 18 de março de 2017
Atos
Perder?
Não se pode pensar a vida dessa forma.
Existem tantos caminhos.
Presente e futuro.
Há um pouco de solidão nos versos.
Sentir?
Seria uma maneira de compreender o universo.
Difícil aceitar a verdade do que somos.
Enganar a própria alma ou interpretar a si mesmo?
Bondade?
Viver num mundo de aparências sem aparência.
Retirar as cores de um quadro para simplesmente vir a ser moldura.
Silêncio?
O que existe para além das formas?
Sonhos?
Perfeição?
Mistério?
Farsa?
O sentido da vida é um conto inventado por Deus.
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 17 de março de 2017
quarta-feira, 8 de março de 2017
Prerrogativa
[...] mas as palavras... estas possuem uma necessidade tão grande de existir.
edemir fernandes bagon
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Cadafalso
interior
silêncio inconformado
céu transparente agarrado à cor da cortina
resposta que virá ou nunca
história do sem fim
desatino
inquietar-se nos ombros feitos em forma de âncora
trancar-se atrás de portas quebradas
em qualquer destino o medo inventa uma história acabada
Edemir Fernandes Bagon
silêncio inconformado
céu transparente agarrado à cor da cortina
resposta que virá ou nunca
história do sem fim
desatino
inquietar-se nos ombros feitos em forma de âncora
trancar-se atrás de portas quebradas
em qualquer destino o medo inventa uma história acabada
Edemir Fernandes Bagon
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
Lâmia
linha tênue
descaminho em sentido contrário cheio de implícitos
o tempo entre os laços dos fios e dos pedaços estilhaçados dos espelhos
em parte desalinhado passado
ausência
Edemir Fernandes Bagon
sábado, 14 de janeiro de 2017
Conflito
o tempo nascido nas estrelas
a poeira escrita nos olhos
o corpo dividido na alma
o passado inventado na ignorância dos sentidos
caminhos sem margens
cruzes nas pedras do mirante
o medo não acordado
a voz correndo no quintal da infância
a vida imersa
num espírito imundo
Edemir Fernandes Bagon
a poeira escrita nos olhos
o corpo dividido na alma
o passado inventado na ignorância dos sentidos
caminhos sem margens
cruzes nas pedras do mirante
o medo não acordado
a voz correndo no quintal da infância
a vida imersa
num espírito imundo
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
Cárceres
Rasgam cinzas os insanos perdidos nas ruas
Queimam pétalas nos olhos dos faunos
Vieram pelas moedas de ouro
Trouxeram lagos de areia como dádivas para o mal
Tergiversam os pobres nos murais e porões
Sombras dos muros apodrecem em nome das leis
As lanças apontadas para a vida dos incautos
Os cães sem nome bebendo a água com sal e vísceras
Os círios transformam escadas de ferro em prata
Impérios sob os canais de sangue inventam naus aladas
Pedras entalhadas no céu
Valas e calhas desfiguram a carne dos culpados sem
rito
Nobres e falsos celestiais nas marquises dos templos
Cárceres úmidos desaparecendo na poeira dos corpos desnudados
As formas justas das injustas formas das imagens dos vidros
encarnados
Edemir Fernandes Bagon
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
O dia do perdão
Foram
dias esperando chegar a notícia do retorno de Santiago. Deu tempo para esquecer
todas aquelas palavras que ambos disseram naquela noite. Por insistência de sua
mãe, Pedro quis perdoar seu irmão. Fosse talvez mais jovem, não aceitaria
refazer o destino.
O
certo mesmo era que, em menos de trinta dias, Pedro haveria de partir. A hora era incerta. O pâncreas lutava contra
seu signo. O sol nascia com as dores em seu corpo. Os olhos desertavam. Ele
sabia... e a mãe sentia suas mãos com serenidade.
Santiago
havia telefonado em dois momentos antes de sua chegada. Dona Lurdes
respondia-lhe com brandura. Tinha numa das mãos uma foto dos filhos pequenos.
Colocara, na estante, outros dois retratos nos quais os meninos estavam seguros
nos braços do pai.
Tão
logo ela desligara o aparelho, Pedro chamou por sua presença. Encostou nela seu
mistério e, por fim, olhou-a com a alegria de quem pudesse ter de volta os
melhores dias da infância.
Edemir Fernandes Bagon
terça-feira, 22 de novembro de 2016
A questão do Negro no Brasil: a violência e a escola
Teríamos muito para comemorar neste Dia da Consciência Negra, se não fossem os dados estatísticos apresentados em estudo denominado Homicídios e Juventude no Brasil, do Mapa da Violência (2013)*. Os números são alarmantes: morrem 153% mais negros do que brancos por homicídios no país e, conforme apontamentos do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, há cinco anos, 71,4% das 49,3 mil vítimas de homicídios eram negras. O que se vê, portanto, é o abismo entre o discurso falacioso da pretensa democracia racial e a realidade de boa parte da população brasileira que, infelizmente, é marcada pela indiferença e pelo preconceito histórico vinculado à cor da sua pele.
Evidentemente, do ponto de vista jurídico, alguns avanços foram notados nas últimas décadas: em 1951, foi criada a Lei 1390/51, mais conhecida como Lei Afonso Arinos; e, em 1989, a Lei 7716/89 - mais conhecida como “Lei Caó”- proposta pelo jornalista, ex-vereador e advogado Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos, previa a igualdade racial e o crime de intolerância religiosa. Sem dúvida, as penalidades atribuídas por essa lei foram significativas na tentativa de construção de uma sociedade mais justa nas suas relações inter-raciais. Todavia, a violência e a brutalidade demonstradas na pesquisa supracitada revelam que, na verdade, o direito de existir e de ser negro, no Brasil, está muito longe do ideal preconizado pela legislação.
Outro aspecto, extremamente negativo, apontado pelo estudo: ao se observar os homicídios em meio à população jovem (o Mapa da Violência 2013 considerou apenas pessoas com idade entre 15 e 24 anos), no país, morrem 237,4% mais negros que brancos. Tendo em vista todas as possibilidades de desenvolvimento humano (cultural, educacional, profissional e social), nessa faixa etária, especificamente, não nos é difícil chegar à conclusão de que uma geração inteira de potencialidades está sendo perdida e jogada numa vala comum. Resta-nos ainda indagar: a quem interessa tantas mortes? A uma elite econômica majoritariamente racista e preconceituosa? A um Estado subserviente e ineficaz na defesa dos direitos humanos? Aos defensores de teses retrógradas do século XIX e início do século XX (teses do branqueamento e eugenia)?
Urge, portanto, a construção de uma sociedade mais humana e dotada de valores voltados ao bem comum, à igualdade e ao respeito entre todos. Obviamente, a Educação se torna um caminho viável para mudanças radicais e profundas no contexto apresentado desde que favoreça a um amplo debate acerca da questão do negro no Brasil e não apenas reproduza a "espetacularização" dessa condição – como se vê em projetos comemorativos do Dia da Consciência Negra nos quais o homem negro é lembrado como objeto de estudo, mas esquecido enquanto sujeito de sua própria história. O Dia da Consciência Negra deve ser ensinado todos os dias da vida a fim de serem evitadas tantas mortes no cotidiano dos nossos atuais palmares.
Edemir Fernandes Bagon
* HOMICÍDIOS no brasil: 71,4% das vítimas são negras. Uol. Brasil, 13 may. 2014. Disponível em:< https://noticias.terra.com.br/brasil/homicidios-no-brasil-714-das-vitimas-sao-negras,6e8009c39f0f5410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 21 nov. 2016.
sábado, 12 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Espelhos
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Os destinos dormem nas escadas e
Envelhecem
nos corpos
Os
deuses esperam que Deus caminhe sobre as águas
Despejando
seus olhos em vinganças
Caem
as flores
E
os frutos não nascem
No
ventre das palavras e atrás da alma
São
pregados os espelhos
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Edemir
Fernandes Bagon
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