sexta-feira, 12 de março de 2021

Aula


Tudo estava ali como sempre. A lousa, o giz, a lição do dia. Sinônimos e antônimos desafiavam os fatos relembrados pela História. Os Números reivindicavam suas formas arcaicas no meio daquelas inequações. E, diante do que se conhecia sobre as antigas canções de amigo e de amor, os olhos de Sinédrio desenhavam na carteira seu destino incompleto. Quando a aula acabou, caminhou em direção à professora e quis falar-lhe.

"O que deseja saber, Sinédrio?"

"Deus prefere os ateus?"



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Vesperum

 

por um não-sei-o-quê deixado 

     na memória 

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a vida entardece diante dos olhos



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Órion



Caíram sobre as águas perdidas no mundo as duas estrelas mais brilhantes de Órion
 
As flores guardadas em textos bíblicos 
                             [que sonhavam com encantos e invenções 

As lembranças dos anjos em suas asas repletas de esmeraldas
                             [que diziam ser tristes as embarcações sem nenhum destino 

Dançaram o corpo branco e a alma clara diante das letras 
                             [que tocavam o ventre do mar aberto 
                                                   
                            
O tempo delicadamente abraçava o tecido feito de espera


Edemir Fernandes Bagon
                            




sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

"Homo demens"

 

Quando percebeu que seu destino era menor do que imaginava, olhou para o céu com uma saudade imensa de Deus.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 3 de janeiro de 2021

Ano Novo

Terminado aquele ano, guardou na gaveta o antigo calendário. Em seguida, pôs-se a cuidar da casa. Limpara tudo e a alma. Depois, sentou-se no sofá colocado num canto perto dos livros (que seriam lidos ainda). Pensou na vida, no mundo, nas coisas perdidas com o tempo... e  encheu-se de esperança e coragem. 


Edemir Fernandes Bagon



segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Faux bleu


Quase perdeu os sentidos depois que encontrara a si mesma. Era amor espelhado e em transe. Teria sido infinito seu desespero se não encontrasse o final da sua história (narrada em sua terceira pessoa). Por outro lado, doía-lhe a saudade daquele sorriso exposto na fotografia tirada por seus olhos. Sem qualquer sentimento de culpa, o passado insistia em estar presente em sua vida. O mistério está sempre vestido de mentira.    

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Estrela binária


Claro que sentia sua ausência. Havia o tempo e as lembranças das coisas. De algum modo, era possível viver com o pouco. Ele sabia da necessidade de dissolver e de coagular seu próprio ego. Talvez fosse necessário redesenhar suas formas espelhadas no destino. Poderia determinar assim sua condição quase humana entre os seus semelhantes e convexos. Livre ou liberto? Escravo ou servo? 

Perto do silêncio do céu, olhou para o mais distante do seu mundo.


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Dísticos

The Kiss by Gustav klimt

Dois anjos surgiram diante de Deus, trazendo nas mãos duas grandes tábuas. Em cada uma delas, ambos escreveram dois versos inteiros (talhados na madeira e ornados com pedras preciosas). 
Enquanto o primeiro deles declamava suas palavras, o outro ficou em silêncio para sentir e contemplar a Graça. 
Depois de ouvir aquele, o Criador ordenou que o segundo viesse diante dele e falasse. A voz desse anjo ressoou por todo o universo. 
Findadas as leituras dos dísticos celestiais, o primeiro esperou receber elogios do Senhor. Este, porém, calou-se. 
O segundo permanecera em oração sem esperar por nada. E, então, Deus criou o amor.  

 

Edemir Fernandes Bagon


sábado, 10 de outubro de 2020

Alameda




Diante de um edifício enorme, parou para confirmar se estava indo na direção correta. Acreditava que seria o verdadeiro caminho, pois este havia sido revelado pela voz que ouvia desde o passado. Uma gota d´água caiu da marquise do prédio em sua mão direita. O destino encontrado numa alameda intranquila nomeada rio. Quando voltou para casa, era outro. Tirou um papel de dentro da gaveta da mesinha da sala e escreveu: "O amor é para sempre, Destino".



Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Óculos de Miguelim


Deixo a palavra ecoar pelo silêncio

Porque amor é imperativo 
         
[óculos de Miguelim]


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Geisha


Das retinas quisera apenas ter o vermelho do sol nascente. O arquétipo escorpiano delineado no corpo em transe. A porta entreaberta. O desejo de permanecer ali para sempre, de retirar o laço e desvendar a alma a partir dos cabelos que deslizavam num lápis. 

Um toque na luz da parede do céu. Um gemido dentro do silêncio abocanhado (como se fosse possível  ver o que havia no lado de fora da carne doce e macia). 

Tudo  vertido: a boca noutra boca molhada; os seios de uma geisha tocados num templo de Buda; o dorso claro como um espelho d'água (onde Narciso  não ouve, mas ecoa). 

Os sinais de pele emaranhados. O caminho das flores. As cadeiras de vime. O lago dos peixes. Os saltos pretos abertos no eclipse da cama. 

《Atravessa o destino, com a astúcia do tempo,  o que procura alma.》


Edemir Fernandes Bagon



domingo, 26 de julho de 2020

Dragão




sal da terra em seu tempo

eterno doce cansaço de Eros
sol de seu céu de silêncio

navegantes somos - içando velas
almas de mar aberto
{torres brancas que envelhecem}



Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Jusante do céu


um ponto final deixado  no vazio
e um deus presente na ausência

um bem invisível trazido das ruas
e um vaso de acanto

os espíritos dançam na jusante do céu

um coração  cansado de sentir
o mundo à margem do tempo


Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Depois de amanhã


O que fazer  com as nuvens molhadas no escuro? Como os anjos irão dormir agora?

Onde ficarão os sonhos sem o templo que é teu corpo?
Onde estarão os dias e as obras do Senhor?

《Os olhos permutam sensações com um coração translúcido》

Entre os lírios mágicos e o silêncio  invasor dos campos
Existe um lago prateado de vida
Mas não o toco

Edemir Fernandes Bagon


domingo, 14 de junho de 2020

παράδεισος

https://images.app.goo.gl/5kJGaV8FgSf8iFy68













aceite o tempo caminhando para longe 
troque suas perdas por lembranças

pois de que seria o mundo feito 
se deus tivesse, à imagem e semelhança de um cordeiro, seu final na infância?

afaste o que não é nada menos que desespero
e deixe o corpo sob um céu imaginário


                     Edemir Fernandes Bagon

sábado, 23 de maio de 2020

Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien

Big Bang


          amor é antimatéria
          [inverso do verso
       
          é  antiutopia
          [cotexto relacionando um signo com outros signos

          é inteiro
          [mecanicamente quântico descrito no tempo

          outrora um deus
          [uma forma despida do espírito

          outrora um princípio heisenberguiano
          [um começo derradeiro

          outrora um gosto sincero disfarçado
          [um abraço de lábios amantes

         _ reticências marcando encontros para sempre_
       


Edemir Fernandes Bagon


Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...