sábado, 13 de maio de 2023

Delta


O frio das palavras e das paredes despidas

O escrito sobre as sombras nos muros e nos espelhos

O silêncio dos caminhos retilíneos e do destino

A plenitude ancorada no passado

O desvio desfeito em linha reta 

O encontro e o desencontro das canções dos anjos 

A água límpida deixada nas taças do ego


[O querer dos olhos é pelo ausente]


Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 16 de março de 2023

Releituras


[...]

Trazia no silêncio dos olhos o diálogo escrito pelo desejo. Refazia seus estranhos caminhos por entre as cores transtornadas pela loucura da alma. 

Deixava perto das mãos um pincel de cravos e rosas para delinear, em suas veias, cavernas mitológicas. Reconquistava seu reino e toda a armada inglória de sombras e folhas de outono. 

Um deus de prata era colocado em xeque no tabuleiro de homens despidos. Monstros de lodo e suas musas de barro aniquilados por incautos domadores de demônios - os primeiros a encontrar o tecido que envolvia as entranhas de Perséfone.

 

domingo, 9 de outubro de 2022

Ritos


O inteiro céu escrito em prateados ritos

Diante de todas as horas espelhadas  


Os degraus


cinzas perpendiculares

O gosto das danças e das línguas nuas


O desejo contempla o tempo em suas mãos

O destino espera pelo jamais vivido



Edemir Fernandes Bagon



 


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Homens de Bem


Logo após converter-se ao mais profundo dogmatismo religioso, Theodoro prosperou em seu ego e passou a dividir sua visão particular de mundo.
Na tarde de um sábado apocalíptico, decidiu caminhar pelas ruas de uma comunidade bastante simples, perto da linha do trem. Esperava que todas as pessoas viessem ouvir suas pregações iluminadas e reveladoras do caos pós-moderno. Nem os mais necessitados, tampouco os doentes vieram.
Comungou suas ideias apenas com os seus iguais e prósperos homens de bem. Sentiram-se todos mais fortes e mais capazes para assim sustentarem os planos divinos demonstrados.
Então, Theodoro chorou por amar a si mesmo.



Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Cristais



portão diante do muro da casa branca 

                                        e telhados colados nas folhas das árvores imaginárias

                                         

                                                    passos desencontrados que atravessam o destino cansado do mundo 

 


céu vestido de rosa e de branco e azul translúcido: 

para onde vai o sentido das formas das asas dos pássaros de cristais?


Edemir Fernandes Bagon



sábado, 11 de dezembro de 2021

Ancoradouro


                     
pensamento contido 

                          nas linhas dos olhos


formas incompletas 

                          barcos e navios ancorados no cais



Edemir Fernandes Bagon 



  •  

                                                   BARCOS Ancorados. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. 







segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Cinema

               
               trazidos pelas ruas do centro 

               de onde as pedras vermelhas e cinzas [erguidas em silêncio] permanecem 

 

                das imagens encantadas pelo cinema falado em preto e branco  

                da travessia para o outro lado de dentro da vida

                                    e do lado de fora de um antigo casarão que se avistava colado no céu azul


                                                do sensível tecido de frio que me toca com as mãos os cabelos 

                                         

  na clareza dos olhos

 o sentir tem a cor de entardecer



Edemir Fernandes Bagon



 Le Voyage dans la Lune (1902), de Georges Méliès.

                                                    

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Oleiro


dentro de um corpo feito de barro a alma não cabe,

                                              pois sentir é o fim que se desprende do tempo.



Edemir Fernandes Bagon







quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Amrita


parte de mim é tua por inteiro

íntima

perene

vulnerável

                  espalhada em tuas águas entranhadas nas palavras estranhas

                                                           [ e nos círculos descritos em forma de mistérios


Edemir Fernandes Bagon



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Intervalos


  o tecido encantado de azul

  e a clareza da pele


  o implícito das coisas nomeadas

                                         e tocadas pelo tempo de espera

 

 

Edemir Fernandes Bagon 

 




mulher de azul, 1912 por Fernand Léger (1881-1955, France) | | ArtsDot.com.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Praça Pôr do Sol

transliterado o tempo

o apóstrofo desiste de ficar por entre as linhas e por entre as letras escritas em folhas amarguradas

no passado dos olhos (feito cinzas flutuantes),
as elipses se procuram sempre
porque no íntimo das coisas (não faladas e não perdidas),
o amor vive em silêncio
(...)


Edemir Fernandes Bagon




domingo, 9 de maio de 2021

Arquétipos homodesarmônicos



SOL

      


       

       

       i

       

                                                             DÃO





edemir fernandes bagon

quinta-feira, 1 de abril de 2021

DANIELA MERCURY - PENSAR EM VOCE

Rebanhos


o templo dos homens silencia

o tempo das rezas

o campo das guerras 


as crianças que choram

os velhos que ainda cantam

as mulheres que sentem a despedida dos filhos


os pés descalços de um deus

os apátridas dos sonhos

os néscios da vingança


as traições vendidas 

as moedas partidas

por entre os sicários do medo


desce o rio até o mar mais distante 

cortam os fios de luz o vazio de dentro

e com as flores do clero antigo o trigo se espalha em terras secas


por onde vai o que se perde por ter sido amante da estupidez?


o que se encontra por fora do desejo falso da imagem de um mito desumano:

o canto de liturgia e o cálice elevados para o ego dos pastores políticos

                              [o corpo cingido com uma tolha limpa, mas com as mãos e os pés sujos]

                                                         ou

o fim em si mesmo, o próprio homem dissecado em sua própria memória e seu desejo de poder?


os templos silenciam.


Edemir Fernandes Bagon








(REMBRANDT. O BOI ESFOLADO –
MUSEU DO LOUVRE, PARIS, 1655. ÓLEO SOBRE MADEIRA, 94CM X 69CM)


sexta-feira, 12 de março de 2021

Aula


Tudo estava ali como sempre. A lousa, o giz, a lição do dia. Sinônimos e antônimos desafiavam os fatos relembrados pela História. Os Números reivindicavam suas formas arcaicas no meio daquelas inequações. E, diante do que se conhecia sobre as antigas canções de amigo e de amor, os olhos de Sinédrio desenhavam na carteira seu destino incompleto. Quando a aula acabou, caminhou em direção à professora e quis falar-lhe.

"O que deseja saber, Sinédrio?"

"Deus prefere os ateus?"



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Vesperum

 

por um não-sei-o-quê deixado 

     na memória 

................................................

a vida entardece diante dos olhos



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Órion



Caíram sobre as águas perdidas no mundo as duas estrelas mais brilhantes de Órion
 
As flores guardadas em textos bíblicos 
                             [que sonhavam com encantos e invenções 

As lembranças dos anjos em suas asas repletas de esmeraldas
                             [que diziam ser tristes as embarcações sem nenhum destino 

Dançaram o corpo branco e a alma clara diante das letras 
                             [que tocavam o ventre do mar aberto 
                                                   
                            
O tempo delicadamente abraçava o tecido feito de espera


Edemir Fernandes Bagon
                            




Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...