quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cecília

Manhã de quarta-feira. Ainda cansada da jornada do dia anterior, Cecília arrumou-se  para o trabalho. Sabia que não poderia fazer corpo mole. Aluguel, água e luz para pagar. Era preciso passar na casa de Flora, sua irmã mais velha, e deixar suas filhas pequenas ali.
Recebeu um telefonema de seu ex-marido e discutiram como de costume. Ela chegou na estação de trem por volta das sete e quinze. Completaria o trajeto até a loja do centro da cidade. Olhou ansiosa para o letreiro, procurando ter uma ideia de quantos minutos se atrasaria. Saindo da estação, virou à esquerda, desceu uma rua e pronto. Lá estava.
Com o pouco movimento, Cecília esperava que a dona da loja fosse liberá-la antes das cinco da tarde. Entretanto, ficou encarregada de arrumar  o estoque após o fechamento. Com isso, garantiria algumas extras. Na sua condição, era necessário. Avisou à irmã que iria demorar para voltar. Falou com as meninas. Buscou forças.
Terminado o expediente, correu para a estação. Trem lotado. Uma amiga falava-lhe. Seu pensamento longe havia sido desfeito ao desembarcar. Era um pouco mais de nove da noite. Faltava-lhe pouco para chegar.  O namorado novo a esperava. Tinha motivos para acreditar que poderia ser diferente a vida. 
Um passo, dois - e as mãos de ambos se tocaram. Um leve toque nos lábios. A paz encontrada. Era tudo bem diferente daquilo vivido em seu casamento. 
Flora a esperava. As meninas vieram também. Sérgio acompanhou-as até o portão. Ele despediu-se carinhosamente de Cecília e de suas filhas. 
Alguns minutos depois, a vizinhança ouvia três disparos de arma de fogo. "Sérgio", sentiu Cecília. 
Carros de polícia. Um grupo de pessoas na rua. Perícia. IML. Investigação e constatação do que parecia ser óbvio: a prisão do ex-marido.  


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Malebolge

Quando saiu de casa, Ryan sentia que não voltaria mais. Um medo estranho no caminho. Pouco tempo depois, descobrira os olhos e percebeu o mundo.
Perdeu as coisas que amava por engano. Desenhou no céu o nascimento de estrelas e, também, o seu ocaso. 
Seu era o corpo inalado no espaço. 
Quis escrever, quis amar, quis ser o que era antes. Ficou, porém, sentado ali, naquela praça. Os dedos queimados. Havia nos lábios trincheiras. As unhas coçavam-lhe o couro cabeludo. Eram suas as fezes depositadas no centro. 
Vale do Rio Flegetonte. Vale da Floresta dos Suicidas. Vale do Deserto Abominável. Cachoeira de Sangue. Ryan, com a cabeça jogada para frente, foi embora para sempre. 


Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Atalhos

Júlio não pensou duas vezes para mudar o destino de sua vida.
Deixou emprego, família e amigos. O novo soava-lhe como um verso perfeito.
Quando, porém, quis ter de volta tudo o que havia deixado para trás, sentiu que não existia mais nada. Os olhos se aquietaram.
Houve um silêncio tão grande.


Edemir Fernandes Bagon


terça-feira, 14 de abril de 2015

Cirene


nada que pudesse fechar a porta
a não ser a pele desnuda do corpo

nada que não fosse desejo
seria



edemir fernandes bagon




(By Renato Guedes)















domingo, 12 de abril de 2015

Ananke



a gente brinca de ser livre porque tem medo

o silêncio nunca é o mesmo
a alma não dorme

não sei o porquê e nem como
o tempo me encanta


descortina o mundo
tingindo os olhos com instantes



edemir fernandes bagon






quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reflexo


 As coisas mais simples da vida deveriam ser vistas num espelho

inventar o outro em si mesmo
carregar o tempo nas mãos
abrir as portas e limpar as janelas do lado de fora


não é possível compreender o desespero humano com a vaidade
pois bem pouco somos diante de sonhos


Edemir Fernandes Bagon










segunda-feira, 6 de abril de 2015

Istmo

E agora que o tempo esqueceu de existir
Vem-me  assim por engano tocar o meu corpo

Meu espírito é um istmo
E para além das cortinas brancas do meu quarto está o meu pequeno mundo

Procuro por caminhos antigos
Porque meu coração é surdo


Edemir Fernandes Bagon


A cortina de renda, 2008
Márcio Melo ( Brasil)
Acrílica sobre tela, 61cm x 76 cm
 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Incertezas

por outro lado, crer em qualquer tipo de certeza a respeito da vida é uma tolice

o instante é uma peça de Shakespeare
o sentir não é filosofia encenada na galáxia

são os olhos deuses que esperam  sempre compreender o mundo


edemir fernandes bagon






Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...