quinta-feira, 31 de maio de 2012

As três meninas


Enquanto carros e caminhões seguem seus destinos
pela Rodovia Governador Mário Covas
Sob a ponte do Rodoanel
Em direção à Estrada das Rosas
Bem perto da Avenida Plutão
Três meninas pequenas brincam de casinha

Como se fossem verdadeiramente proprietárias da terra
Como se o espaço privado e doméstico inventado por elas
Lhes resguardassem  direitos a uma infância com vida
Como se fossem elas as mães verdadeiras que em seus sonhos se formaram inatas
Como se no poder de suas existências transcendessem as diferenças sociais
Fomentadas  pelo progresso irônico e dissimulado
Em nome dos interesses mesquinhos de  governantes ausentes

As três meninas que brincam sob a ponte correm para o ponto de ônibus
Acenam para um motorista
Singularizando a miséria de suas inocências
Paralisando o tempo com os braços estendidos
Apenas para viver no espaço do sonho a falsa liberdade de serem felizes
Seguramente não comeram o pão da vida real
Não leram os provérbios pichados nos muros debaixo da ponte em que vivem
Desde o princípio criadas sem nome no mundo
Em silêncio...

Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Prelúdio


a dúvida  se disfarça de amor ao próximo
nem sempre o que disser
será visto como um gesto de confiança

(são as palavras águas de um rio imenso)

a vida sente o desconhecido
enquanto o pensamento descansa
num paraíso perdido



edemir fernandes bagon

domingo, 20 de maio de 2012

Quântica



com o tempo
as certezas se desfazem
e ficam as inquietações do espírito diante de um mundo triste

ainda que os caminhos sejam conhecidos
os atalhos ficam perdidos nas vilas do sonho

com o tempo
o que fora feito um para o outro
se torna unitário
indiviso
unilateral

o eu se transforma numa
historiografia oficial impressa
conforme a vontade soberana
de um rei imaginário numa corte de tolos ambiciosos

com o tempo
as cores se perdem na ausência da beleza
as flores escrevem na terra a essência
e desabrocham diante dos olhos o que já não são mais

liberdade nua encerrada em textos religiosos enganam
bem como a fé insana vestida em secular orgia de capital verborrágico
com conta legitimada em banco

com o tempo as formas se definem em quântica
e o amor em terça parte  quase sempre.

Edemir Fernandes Bagon

domingo, 6 de maio de 2012

Sábios



O que diferencia a sabedoria da estupidez é o olhar.








edemir fernandes bagon

Diferenças

A diferença entre o que somos e o que queremos ser está na intensidade daquilo que julgamos amar.




edemir fernandes bagon

Locus



Locus amoenus: máscara retirada do ego diante do espelho.




edemir fernandes bagon

Continuum



O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.


edemir fernandes bagon

Silenciamentos





Silenciamento: trabalho incansável da alma procurando Deus.




edemir fernandes bagon

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Candeia



Flores coladas na pele
Prosa iludindo o mundo
Canto cingindo Édipo
Reverberar na transparência de seus olhos
Histórias da vida privada explicitadas
Deleite da dor arrancada no tempo
Informes publicitários de ambição
Discursos profanos nos bancos da igreja
Erudição hipócrita dos ilustres senhores de família



edemir fernandes bagon

domingo, 22 de abril de 2012

Hexagrama

Desvia seu olhar do horizonte.
Separa seu egoísmo do seu entendimento
Como fizeram o céu e a terra.

Descansa no vazio o seu destino.
Enterra seu insano espírito no outono.



edemir fernandes bagon



domingo, 15 de abril de 2012

Cronologia

tempo e espaço nascidos de mim
memória e linguagem que ficam no escuro

ser livre é romper com o passado.


edemir fernandes bagon

sábado, 7 de abril de 2012

Páscoa

Era festa na casa de José - um sujeito importante na favela Monte Alegre porque conduzia a bateria do bloco carnavalesco do morro. Ele festejava o primeiro aniversário do filho. Havia registrado o menino em seu nome como Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios. Sua mulher chamava-se Maria. Corintiana e ex-testemunha de Jeová. José era um fanático torcedor da escola de samba Mangueira.

Desde quando nasceram, aquele era o dia mais feliz de suas vidas. Não era sempre que José tinha no bolso meio salário-mínimo ou que Maria pesasse cinqüenta quilos e meio. A verdade é que, após o nascimento da criança, ela não conseguiu mais pedir e receber esmolas. Antes existia a desculpa de que a refeição não seria propriamente para ela, mas para seu filho Jesus que estava em seu ventre. José era analfabeto. Descobriu isso aos vinte e três anos de idade. Não sabia assinar a ficha policial ao ser preso por furto. Aos trinta, vendia papel e ferro-velho. Dizia-se um “taxista de papelão”.

E na festa de aniversário do menino Jesus... as estrelas do rádio cantavam. Quinze quilos de carne de segunda, duas caixas de cerveja, bolo de fubá e salgados. Alegria ao som de outros Zecas. E o morro se alegrava feito reino nas alturas.

Vadão – traficante do morro e ilustre convidado – percebera um movimento estranho na parte baixa da favela. De repente, tiros de metralhadoras. Alguns homens se escondiam nos barracos. Outros atiravam contra homens fardados. Mortos nas escadas. A polícia procurava Vadão que estava na casa de José. Tiros e choro de criança. Juízo Final sem Deus.

O noticiário da manhã seguinte informava que vinte pessoas teriam sido feridas. Três mortos. Um dos jornais trazia na capa a imagem dos corpos: um homem, uma mulher e uma criança. 

Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.

Era domingo de Páscoa.

edemir fernandes bagon

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Plásticos



como é possível ir de um mundo ao outro 

se o amor descansa nos olhos de uma criança que sente fome

sentir a vida se estamos todos pensando na melhor forma de obter fortuna

ouvir o espírito se não há mais respeito pelo corpo vendido em praça pública

falar verdades se fingimos que somos verdadeiros sem  palcos programas ou telas






Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cristianismo

de um lado, a imagem de mim mesmo numa luta constante com a realidade
de outro, inadvertidamente, o corpo desenha no espírito a vontade de viver sem amarras

no interior dos diálogos incessantes, que nascem da minha vida inventada com as vidas inventadas pelos outros,
um palco imensurável onde a linguagem se desnuda no silêncio

não somos nada diferentes uns dos outros
antes, formas  elaboradas com grafites de mentira coladas no tempo

pelas ruas e sem destino julgamos a todo instante

existirá silêncio na culpa?


edemir fernandes bagon

sábado, 17 de março de 2012

Confidências

a vida é sempre  infância inventando palavras para dar sentido ao mundo
para existir em nomes esquecidos no tempo

não se compreende porque é mar
não se faz plena porque é  céu

ecoa no espírito dobrado

moinho à espera de vento.


edemir fernandes bagon

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fúrias





guarda o medo
e entrega o tempo
para as Fúrias

desfolheia o princípio
desenhando ruas
no mundo
íntimo
santo
correndo no interior d'alma
à margem do corpo

intensamente olha-te no espelho
para não ter certeza de nada mais

ser é  tão feio do lado de dentro.


edemir fernandes bagon

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Aporia

Se suas certezas absolutas  forem derrubadas pela revolução da interioridade,
Fique diante de um espelho d'água

Faça um pacto com Eco e Narciso
Dance com o  Tempo  para encontrar o Termo


E não se arrependa por ter sido sempre publicano.


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Mandamentos

guarda o segredo de viver em paz
para que não tenhas nunca que sentir saudade

guarda na caixinha colorida colocada no fundo do guarda-roupa
todo artesanato de tua  vida

guarda uma foto de teu pai e de tua mãe
para não esquecer da tua origem

guarda os nomes de teus irmãos
para não te sentir só no mundo

guarda a data de toda conquista tua
para acostumar-te com a solidão

guarda na carteira o vazio das relações humanas
para não te perder no eu

guarda na memória o primeiro beijo na praça
como se fosse uma oração aprendida quando criança

guarda para sempre o nunca
para não te esquecer do sonho

guarda as impressões da ausência
para aguardar o nascimento do fruto

guarda as privações da vida
para bem longe da liberdade de ser

guarda o silêncio 
dentro do tempo

guarda a tristeza 
em tua própria vaidade

guarda em tuas mãos
todas as tuas lembranças 


edemir fernandes bagon

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Alma

Alma: extensa superfície na qual repousa a vontade de ser tudo.


E
N
V
E
L
H
E
Ç
O

C
O
M

Amor

Apenas para esperar seus olhos castanhos.


Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...