sexta-feira, 27 de junho de 2014

Distribuição do tempo


Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preencheram as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão ou Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez são mais os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não se leia Rilke, Verlaine ou Platão,

Ou se escute os nítidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.


- Julio Cortázar, em "Rosa do mundo" - poemas para o futuro. [tradução Jorge Henrique Bastos]. Portugal: Assírio & Alvim, 2001.

Ethos


Ainda que seja um símbolo
Ainda que procure ser
Ainda que não me encontre
Ainda que incompleto
Ainda que tenha sido um fato do passado histórico e livre

A autonomia do amor é viver]


Edemir Fernandes Bagon







terça-feira, 24 de junho de 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Pearl Jam - MTV Unplugged 1992 (HD)

Oratório

são as paredes que gritam o que sinto
partes reduzidas e encarnadas no tempo
quarenta dias num deserto de silêncio

escorpiões do outro lado da porta da casa
gritos que percorrem os cantos de minh' alma

dentro de mim um planeta de palavras incompreendidas
no lado externo de tudo o que sinto disformes juízos
como  vingança em forma de festa

comemoração em sentido contrário
braços e gargantas sangrentos

uma verdade assimétrica
um tempo de cinismo e solidão
uma espera angustiante para partir

breve permanência da ignorância

edemir fernandes bagon






sábado, 14 de junho de 2014

Sobre Dilma Rousseff, a Abertura da Copa e a Educação


Sinceramente, xingar uma mulher ao lado de sua filha num estádio de futebol é de uma estupidez imensurável. Infelizmente, a presidente Dilma Rousseff sentiu um pouco daquilo que incontáveis professoras da rede pública estadual (e, também, professores) sofrem em sala de aula. De fato, existe a crise política e as pendências necessariamente devem ser dirimidas. Creio eu, no entanto, que a crise maior está no campo da ética moral.


Nesse sentido, ainda que as falhas grotescas das atividades políticas corroborem para a insatisfação de boa parte da sociedade, o respeito à dignidade humana deve ser o princípio das ações dos sujeitos sociais. Se assim não o for, povo e classe política terminam por formar um grupo singularizado não pela virtude, mas sim, pela violência e pelo descaso. Alguém dirá ser legitima a liberdade de expressão do povo. Concordo, claro. Mas não é legítimo o aviltamento do ser humano.

Outros dirão ser a exploração do homem exatamente aquilo que a classe política faz com o povo. Nesse caso, porém, se pensarmos na democracia enquanto poder político, poderíamos fazer a seguinte pergunta: quem é o eleitor do representante político? Esta seria a questão fundamental a meu ver, mas a maioria do povo brasileiro acaba se esquecendo de que é ela que define seu futuro nas urnas eleitorais!

Pois bem, a transformação das mentalidades e dos comportamentos humanos  quase sempre é atribuída à educação escolar sistematizada. Todavia a escola, hoje, apresenta tantas semelhanças com um estádio de futebol, tantas...  que não tenho medo de dizer que uma parte dos educadores e das educadoras preferiria ficar em suas casas para ter respeito e dignidade. Obviamente, não é um desejo deliberado, e sim, um distúrbio sintomático de uma vida profissional pouco valorizada.

Depois dessa péssima experiência vivida na abertura da Copa, a presidente Dilma e toda a classe política deveriam repensar o modelo educacional brasileiro. Reitero, todavia, meu repúdio ao modo como foi tratada. Reitero que educadoras e educadores são muitas vezes ofendidos assim em sala de aula. Reitero que povo e classe política terminam sendo um corpo singular e uno, mas sem consciência reflexiva num contexto como esse. 

Portanto, é preciso dizer que a “política do pão e do circo” deve ser revista e, sobretudo, repudiada. Além disso, o comportamento dos sujeitos sociais não deve, numa democracia (ainda que no papel), corresponder a uma ação teatralizada, desmedida e jocosa – sem objetivo nenhum, senão o de ferir a dignidade humana.  Na maioria das vezes, os fins não justificam os meios.  Educar é preciso.


                                                           Edemir Fernandes Bagon

sábado, 7 de junho de 2014

Colonialismo

Havia entre nós um Tratado de Tordesilhas.
A parte oeste do meu corpo era sua inteiramente. 
Da sua porção, no entanto, nada me pertencia.

Edemir Fernandes Bagon

Folha de rosto do Tratado de Tordesilhas (1494)

Nobiliários



Pórticos iluminados nos castelos de Vênus
Palácios colocados diante dos sonhos
Versus
Espíritos que viajam em campos gerais da servidão
Janelas da casa encontram o tempo esperando o sol voltar


Edemir Fernandes Bagon






sexta-feira, 23 de maio de 2014

Iridescência

As coisas são para a história o que se revelam.
Todavia ser é metafísica.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 11 de maio de 2014

Mistério

Mãe, não sei como seguir em frente.
A vida parece mais difícil agora.
Quando mais precisei, alguns poucos estenderam-me a mão.
Estou assim sem rumo - feito mar encontrando uma rocha imensa que não se move.
O que desmentir?
O que perdoar?
 O que procurar?
À noite,  perco-me nas lembranças. Sem o céu, o que fazer com a lua e as estrelas?
No entanto,  não estou disposto a regressar.
Não quero mais  sentir-me menor.
Tenho vergonha do que fizeram comigo.
Tenho medo da minha imagem no espelho.
Difícil desvendar o mistério de viver.
Creio estar fora do alcance do espírito (que não dorme).
A desumana arte da hipocrisia sempre como uma espécie de  luz que desaparece no encantamento do silêncio.
Esse mesmo silêncio sobre as pedras das ruas junto às igrejas e dos homens vazios nos seus cantos.
Fantoches.
Não há espaço para o tempo.

Mãe, um dia ... se puder,   venha  abraçar-me para eu sentir a Verdade outra vez.


Edemir Fernandes Bagon



sábado, 10 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Templos

 quando os olhos esquecerem do tempo
 e  folhas caírem no chão

quando imagens deixarem as horas
e os instantes partirem nas águas

quando os lírios deixarem os campos
e pedras virarem encantos

quando  ruas encantarem os anjos
e  os céus escreverem seus sonhos

quando os santos cantarem em versos
e noites cobrirem os tetos

quando finitos se tornarem almas
e os escritos sentirem o mundo

quando a vida deixar a saudade
e as mãos tiverem compaixão

quando os rancores se perderem durante a espera
e os caminhos deixarem saída

quando desejos debelarem a moral
e dos homens os egos recobrarem a razão

quando as coisas se revelarem nos espelhos
e as correntezas construírem castelos na areia

quando saírem os barcos do cais
e retornarem os veleiros e os sonhos

seremos templos



edemir fernandes bagon









quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sobre o preconceito racial


Considerar o preconceito racial, a intolerância étnica e o racismo como práticas inaceitáveis, a meu ver, é tarefa natural dos homens justos. Não obstante, a sociedade humana apresenta alguns modelos de vida social em que o caráter grotesco de suas relações passa a ser aceito sem que a razão estabeleça critérios distintos e claros. Isso, a meu ver, é resultado das relações de poder instituídas ao longo da história da humanidade. Logo, em virtude da ausência dos critérios racionais, a sociedade humana produziu, infelizmente, a escravidão e o holocausto.

Nesse sentido, não enxergar o problema histórico do aviltamento humano constituiu-se em práticas comuns na vida em sociedade, pois, reconhecidamente, o homem não possui outro recurso senão o da crítica da própria razão para encontrar o princípio da igualdade. E, por conseguinte, dele fazer o fundamento de sua existência. Ficar a favor, ou não, de uma "campanha" é resultado de profunda reflexão acerca daquilo que é Justo. Para mim, quando a Razão demonstra a ausência de justiça, penso ser necessário o engajamento.

Claro que alguns dirão ser a mobilização um equívoco, afinal "um jogador de futebol recebe milhões por ano" e, portanto, numa sociedade dividida em classes, "estaria acima do bem e do mal". Outros dirão que se trata apenas de um comportamento inadequado de uma "torcida inflamada", porém, "cultural" (ver o caso Tinga). Ainda assim, o que está em jogo é a luta pela igualdade e pelo respeito à existência humana. 


Talvez, dessa maneira, compartilhando discursos contrários em redes sociais, numa conversa entre amigos ou em sala de aula - o racismo, o preconceito, a intolerância possam ser banidos não apenas do futebol, mas também, das delegacias de polícia, das penitenciárias, das escolas, das empresas e, quem sabe um dia, da vida humana.




Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...