segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Cárceres













Rasgam cinzas os insanos perdidos nas ruas
Queimam pétalas nos olhos dos faunos

Vieram pelas moedas de ouro
Trouxeram lagos de areia como dádivas para o mal


Tergiversam os pobres nos murais e porões
Sombras dos muros apodrecem em nome das leis

As lanças apontadas para a vida dos incautos
Os cães sem nome bebendo a água com sal e vísceras

Os círios transformam escadas de ferro em prata

Impérios sob os canais de sangue inventam naus aladas
                                                Pedras entalhadas no céu
Valas e calhas desfiguram a carne dos culpados sem rito

Nobres e falsos celestiais nas marquises dos templos

Cárceres úmidos desaparecendo na poeira dos corpos desnudados
As formas justas das injustas formas das imagens dos vidros encarnados


Edemir Fernandes Bagon





segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O dia do perdão


Foram dias esperando chegar a notícia do retorno de Santiago. Deu tempo para esquecer todas aquelas palavras que ambos disseram naquela noite. Por insistência de sua mãe, Pedro quis perdoar seu irmão. Fosse talvez mais jovem, não aceitaria refazer o destino.

O certo mesmo era que, em menos de trinta dias, Pedro haveria de partir.  A hora era incerta. O pâncreas lutava contra seu signo. O sol nascia com as dores em seu corpo. Os olhos desertavam. Ele sabia... e a mãe sentia suas mãos com serenidade.

Santiago havia telefonado em dois momentos antes de sua chegada. Dona Lurdes respondia-lhe com brandura. Tinha numa das mãos uma foto dos filhos pequenos. Colocara, na estante, outros dois retratos nos quais os meninos estavam seguros nos braços do pai.

Tão logo ela desligara o aparelho, Pedro chamou por sua presença. Encostou nela seu mistério e, por fim, olhou-a com a alegria de quem pudesse ter de volta os melhores dias da infância.



Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A questão do Negro no Brasil: a violência e a escola

Teríamos muito para comemorar neste Dia da Consciência Negra, se não fossem os dados estatísticos apresentados em estudo denominado Homicídios e Juventude no Brasil, do Mapa da Violência (2013)*. Os números são alarmantes: morrem 153% mais negros do que brancos por homicídios no país e, conforme apontamentos do Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, há cinco anos, 71,4% das 49,3 mil vítimas de homicídios eram negras. O que se vê, portanto, é o abismo entre o discurso falacioso da pretensa democracia racial e a realidade de boa parte da população brasileira que, infelizmente, é marcada pela indiferença e pelo preconceito histórico vinculado à cor da sua pele. 
Evidentemente, do ponto de vista jurídico, alguns avanços foram notados nas últimas décadas: em 1951, foi criada a Lei 1390/51, mais conhecida como Lei Afonso Arinos; e, em 1989, a Lei 7716/89 - mais conhecida como “Lei Caó”- proposta pelo jornalista, ex-vereador e advogado Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos, previa a igualdade racial e o crime de intolerância religiosa. Sem dúvida, as penalidades atribuídas por essa lei foram significativas na tentativa de construção de uma sociedade mais justa nas suas relações inter-raciais. Todavia, a violência e a brutalidade demonstradas na pesquisa supracitada revelam que, na verdade, o direito de existir e de ser negro, no Brasil, está muito longe do ideal preconizado pela legislação. 
Outro aspecto, extremamente negativo, apontado pelo estudo: ao se observar os homicídios em meio à população jovem (o Mapa da Violência 2013 considerou apenas pessoas com idade entre 15 e 24 anos), no país, morrem 237,4% mais negros que brancos. Tendo em vista todas as possibilidades de desenvolvimento humano (cultural, educacional, profissional e social), nessa faixa etária, especificamente, não nos é difícil chegar à conclusão de que uma geração inteira de potencialidades está sendo perdida e jogada numa vala comum. Resta-nos ainda indagar: a quem interessa tantas mortes? A uma elite econômica majoritariamente racista e preconceituosa? A um Estado subserviente e ineficaz na defesa dos direitos humanos? Aos defensores de teses retrógradas do século XIX e início do século XX (teses do branqueamento e eugenia)? 
Urge, portanto, a construção de uma sociedade mais humana e dotada de valores voltados ao bem comum, à igualdade e ao respeito entre todos. Obviamente, a Educação se torna um caminho viável para mudanças radicais e profundas no contexto apresentado desde que favoreça a um amplo debate acerca da questão do negro no Brasil e não apenas reproduza a "espetacularização" dessa condição – como se vê em projetos comemorativos do Dia da Consciência Negra nos quais o homem negro é lembrado como objeto de estudo, mas esquecido enquanto sujeito de sua própria história. O Dia da Consciência Negra deve ser ensinado todos os dias da vida a fim de serem evitadas tantas mortes no cotidiano dos nossos atuais palmares.

Edemir Fernandes Bagon

*  HOMICÍDIOS no brasil: 71,4% das vítimas são negras. Uol. Brasil, 13 may. 2014. Disponível em:< https://noticias.terra.com.br/brasil/homicidios-no-brasil-714-das-vitimas-sao-negras,6e8009c39f0f5410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html>. Acesso em: 21 nov. 2016.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Espelhos


_______________________

Os destinos dormem nas escadas e
Envelhecem nos corpos

Os deuses esperam que Deus caminhe sobre as águas
Despejando seus olhos em vinganças

Caem as flores
E os frutos não nascem

No ventre das palavras e atrás da alma
São pregados os espelhos
_____________
Edemir Fernandes Bagon


 'Minotaure aveugle guidé par une fillette dans la nuit' (1934), Pablo Picasso




sábado, 1 de outubro de 2016

In nomine patris


Disse que um dia voltaria. O pai pegou as malas e dirigiu-se até o portão da casa. 
Desapareceu nas ruas e nunca mais foi visto em canto nenhum do mundo.
O menino ficou na janela esperando seu retorno. 
Sem perceber a vida, foi sentindo seu corpo franzino ganhar forma. 
Um dia, porém, desistiu da procura do pai. E ficou para sempre na memória.

Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Regresso

Acervo particular - Três Lagoas (MS)


Escuta a leitura dos versos de Lorca
E também os encantos da música de Nina
Guarda em armários de prata a espera
E os acordes da alma

Transforma as linhas em princípios
E carrega nos braços as súplicas das flores
Divida a vida em províncias e literatura
Percorra o mundo para além do corpo

Quando voltar de tão longe


Edemir Fernandes Bagon

O que me importa - Marisa Monte

domingo, 28 de agosto de 2016

Pedras de Ur


Faces dos incrédulos esculpidas em orgulho de carrara
Escaravelhos aprisionados pelas serpentes da cidade de Ur

Instinto em cordas de enforcamento na morada dos homens
Cada dia em cada volta do assombro da espera

Bandeiras e lanças e lençóis
Sobre corpos mutilados em tela vistos pela alma

Metrificadas as pedras dos versos da solidão
Seriam as feridas as filhas dos rios infernais(?)

Calafrios balançam nos barcos que navegam nos escuros
Mirante dos olhos daqueles que vencem

Ponto e espaço e vazio invertidos
Em desordem por entre os grãos das areias antigas


Edemir Fernandes Bagon









sábado, 23 de julho de 2016

Diário


As janelas continuam abertas.
Quase noite.

Na casa ao lado, a mulher espera calada a chegada do filho.
Atrás do meu cômodo, um casal de velhos calados espera a vinda do neto.
Em frente ao portão de casa, o pai da menina descansa na cadeira colocada no quintal.
Os latidos que não param.

Os olhos deixam as páginas de Dostoiévski.
O coração é acusado injustamente.


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 19 de julho de 2016

Anunciação


O mundo nasce nos olhos
como pele de elefantes tocando as flores


O mundo nasce nos olhos
como cartas de viajantes encontrando a saudade


O mundo nasce nos olhos 
transformando a alma escrita no corpo


O mundo nasce nos olhos
para ver o amor apenas em parte 



Edemir Fernandes Bagon


domingo, 26 de junho de 2016

Entrelaçamentos


O destino é o que não vem agora
É o que entrelaça o depois procurando o fim

Por onde anda
Por onde vai o querer
Por onde segue a lembrança

O destino é uma invenção da vida


Edemir Fernandes Bagon





sexta-feira, 27 de maio de 2016

Carbono


Pouco a pouco a gente vai entendendo o que fica na lembrança
Não é tão simples deixar atrás de si as memórias
É a alma que sente o que não existe fisicamente
Cadeias de carbono não significam absolutamente nada para os olhos de quem fica na janela esperando seu amor voltar



Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...