sábado, 10 de outubro de 2020

Alameda




Diante de um edifício enorme, parou para confirmar se estava indo na direção correta. Acreditava que seria o verdadeiro caminho, pois este havia sido revelado pela voz que ouvia desde o passado. Uma gota d´água caiu da marquise do prédio em sua mão direita. O destino encontrado numa alameda intranquila nomeada rio. Quando voltou para casa, era outro. Tirou um papel de dentro da gaveta da mesinha da sala e escreveu: "O amor é para sempre, Destino".



Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Óculos de Miguelim


Deixo a palavra ecoar pelo silêncio

Porque amor é imperativo 
         
[óculos de Miguelim]


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Geisha


Das retinas quisera apenas ter o vermelho do sol nascente. O arquétipo escorpiano delineado no corpo em transe. A porta entreaberta. O desejo de permanecer ali para sempre, de retirar o laço e desvendar a alma a partir dos cabelos que deslizavam num lápis. 

Um toque na luz da parede do céu. Um gemido dentro do silêncio abocanhado (como se fosse possível  ver o que havia no lado de fora da carne doce e macia). 

Tudo  vertido: a boca noutra boca molhada; os seios de uma geisha tocados num templo de Buda; o dorso claro como um espelho d'água (onde Narciso  não ouve, mas ecoa). 

Os sinais de pele emaranhados. O caminho das flores. As cadeiras de vime. O lago dos peixes. Os saltos pretos abertos no eclipse da cama. 

《Atravessa o destino, com a astúcia do tempo,  o que procura alma.》


Edemir Fernandes Bagon



domingo, 26 de julho de 2020

Dragão




sal da terra em seu tempo

eterno doce cansaço de Eros
sol de seu céu de silêncio

navegantes somos - içando velas
almas de mar aberto
{torres brancas que envelhecem}



Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Jusante do céu


um ponto final deixado  no vazio
e um deus presente na ausência

um bem invisível trazido das ruas
e um vaso de acanto

os espíritos dançam na jusante do céu

um coração  cansado de sentir
o mundo à margem do tempo


Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Depois de amanhã


O que fazer  com as nuvens molhadas no escuro? Como os anjos irão dormir agora?

Onde ficarão os sonhos sem o templo que é teu corpo?
Onde estarão os dias e as obras do Senhor?

《Os olhos permutam sensações com um coração translúcido》

Entre os lírios mágicos e o silêncio  invasor dos campos
Existe um lago prateado de vida
Mas não o toco

Edemir Fernandes Bagon


domingo, 14 de junho de 2020

παράδεισος

https://images.app.goo.gl/5kJGaV8FgSf8iFy68













aceite o tempo caminhando para longe 
troque suas perdas por lembranças

pois de que seria o mundo feito 
se deus tivesse, à imagem e semelhança de um cordeiro, seu final na infância?

afaste o que não é nada menos que desespero
e deixe o corpo sob um céu imaginário


                     Edemir Fernandes Bagon

sábado, 23 de maio de 2020

Edith Piaf - Non, Je ne regrette rien

Big Bang


          amor é antimatéria
          [inverso do verso
       
          é  antiutopia
          [cotexto relacionando um signo com outros signos

          é inteiro
          [mecanicamente quântico descrito no tempo

          outrora um deus
          [uma forma despida do espírito

          outrora um princípio heisenberguiano
          [um começo derradeiro

          outrora um gosto sincero disfarçado
          [um abraço de lábios amantes

         _ reticências marcando encontros para sempre_
       


Edemir Fernandes Bagon


domingo, 3 de maio de 2020

Incógnita



claro riso em moldura rosa dos lábios
mar de verdes olhos que ensinam ao tempo 
amor vermelho dos cabelos de mulher-moça-menina 
escorpião tocado pelos seios gêmeos 
quadraturas de versos ascendentes em Libra e Áries 
mãos em forma de vida e água e terra e ar
cantigas em todos os cantos do espírito
[presentes, sob forma única, na memória do destino.

ventre de cristal molhado de orvalho 
vaso de amoreira dentro da pele branca
corpo encilhado no gosto da língua doce 
palavras escritas nas paredes equivocadas de autores desconhecidos
imagens, em silêncio discursivo do desejo,  sussurradas nos ouvidos 
brincos de pérola deixados atrás dos sonhos
[sementes e frutos, tocados nus, adormecem  sob a lua minguante.


Edemir Fernandes Bagon



terça-feira, 21 de abril de 2020

Campos Elíseos



Com seus olhos de pedra
A alma procura o vício
A dor come as próprias vísceras 
O corpo nomeia-se sagrado


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 7 de abril de 2020

Dourados



Desceu as escadas de sua casa com toda a poética de uma criança. Riscou o tempo com as mãos, trazendo as folhas de seu caderno no espaço. Deixou este nos degraus com suas letras e desenhos.  Em seguida, pegou de uma só vez aquele brinquedo de rodas que estava sob a árvore do quintal. Um pé no pedal e o outro, também. Os olhos voltavam-se para o portão da frente da casa. Num esforço contínuo, realizou magicamente seu maior desejo naquele momento. Depois, deixara seu brinquedo no chão e abraçou seu caderno outra vez. Gritou pelas irmãs mais novas, pela mãe, pela tia e pelos avós (numa felicidade incontida, até mesmo, pelo céu dourado daquela tarde).
- Eu consegui! Parabéns pra mim!! Eu consegui, Vô! Aprendi a andar de bicicletaaaa! Uhuhuhuhu!


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 24 de março de 2020

Introspecção


intangível o querer
                          intransponível a saudade
intramuscular o desejo
                           intransitivo o ciúme
interativo o silêncio
                           intermitente o passado
invertido o sinônimo

                           
                           invertebrado o cansaço
inoperante o descaso
                           inofensivo o abraço
impuro o atraso
                           inválido o prazo
inalterado o quadro
                           inexata a solidão
indexada a memória
                            indivisível o sonho



Edemir Fernandes Bagon


quarta-feira, 4 de março de 2020

Nefelibata


deixo meu corpo num tanque cheio de espinhos
espero pela canção do mar

espalho sal nos olhos dos espíritos
e, nas ruínas do tempo,
                                permito que meus pés se afastem do deserto


por entre os vícios do mundo
e estátuas profanadas

[minhas cidades de vidro cortam o céu em pedaços]


                      antes de ser, meu não-ser brincava com as nuvens



Edemir Fernandes Bagon




By @diegoorigrafima

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Máscaras



o mar descansa, pura e simplesmente, porque é da sua natureza esperar pelo toque das pedras
as incertezas compreendem a delicadeza da vida

a infância, guardada em silêncio, engana o corpo queimado pelo cigarro nas mãos
o espírito, dominado pelo horror da loucura, devora asas de anjos no escuro

virá na forma de chuva o deus salvador (?)
ter desfeito um dos nós do destino é ter a ferida aberta  ou a dor  mascarada (?)


Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Cor de linho



               destino
               película

                         de perto o sentido das coisas
                         da cor de linho puro

                poema
                interlúdio





Edemir Fernandes Bagon





 





domingo, 2 de fevereiro de 2020

Insólito calvário dos olhos

Caravaggio (1571-1610)

dentre os finitos
o destino

entre os ídolos
a carne

tocados nas vestes
o amor


para onde for o tempo
o agora

desfaz o disfarce
a verdade

querer assim
a vontade

insólito calvário dos olhos



Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...