sábado, 20 de fevereiro de 2010

II Reis

Não gosto de ir em busca das origens das coisas. Como posso partir para o ponto inicial de tudo se fico sempre no meio do nada? Sei  que o caminho é apenas a imagem daquilo que não é mais. Já não é um grito de dor, porque se tornara canto (não estando mais presente).  A imagem rasga o instante. Sinceramente, ele não me pertence. Não o vejo como um herói. 
Deus é o instante das coisas ausentes. E essas coisas ficam em mim por um longo tempo até que tudo se desfigure e venha a se tornar um trágico riso. De modo que o eu [a consciência de si] transfigura-se em sonho - senhor da infinitude. Nele vive a verdadeira imagem do homem cuja origem  é a perfeição imaculada.
Deus é um sonho profundo do homem. O instante de toda a busca. O sonho que transcende a morte (pôr-do-sol). Breve e triste a cantiga.  A música não existirá enquanto estiver dormindo o ser. A libido, a volúpia e eros caminham na linha em espiral. Nenhuma origem. 
A existência é um símbolo de amor tangente da canção ímpar e a versão mais figurativa da humana unidade solipsista. Bioencarnação do espírito? Fria e sangrenta origem que não procuro. Mas  isso não basta apenas. É preciso fugir e contemplar o pôr-do-sol antes que  sejam abertas as janelas.



Edemir Fernandes Bagon

Definição



Eu não sou uma linha reta,
ou um círculo,
ou um quadrado...

Sou um
gráfico com altos e
baixos.




[Edemir Fernandes Bagon]

Gabriel

Queres conhecer o mundo
Com a ponta
De teus dedos.


Queres aprender a linguagem
Dos homens
Sendo anjo.


[Edemir Fernandes Bagon]

Para meu pai

Os homens deveriam ser tão bondosos quanto meu pai.



[Edemir Fernandes Bagon]

Sol e Estrela

Vem e conheça o sol
para despedir-se com a voz
por entre as vidas e as horas
cada sonho se perfaz com um pouco do mundo
e o homem fica com a forma de um mosntro

Vem e conheça o sol
dê ao sonho o que pede a planta à terra
diferente como um menino que nasce
diferente como o amor que morre

Vem e conheça o sol
e não retorne ao ponto em que antes estavas
uma promessa
uma vingança
um temor

Vem e conheça o sol
para não tardar
para não ficar com a sensação 
de não ter feito do sonho uma realidade

Vem e conheça o sol
assim que o beijo no espírito
se tornar insípido
assim que o velho nada mais souber
 e sua vida não tiver mais sentido

Vem e conheça o sol e o sempiterno mundo
e ficarás feliz como uma estrela da manhã
 se não estiver chovendo.

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

2004

viver sob os olhos de Deus
beber o resto
comer o lixo
fumar bitucas de cigarro tiradas do chão
ter o nome associado à ideia do mal

ainda assim
a coisa bela:
ter um filho
nos braços
e dormir



edemir fernandes bagon

Função f(x)

A reconstrução é o limite da função f(x)= vida + amor.
Não existe nem no mais infinito,
Tampouco no menos infinito.

O mais infinito é você.




[Edemir Fernandes Bagon]

CONCEITO

A SOLIDÃO É  O PONTO-FINAL
DE UMA ORAÇÃO AMOROSA-ABSOLUTA 
ESCRITA NUM PAPEL EM BRANCO...




[EDEMIR FERNANDES BAGON]

INVERNO

DESENHO UM QUADRADO
NUM CÉU ESTRELADO
REVIRO A GAVETA
DO ARMÁRIO EMBUTIDO
ESCREVO À MÁQUINA
UMA CARTA DE AMOR
PROCURO PERDIDO
UM PEDAÇO DE DOR
DESDOBRO MEU OLHAR
DIANTE DO MUNDO
ESTRANHO O VAZIO
PRESENTE NO MAR
EQUILIBRO O SEGUNDO
ERGUIDO NO AR
E TERMINO PERSONAGEM
DE MIM MESMO DENTRE
TODOS OS OUTROS
MORRO E RENASÇO NO FOGO
JOGO MINHAS CINZAS AO VENTO
E AS VEJO AO ABRIR AS JANELAS DO MEU QUARTO
REFLETIDAS NOS RAIOS SOLARES DO MEU INVERNO.


EDEMIR FERNANDES BAGON

GENTE

GERALMENTE, A GENTE SÓ GOSTA DAS PESSOAS DEPOIS QUE ELAS SE VÃO.
E SÓ PENSA NELAS QUANDO NOS ESQUECEM OU QUANDO NÃO NOS PERDOAM.
A GENTE SÓ SENTE AS PESSOAS SE ACASO NOS TOCAM.
NO ENTANTO,
A GENTE SÓ É GENTE QUANDO SONHA
OU QUANDO O AMOR É REPARTIDO
OU QUANDO A DOR É SUPERADA COM SORRISO
OU QUANDO O SORRISO SE TRANSFORMA EM BRILHO DE ESTRELA
NUM CANTO SUAVE.


[EDEMIR FERNANDES BAGON]

ANGÚSTIA

EU DIGO MUITAS COISAS
QUE NÃO SINTO.
SINTO MUITAS COISAS
QUE NÃO FALO.


RESULTADO: ANGÚSTIA.


[EDEMIR FERNANDES BAGON]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Viagem

Partir é sempre o desejo da gente.



Somos nômades por entre vales e montanhas.

Somos multidões atravessando os desertos e o inconsciente.

Intranquilos seres,sobretudo vivos, navegantes mendigos...


Caravanas inteiras sem destino.



Partir é sempre desejo da gente.



Somos sempre estrangeiros

Viajantes com sede de viver

Ancoradouros partidos

Estrelas cadentes


Meninos e meninas abandonados no mundo


Partir é sempre o desejo



Repentistas do amor
e
Mascates da vida,

Somos destinos por entre dedos estendidos no coração inventado !

Somos pais que morrem sem perdão !

[...]
Partir é sempre o desejo [da gente]
Queda dos anjos sobre a ponte de vidro

Viagem dos dantes...

Inimigos felizes com a imagem do infinito,
Vísceras que voam pra longe...

Partir num navio de prata pelas águas da saudade

partir num desejo efêmero e mentir numa angústia desumana para ver o mundo na linha do horizonte...


[Edemir Fernandes Bagon]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Menino Jesus,
que crescera
com tamanhas
dores e morrera
em grandes desamores
e que depois voltou à terra,
tendo antes ensinado e pregado
o princípio fundamental da vida
"amai-vos uns aos outros":
Viu o noticiário da TV ontem?
O que achou daquelas crianças
diante da igreja cheirando cola?


[Edemir Fernandes Bagon]

Espelho

Tenho comigo
O medo de me ver ao espelho
E perceber em mim
Vestígios de ser humano.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Real

When I dream
I see only your eyes
But sometimes they are so far
That I think to be a real dream...


[Edemir Fernandes Bagon]

Logaritmo



Mundo desigual
Igual sem igual
desigual Mundo

Mundo imperfeito
Perfeito feito
Imperfeito perfeito
Mundo...

Mundo sem metáforas
Hiperbólico metonímico
Metafórico e bélico
Sem expressão ou sentimento

Mundo ímpar - sem par
Ou conjunto universo ou verdade
Intersecção sem dor
Subtração...

Qual é o logaritmo de 2?
Amor.




[Edemir Fernandes Bagon]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Outubro

mas para que sentir tanto ?
de que modo o olhar pode ser revelado e por que o engano passa a ser tão simples?
existir por enquanto...
deixe a angústia dentro do livro e veja que nem sempre é possível.

[viver talvez?]

desejo do mundo ser inteiro -

mas para que ter de volta o que nem sentia ou o que nem por sobre o mar pairava ou, contrariamente, o que estendia a mão por sobre a areia?


se em dois me fizera o beijo
se em vários me fizera ser na pele para fingir que vivo...
para quê ?
ainda sinto tanto amor dentro dos olhos e ainda tanto quero fechar o livro, mas não consigo...


(Edemir Fernandes Bagon)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Libertação



Clara escondeu a alegria quando soube da morte de seu marido. Seu pensamento: livre. Estava livre e a primeira coisa a fazer seria: cortar os cabelos. A segunda, convidar a melhor amiga e ir ao parque. Terceira: não sabia o que fazer. Mas era bom sentir-se viva. Era como no dia em que fora à escola pela primeira vez. Descobrir as letras, as sílabas, as palavras... os números.
20, 40, 54 anos... viu e não viu o que se passou. E o que se passou? Nem mais se questionaria, não o era necessário. Tinha em mão apenas a necessidade de ser livre e isto o que lhe importava. Calara-se para o mundo durante a vida e agora não queria falar. Seu silêncio não era silêncio. Era linguagem, era milagre. Era a vida contida e descontínua pelo desamor do sonho. O sonho... Imenso corpo desenhado no mundo.
Seu corpo desenhado no céu se fortalecera tanto que não se reconhecia mais a esposa, a viúva, a que recebia os pêsames sem pesar. Jamais imaginou que faria com gosto o aperto de mão ou o abraço de amigos do outro que vieram velar. Lembrava-se disso com repugnância, não obstante sentira-se mulher.
E isso lhe era algo novo. Sentira-se mulher. Desde menina desejava saber o sentido daquela palavra. Fora antes filha - mãe - companheira - esposa. O que seria de agora em diante? Rasgava-se em risos. Gritava o nome santo de femina. Era ela independente e soberana. Era ela amor. Viu seu ser na expressão máxima do amor, viu seu ser na expressão máxima do ser livre.
Livrara-se do amor do desejo da carne. Guardara-se no coração. Encontrara a vida. Viu no passado toda tristeza do pai que se deitara a seu lado com seu corpo imundo. Ouviu no passado toda palavra suja do marido. Viveu no passado todo castigo torpe. Engoliu o cuspe do homem imundo e desejou a morte por quase a vida inteira.
Clara não era mais Clara. Naquela tarde, porém, depois da chuva, caminhou com alegria pelo meio-fio da rua e seguiu até onde se via a nascente do arco-íris. Estendera os braços e brincou de balanço no tempo presente com todos os sonhos de infância no sorriso.
Perdoara-se e, com a própria vida, soprou em si o princípio de sua história: todas as letras, todas as sílabas, todas as palavras e todos os números lidos agora de outra forma.

Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...