Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
domingo, 6 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Candeia
Flores coladas na pele
Prosa iludindo o mundo
Canto cingindo Édipo
Reverberar na transparência de seus olhos
Histórias da vida privada explicitadas
Deleite da dor arrancada no tempo
Informes publicitários de ambição
Discursos profanos nos bancos da igreja
Erudição hipócrita dos ilustres senhores de família
edemir fernandes bagon
domingo, 22 de abril de 2012
Hexagrama
Desvia seu olhar do horizonte.
Separa seu egoísmo do seu entendimento
Como fizeram o céu e a terra.
Como fizeram o céu e a terra.
Descansa no vazio o seu destino.
Enterra seu insano espírito no outono.
edemir fernandes bagon
domingo, 15 de abril de 2012
Cronologia
tempo e espaço nascidos de mim
memória e linguagem que ficam no escuro
ser livre é romper com o passado.
edemir fernandes bagon
memória e linguagem que ficam no escuro
ser livre é romper com o passado.
edemir fernandes bagon
sábado, 7 de abril de 2012
Páscoa
Era festa na casa de José - um sujeito importante na favela Monte Alegre porque conduzia a bateria do bloco carnavalesco do morro. Ele festejava o primeiro aniversário do filho. Havia registrado o menino em seu nome como Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios. Sua mulher chamava-se Maria. Corintiana e ex-testemunha de Jeová. José era um fanático torcedor da escola de samba Mangueira.
Desde quando nasceram, aquele era o dia mais feliz de suas vidas. Não era sempre que José tinha no bolso meio salário-mínimo ou que Maria pesasse cinqüenta quilos e meio. A verdade é que, após o nascimento da criança, ela não conseguiu mais pedir e receber esmolas. Antes existia a desculpa de que a refeição não seria propriamente para ela, mas para seu filho Jesus que estava em seu ventre. José era analfabeto. Descobriu isso aos vinte e três anos de idade. Não sabia assinar a ficha policial ao ser preso por furto. Aos trinta, vendia papel e ferro-velho. Dizia-se um “taxista de papelão”.
E na festa de aniversário do menino Jesus... as estrelas do rádio cantavam. Quinze quilos de carne de segunda, duas caixas de cerveja, bolo de fubá e salgados. Alegria ao som de outros Zecas. E o morro se alegrava feito reino nas alturas.
Vadão – traficante do morro e ilustre convidado – percebera um movimento estranho na parte baixa da favela. De repente, tiros de metralhadoras. Alguns homens se escondiam nos barracos. Outros atiravam contra homens fardados. Mortos nas escadas. A polícia procurava Vadão que estava na casa de José. Tiros e choro de criança. Juízo Final sem Deus.
O noticiário da manhã seguinte informava que vinte pessoas teriam sido feridas. Três mortos. Um dos jornais trazia na capa a imagem dos corpos: um homem, uma mulher e uma criança.
Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.
Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.
Era domingo de Páscoa.
edemir fernandes bagon
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Plásticos
como é possível ir de um mundo ao outro
se o amor descansa nos olhos de uma criança que sente fome
sentir a vida se estamos todos pensando na melhor forma de obter fortuna
ouvir o espírito se não há mais respeito pelo corpo vendido em praça pública
falar verdades se fingimos que somos verdadeiros sem palcos programas ou telas
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 23 de março de 2012
Cristianismo
de um lado, a imagem de mim mesmo numa luta constante com a realidade
de outro, inadvertidamente, o corpo desenha no espírito a vontade de viver sem amarras
no interior dos diálogos incessantes, que nascem da minha vida inventada com as vidas inventadas pelos outros,
um palco imensurável onde a linguagem se desnuda no silêncio
não somos nada diferentes uns dos outros
antes, formas elaboradas com grafites de mentira coladas no tempo
pelas ruas e sem destino julgamos a todo instante
existirá silêncio na culpa?
edemir fernandes bagon
de outro, inadvertidamente, o corpo desenha no espírito a vontade de viver sem amarras
no interior dos diálogos incessantes, que nascem da minha vida inventada com as vidas inventadas pelos outros,
um palco imensurável onde a linguagem se desnuda no silêncio
não somos nada diferentes uns dos outros
antes, formas elaboradas com grafites de mentira coladas no tempo
pelas ruas e sem destino julgamos a todo instante
existirá silêncio na culpa?
edemir fernandes bagon
sábado, 17 de março de 2012
Confidências
a vida é sempre infância inventando palavras para dar sentido ao mundo
para existir em nomes esquecidos no tempo
não se compreende porque é mar
não se faz plena porque é céu
ecoa no espírito dobrado
moinho à espera de vento.
edemir fernandes bagon
para existir em nomes esquecidos no tempo
não se compreende porque é mar
não se faz plena porque é céu
ecoa no espírito dobrado
moinho à espera de vento.
edemir fernandes bagon
segunda-feira, 5 de março de 2012
Fúrias
guarda o medo
e entrega o tempo
para as Fúrias
desfolheia o princípio
desenhando ruas
no mundo
íntimo
santo
correndo no interior d'alma
à margem do corpo
intensamente olha-te no espelho
para não ter certeza de nada mais
ser é tão feio do lado de dentro.
edemir fernandes bagon
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Aporia
Se suas certezas absolutas forem derrubadas pela revolução da interioridade,
Fique diante de um espelho d'água
Faça um pacto com Eco e Narciso
Dance com o Tempo para encontrar o Termo
E não se arrependa por ter sido sempre publicano.
Edemir Fernandes Bagon
Fique diante de um espelho d'água
Faça um pacto com Eco e Narciso
Dance com o Tempo para encontrar o Termo
E não se arrependa por ter sido sempre publicano.
Edemir Fernandes Bagon
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Mandamentos
guarda o segredo de viver em paz
para que não tenhas nunca que sentir saudade
guarda na caixinha colorida colocada no fundo do guarda-roupa
todo artesanato de tua vida
guarda uma foto de teu pai e de tua mãe
para não esquecer da tua origem
guarda os nomes de teus irmãos
para não te sentir só no mundo
guarda a data de toda conquista tua
para acostumar-te com a solidão
guarda na carteira o vazio das relações humanas
para não te perder no eu
guarda na memória o primeiro beijo na praça
como se fosse uma oração aprendida quando criança
guarda para sempre o nunca
para não te esquecer do sonho
guarda as impressões da ausência
para aguardar o nascimento do fruto
guarda as privações da vida
para bem longe da liberdade de ser
guarda o silêncio
dentro do tempo
guarda a tristeza
em tua própria vaidade
guarda em tuas mãos
todas as tuas lembranças
edemir fernandes bagon
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Alma
Alma: extensa superfície na qual repousa a vontade de ser tudo.
E
N
V
E
L
H
E
Ç
O
C
O
M
Amor
Apenas para esperar seus olhos castanhos.
Edemir Fernandes Bagon
E
N
V
E
L
H
E
Ç
O
C
O
M
Amor
Apenas para esperar seus olhos castanhos.
Edemir Fernandes Bagon
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Tasso
E num pedaço de mim
Escrevo agora
Para ser traduzido noutra língua
E ser feito de amor
Da mesma maneira que o universo
Compreendido apenas no silêncio
E colocado diante dos olhos para ser um mistério
Edemir Fernandes Bagon
Escrevo agora
Para ser traduzido noutra língua
E ser feito de amor
Da mesma maneira que o universo
Compreendido apenas no silêncio
E colocado diante dos olhos para ser um mistério
Edemir Fernandes Bagon
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Sinal
um instante perto do passado: palavra
enquanto o tempo não passa: calado
enquanto a infância é perdida: abraço
um sinal de angústia: fechado
um discurso vazio: aceno
uma carta de amor: salmos
um cansaço infinito: nascemos
edemir fernandes bagon
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Quando
Quando for o tempo
Quando for embora
Quando for a hora
Quando for ao templo
Quando for lá fora
Quando for aurora
Quando for nascer
Quando for morrer
Quando for maior
Quando for melhor
Quando for senhor
Quando for raiar
Quando for me amar
Quando for voltar
Quando for dizer
Quando for sofrer
Quando for cantar
Quando for sentir
Quando for fugir
Quando for entrar
Quando for o mar
Quando for o céu
Quando for mortal
Quando for amor
Quando for eterno
Quando for memória
Quando for história
Quando for matéria
Quando for singela
Quando for inglória
Quando for me olhar
Quando for seguir
Quando for partir
Quando for assim
Quando me quiser
Quando te disser
Quando eu sonhar.
Edemir Fernandes Bagon
Quando for embora
Quando for a hora
Quando for ao templo
Quando for lá fora
Quando for aurora
Quando for nascer
Quando for morrer
Quando for maior
Quando for melhor
Quando for senhor
Quando for raiar
Quando for me amar
Quando for voltar
Quando for dizer
Quando for sofrer
Quando for cantar
Quando for sentir
Quando for fugir
Quando for entrar
Quando for o mar
Quando for o céu
Quando for mortal
Quando for amor
Quando for eterno
Quando for memória
Quando for história
Quando for matéria
Quando for singela
Quando for inglória
Quando for me olhar
Quando for seguir
Quando for partir
Quando for assim
Quando me quiser
Quando te disser
Quando eu sonhar.
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Nevoeiro
publico meu corpo em
palavras que respiram
distintas formas da história
recente do amor que descubro
edemir fernandes bagon
palavras que respiram
distintas formas da história
recente do amor que descubro
edemir fernandes bagon
sábado, 7 de janeiro de 2012
Corpo de S.Paulo
Ruas do centro de São Paulo
República
Viaduto do Chá
Rua da Quitanda
15 de Novembro
Anhangabaú
Teatro Municipal
Corpos que se vendem embaixo da ponte
Mendigos por toda parte deitados na calçada
Mendigos nas esquinas formadas no Largo do Arouche
E o Colégio São Bento...
Um cheiro de mofo dentro do Edifício Conde Matarazzo
Elevadores dentro do estômago
Um movimento intenso nos escritórios de cobrança
Um movimento intenso dos terminais de ônibus
O desumano espelhado nos carros
A ficção do anonimato com destino
Destino apagado nos túneis do metrô
Vozes de oração do falso pastor
Encenação da vida (?)
Ferrugens nos ferros do bueiro
E um homem desce a escada rolante com apenas uma das pernas
E uma jovem sentada na mureta da praça espera
De onde vieram?
Para onde foram?
Ambos à venda ?
Enterram-se as flores com prédios inteiros demolidos
Mendigos que forram o chão das ruas
E os carros valem mais que todos esses corpos nas avenidas
E os carros valem mais que todos esses corpos nas avenidas
E os carros valem mais que todos esses corpos nas avenidas
Edemir Fernandes Bagon
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