sexta-feira, 23 de maio de 2014

Iridescência

As coisas são para a história o que se revelam.
Todavia ser é metafísica.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 11 de maio de 2014

Mistério

Mãe, não sei como seguir em frente.
A vida parece mais difícil agora.
Quando mais precisei, alguns poucos estenderam-me a mão.
Estou assim sem rumo - feito mar encontrando uma rocha imensa que não se move.
O que desmentir?
O que perdoar?
 O que procurar?
À noite,  perco-me nas lembranças. Sem o céu, o que fazer com a lua e as estrelas?
No entanto,  não estou disposto a regressar.
Não quero mais  sentir-me menor.
Tenho vergonha do que fizeram comigo.
Tenho medo da minha imagem no espelho.
Difícil desvendar o mistério de viver.
Creio estar fora do alcance do espírito (que não dorme).
A desumana arte da hipocrisia sempre como uma espécie de  luz que desaparece no encantamento do silêncio.
Esse mesmo silêncio sobre as pedras das ruas junto às igrejas e dos homens vazios nos seus cantos.
Fantoches.
Não há espaço para o tempo.

Mãe, um dia ... se puder,   venha  abraçar-me para eu sentir a Verdade outra vez.


Edemir Fernandes Bagon



sábado, 10 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Templos

 quando os olhos esquecerem do tempo
 e  folhas caírem no chão

quando imagens deixarem as horas
e os instantes partirem nas águas

quando os lírios deixarem os campos
e pedras virarem encantos

quando  ruas encantarem os anjos
e  os céus escreverem seus sonhos

quando os santos cantarem em versos
e noites cobrirem os tetos

quando finitos se tornarem almas
e os escritos sentirem o mundo

quando a vida deixar a saudade
e as mãos tiverem compaixão

quando os rancores se perderem durante a espera
e os caminhos deixarem saída

quando desejos debelarem a moral
e dos homens os egos recobrarem a razão

quando as coisas se revelarem nos espelhos
e as correntezas construírem castelos na areia

quando saírem os barcos do cais
e retornarem os veleiros e os sonhos

seremos templos



edemir fernandes bagon









quinta-feira, 1 de maio de 2014

Sobre o preconceito racial


Considerar o preconceito racial, a intolerância étnica e o racismo como práticas inaceitáveis, a meu ver, é tarefa natural dos homens justos. Não obstante, a sociedade humana apresenta alguns modelos de vida social em que o caráter grotesco de suas relações passa a ser aceito sem que a razão estabeleça critérios distintos e claros. Isso, a meu ver, é resultado das relações de poder instituídas ao longo da história da humanidade. Logo, em virtude da ausência dos critérios racionais, a sociedade humana produziu, infelizmente, a escravidão e o holocausto.

Nesse sentido, não enxergar o problema histórico do aviltamento humano constituiu-se em práticas comuns na vida em sociedade, pois, reconhecidamente, o homem não possui outro recurso senão o da crítica da própria razão para encontrar o princípio da igualdade. E, por conseguinte, dele fazer o fundamento de sua existência. Ficar a favor, ou não, de uma "campanha" é resultado de profunda reflexão acerca daquilo que é Justo. Para mim, quando a Razão demonstra a ausência de justiça, penso ser necessário o engajamento.

Claro que alguns dirão ser a mobilização um equívoco, afinal "um jogador de futebol recebe milhões por ano" e, portanto, numa sociedade dividida em classes, "estaria acima do bem e do mal". Outros dirão que se trata apenas de um comportamento inadequado de uma "torcida inflamada", porém, "cultural" (ver o caso Tinga). Ainda assim, o que está em jogo é a luta pela igualdade e pelo respeito à existência humana. 


Talvez, dessa maneira, compartilhando discursos contrários em redes sociais, numa conversa entre amigos ou em sala de aula - o racismo, o preconceito, a intolerância possam ser banidos não apenas do futebol, mas também, das delegacias de polícia, das penitenciárias, das escolas, das empresas e, quem sabe um dia, da vida humana.




Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Memorial dos meus olhos

imagens distintas da alma
congregação estrangeira 
palácios de Ben-Hadade
trilhos de ferro 
ferrolho de Damasco

muro de Gaza
Ecrom 
corpos em forma de montes
velhos exércitos no meio do deserto
cavalos santos gravados nas pedras
memorial dos meus olhos 





edemir fernandes bagon





quarta-feira, 23 de abril de 2014

Deus


veio-me assim o mundo imperfeito e sem luz

toquei o céu com os olhos dissonantes
          o mistério desfigurado sobre lagos

a alma não vê o que sente


edemir fernandes bagon










quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cena

descrever os sentidos da vida não basta
compreender é virtude

Cristo encontrado na cruz
distâncias de tudo
transparências

as cinzas que sobem
os montes

os pés e as mãos tocando a alma

longe desumano como se fosse incenso
barulho da chuva acima da terra lavando a madeira


Perto dos seus olhos
suas mãos me tocam.


edemir fernandes bagon



quarta-feira, 26 de março de 2014

Graal

E a gente continua buscando sempre o que não se conhece. A gente vive procurando caminhos sem saber para onde vai.



Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 19 de março de 2014

Beautiful Tango | Hindi Zahra

Gênesis

No princípio, eram o Verbo, você e eu. 
Você se fez carne. 
Então, a Luz desfez o que era Caos e me perdi outra vez.


Edemir Fernandes Bagon



Morro da Congonha



considere que a vida não seja um encontro mitológico do mar e da terra diante do olhos
que nem mesmo o amor tenha sido o princípio de discursos apostólicos
nem banquetes pagãos

caminhos estreitos da alma guardam flores esperando por frutos
destinos trilhos e montanhas sob pés humanos e corpos alados

para que nos servem as mãos se aquilo que carregamos são valores invisíveis
logotipos pintados nos céus em forma de armas
placas de igrejas declaradas em formulários da fazenda

sejam faustos ou poetas ou doutores
desígnios versos e títulos
mortes esculpidas na areia
caminhantes nus arrastados no asfalto

retirem os símbolos que dão ao ser
o que nos resta ainda senão os sonhos desfeitos
o que nos resta ainda senão contar os dias passados

o que nos resta ainda? aceitar? lutar? contra quem?


Edemir Fernandes Bagon








domingo, 16 de março de 2014

Nuvens

Sinos desenhados no céu
Nuvens em forma de gente

[E o coração vai assim tão longe como pensamento]


Edemir Fernandes Bagon




quinta-feira, 6 de março de 2014

Facilities


§ caminho por entre as coisas que delineiam meus sentidos

   não por acaso seus olhos me veem como conversa de amigos antigos
   não por acaso suas mãos me sentem como meninos diante do mundo
   não por acaso vejo e escuto seu espírito cantando para as flores

   descansa entre quadros pintados por Goya
   versos inversos incompreendidos de Lorca me encontram na memória das
   ruas

§ caminho por entre as coisas que delineiam a vida

  (ser livre é muito mais simples do que amar)


Edemir Fernandes Bagon








quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Caravelas




encontro caminhos
que desconheço

                       por entre nuvens diversas

me deixo desse lado

                     de corpo
inteiro
                      de outro
vazio


ainda procuro meu ser no mistério
ainda espero a chuva abrandar
talvez a vida me encante em silêncio
talvez o tempo me espere no mar



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Plásticos


eu me encontro 
com o tempo

eu me descubro
em nome do instante

eu me entrego

eu me guardo
sendo livre

eu me vejo 
por palavras

eu me escrevo

eu me prendo
nos seus olhos

eu me coloco 
no passado

eu me invento
no inverno

eu me perco



edemir fernandes bagon






sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Perfeição

por entre  céus
cantos e destinos

claras formas nuas
encontram amor

para sempre
num só corpo


Edemir Fernandes Bagon


 (Carlo Saraceni, Salmacis y Hermafrodita, h. 1608. Nápoles, Museo Nazionale di Capodimonte)




Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...