Com uma força imensurável
A vida continua se desfazendo
Dos amigos antigos e do amor.
Pouco a pouco sendo colocada
Em caixas decoradas pelo silêncio
Guardada no interior da memória.
E por completa indecisão segue o sonho
Desenlaçando o vício dos olhos
De um caminho ausente.
Com uma força imensurável
A vida segue sem olhar para o lado
Representando apenas as cortinas claras de um quarto.
Edemir Fernandes Bagon
Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
sábado, 30 de junho de 2012
terça-feira, 26 de junho de 2012
sábado, 16 de junho de 2012
Conspiração
compreenda a vida
para descobrir o amor
escreva acerca do instante
para existir
arrependa-se para herdar
o mundo das escolhas
divida-se em ser para ter o bem
aguarda a hora de partir para transformar
conspira contra a vingança
para que não haja mais memória
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Ruas do Horizonte
instantes que se encontram na manhã fria
movimentos do ser despedindo-se do que foi
incontáveis formas insanas na solidão
que perdoam para continuar mentindo
folhas molhadas nas ruas sem destino
corpo na memória desamparado
imagens infelizes de alegria
cantos e sombras perto de flores
nascidas embaixo dos tetos
mães e filhos em forma de asas
cristalinos olhares para o céu
letras colocadas no portão
decodificando o mistério da desigualdade
números enviados para Deus
ou para serem engolidos feito Jonas
(pela televisão?)
Edemir Fernandes Bagon
quinta-feira, 31 de maio de 2012
As três meninas
Enquanto carros e caminhões seguem seus destinos
pela Rodovia Governador Mário Covas
Sob a ponte do Rodoanel
Em direção à Estrada das Rosas
Bem perto da Avenida Plutão
Três meninas pequenas brincam de casinha
Como se fossem verdadeiramente proprietárias da terra
Como se o espaço privado e doméstico inventado por elas
Lhes resguardassem direitos a uma infância com vida
Como se fossem elas as mães verdadeiras que em seus sonhos se formaram inatas
Como se no poder de suas existências transcendessem as diferenças sociais
Fomentadas pelo progresso irônico e dissimulado
Em nome dos interesses mesquinhos de governantes ausentes
As três meninas que brincam sob a ponte correm para o ponto de ônibus
Acenam para um motorista
Singularizando a miséria de suas inocências
Paralisando o tempo com os braços estendidos
Apenas para viver no espaço do sonho a falsa liberdade de serem felizes
Seguramente não comeram o pão da vida real
Não leram os provérbios pichados nos muros debaixo da ponte em que vivem
Desde o princípio criadas sem nome no mundo
Em silêncio...
Edemir Fernandes Bagon
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Prelúdio
a dúvida se disfarça de amor ao próximo
nem sempre o que disser
será visto como um gesto de confiança
(são as palavras águas de um rio imenso)
a vida sente o desconhecido
enquanto o pensamento descansa
num paraíso perdido
edemir fernandes bagon
domingo, 20 de maio de 2012
Quântica
com o tempo
as certezas se desfazem
e ficam as inquietações do espírito diante de um mundo triste
ainda que os caminhos sejam conhecidos
os atalhos ficam perdidos nas vilas do sonho
com o tempo
o que fora feito um para o outro
se torna unitário
indiviso
unilateral
o eu se transforma numa
historiografia oficial impressa
conforme a vontade soberana
de um rei imaginário numa corte de tolos ambiciosos
com o tempo
as cores se perdem na ausência da beleza
as flores escrevem na terra a essência
e desabrocham diante dos olhos o que já não são mais
liberdade nua encerrada em textos religiosos enganam
bem como a fé insana vestida em secular orgia de capital verborrágico
com conta legitimada em banco
com o tempo as formas se definem em quântica
e o amor em terça parte quase sempre.
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 6 de maio de 2012
Diferenças
A diferença entre o que somos e o que queremos ser está na intensidade daquilo que julgamos amar.
edemir fernandes bagon
edemir fernandes bagon
Continuum
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
O silêncio compreende o desejo da palavra.
edemir fernandes bagon
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Candeia
Flores coladas na pele
Prosa iludindo o mundo
Canto cingindo Édipo
Reverberar na transparência de seus olhos
Histórias da vida privada explicitadas
Deleite da dor arrancada no tempo
Informes publicitários de ambição
Discursos profanos nos bancos da igreja
Erudição hipócrita dos ilustres senhores de família
edemir fernandes bagon
domingo, 22 de abril de 2012
Hexagrama
Desvia seu olhar do horizonte.
Separa seu egoísmo do seu entendimento
Como fizeram o céu e a terra.
Como fizeram o céu e a terra.
Descansa no vazio o seu destino.
Enterra seu insano espírito no outono.
edemir fernandes bagon
domingo, 15 de abril de 2012
Cronologia
tempo e espaço nascidos de mim
memória e linguagem que ficam no escuro
ser livre é romper com o passado.
edemir fernandes bagon
memória e linguagem que ficam no escuro
ser livre é romper com o passado.
edemir fernandes bagon
sábado, 7 de abril de 2012
Páscoa
Era festa na casa de José - um sujeito importante na favela Monte Alegre porque conduzia a bateria do bloco carnavalesco do morro. Ele festejava o primeiro aniversário do filho. Havia registrado o menino em seu nome como Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios. Sua mulher chamava-se Maria. Corintiana e ex-testemunha de Jeová. José era um fanático torcedor da escola de samba Mangueira.
Desde quando nasceram, aquele era o dia mais feliz de suas vidas. Não era sempre que José tinha no bolso meio salário-mínimo ou que Maria pesasse cinqüenta quilos e meio. A verdade é que, após o nascimento da criança, ela não conseguiu mais pedir e receber esmolas. Antes existia a desculpa de que a refeição não seria propriamente para ela, mas para seu filho Jesus que estava em seu ventre. José era analfabeto. Descobriu isso aos vinte e três anos de idade. Não sabia assinar a ficha policial ao ser preso por furto. Aos trinta, vendia papel e ferro-velho. Dizia-se um “taxista de papelão”.
E na festa de aniversário do menino Jesus... as estrelas do rádio cantavam. Quinze quilos de carne de segunda, duas caixas de cerveja, bolo de fubá e salgados. Alegria ao som de outros Zecas. E o morro se alegrava feito reino nas alturas.
Vadão – traficante do morro e ilustre convidado – percebera um movimento estranho na parte baixa da favela. De repente, tiros de metralhadoras. Alguns homens se escondiam nos barracos. Outros atiravam contra homens fardados. Mortos nas escadas. A polícia procurava Vadão que estava na casa de José. Tiros e choro de criança. Juízo Final sem Deus.
O noticiário da manhã seguinte informava que vinte pessoas teriam sido feridas. Três mortos. Um dos jornais trazia na capa a imagem dos corpos: um homem, uma mulher e uma criança.
Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.
Sob a foto os nomes: José Nazaré da Silva (30), Maria Dolores Cruz da Silva (27) e Jesus de Nazaré Mangueira Coríntios da Silva (01). Lia-se na manchete: SENHOR, PERDOAI A ESTES HOMENS, POIS ELES NÃO SABEM O QUE ESTÃO FAZENDO.
Era domingo de Páscoa.
edemir fernandes bagon
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Plásticos
como é possível ir de um mundo ao outro
se o amor descansa nos olhos de uma criança que sente fome
sentir a vida se estamos todos pensando na melhor forma de obter fortuna
ouvir o espírito se não há mais respeito pelo corpo vendido em praça pública
falar verdades se fingimos que somos verdadeiros sem palcos programas ou telas
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 23 de março de 2012
Cristianismo
de um lado, a imagem de mim mesmo numa luta constante com a realidade
de outro, inadvertidamente, o corpo desenha no espírito a vontade de viver sem amarras
no interior dos diálogos incessantes, que nascem da minha vida inventada com as vidas inventadas pelos outros,
um palco imensurável onde a linguagem se desnuda no silêncio
não somos nada diferentes uns dos outros
antes, formas elaboradas com grafites de mentira coladas no tempo
pelas ruas e sem destino julgamos a todo instante
existirá silêncio na culpa?
edemir fernandes bagon
de outro, inadvertidamente, o corpo desenha no espírito a vontade de viver sem amarras
no interior dos diálogos incessantes, que nascem da minha vida inventada com as vidas inventadas pelos outros,
um palco imensurável onde a linguagem se desnuda no silêncio
não somos nada diferentes uns dos outros
antes, formas elaboradas com grafites de mentira coladas no tempo
pelas ruas e sem destino julgamos a todo instante
existirá silêncio na culpa?
edemir fernandes bagon
sábado, 17 de março de 2012
Confidências
a vida é sempre infância inventando palavras para dar sentido ao mundo
para existir em nomes esquecidos no tempo
não se compreende porque é mar
não se faz plena porque é céu
ecoa no espírito dobrado
moinho à espera de vento.
edemir fernandes bagon
para existir em nomes esquecidos no tempo
não se compreende porque é mar
não se faz plena porque é céu
ecoa no espírito dobrado
moinho à espera de vento.
edemir fernandes bagon
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