domingo, 13 de setembro de 2015

Caelum

Minha alma é um escrito deixado no tempo por Deus
Meus olhos são versículos datados nos mais diferentes livros sagrados
Meu coração não cansa porque todo ele é feito de salmos

Meus pés resistem nos cânticos de todos os calvários
Minhas mãos - pregadas por reis em madeira -
                      ungidas com água salgada pelas mulheres que sofrem

Mar inteiro ornado pelos dedos das filhas
Desertos tocando no céu vermelho
Setenta vezes sete dividido por amor ou por qualquer mistério

Minhas são as pedras do sepulcro
Minhas são as chagas do passado
Meus são os perdidos pelas praças
Meus são os que vivem nas calçadas

Meus os que deixam os sonhos
Meus os que escrevem nos cantos com a forma de seus corpos


Nasci esperando sua ausência



Edemir Fernandes Bagon



(Jornal do Brasil.Operação acolhe 95 usuários de crack na região de Manguinhos )






sábado, 12 de setembro de 2015

Enquanto


O medo  está sobretudo na ideia  de que o destino possa de fato existir
                                                 e de que a multiplicidade dos eventos esteja sob o domínio da razão

ou  que seja uma pretensão dos homens em fazer do amor uma categoria do discurso apenas

prefiro buscar compreender a vida  a partir de suas próprias contradições
visto que os olhos só entendem os caminhos imaginados ou deixados no tempo


por hora me encontro em paz com os instantes (que não são deuses e nem nobres)



fossem os desejos prescritos em leis
fossem sabidamente reconhecidos os lugares  em que as sementes se abrem para acolher o mundo

ou tivessem os jovens amantes dons de profecia



o medo não significaria forma de opressão nenhuma
porque o destino transfigurar-se-ia em humanidade



existiriam assim os caminhos do mundo

por enquanto



Edemir Fernandes Bagon




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Ornitorrincos

depois de caminharem à beira da estrada sob forte chuva
mais de três mil entraram na Áustria

imigrantes sem poesia atravessam os campos
Antígona silencia os que esperam nos barcos longe dos deuses


Edemir Fernandes Bagon










sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Γένεσις



amanhã, o mundo será o mesmo
pois quase nada se transforma sem amor

quase nenhuma forma se desfaz sem a presença da memória

quase nenhum sentido na contramão da luz encontra um fim
posto que o  mundo inteiro se esconde atrás de máscaras

os olhos podem mentir para Deus?
o destino tem medo dos círculos?


pouco importa

amanhã, o mundo será o mesmo
pois quase nada se transforma sem desejo


Edemir Fernandes Bagon











terça-feira, 1 de setembro de 2015

Resignação


as folhas caem e desaparecem
as mãos não as tocam 

mas os olhos 
estes continuam livres 


edemir fernandes bagon

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Reinados

Escolham o destino dos ritos

Atirem as folhas no chão imperfeito

Vistam o abismo sagrado inventado pela ambição

Corpos em cópula esguicham espinhos no céu


Desumano orgulho dos déspotas travestidos de deus

 Estrelas descansam no mundo com heróis forjados no inferno

 Defendam a morte dos sonhos porque as águas não limpam o calvário

Recomecem a farsa dos anjos azuis


Cortem a pele dos monstros criados por leis

Venham com um presente escondido por dentro dos cavalos de madeira


Olhos de Judas, mãos de Pilatos´

Pés lavados no escuro


Mar e reinado entre as cabeças cortadas 

Pedras lançadas no mundo 

Poemas de Ló na loucura



Edemir Fernandes Bagon



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Antídoto


somos pedintes durante a vida inteira
porque os olhos semeiam palavras em tudo

enfeitam com flores
os caminhos curvos

espreitam o instante sem saber contudo
que sentir é antídoto para não sofrer no mundo


Edemir Fernandes Bagon


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Semântica


Seriam os passos dados por entre caminhos
Seriam as luzes vistas de longe
Seriam os segredos escritos
Seriam os deuses com flores
Seriam os mistérios e horrores

Seriam as canções sentidas
Seriam os outros perdidos
Seriam os gritos ouvidos
Seriam os princípios vendidos
Seriam as formas perfeitas

Seriam as almas e corpos
Seriam os pecados os trapos
Seriam os choros os laços
Seriam os desertos os olhos
Seriam disformes os sinceros

Seriam desejos os credos
Seriam menores os sonhos
Seriam tantos os espaços
Seriam grandes os temores
Seriam claros os espíritos

Se não fossem as dúvidas
Se não fossem as distâncias
Se não fossem as letras
Se não fossem as águas
Se não fossem os montes

Se não fossem as notas
Se não fossem as horas
Se não fossem as formas
Se não fossem os lados
Se não fossem os falsos

Se não fossem os santos
Se não fossem as mãos
Se não fossem os instantes
Se não fossem as virtudes
Se não fossem os círculos


Teria a vida algum sentido?



Edemir Fernandes Bagon





(O terapeuta (1941) - René Magritte)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Visionários










É uma pena que os olhos não veem o que a alma insiste sentir.






edemir fernandes bagon

Estado de sítio

Faça da loucura sua razão.
Cria uma guerra contra suas ideias fundamentadas em certezas. 
Cala o silêncio do instinto.

Edemir Fernandes Bagon


Diáspora

Encontro Deus
quando
tenho
medo

do mundo.



Edemir Fernandes Bagon

"O Grito", Edvard Munch, 1893.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Lune

desaparecem no tempo os sonhos
os fios das tragédias se desenlaçam

meu corpo, porém, encanto com as tuas mãos
e a vida passa procurando o mar ainda





edemir fernandes bagon

Olhos de Édipo


os olhos de Édipo se desencantam do mundo
descem imundos num poço com claras águas
lutam em campos feitos de almas


edemir fernandes bagon





quarta-feira, 15 de julho de 2015

Emy Reynolds - Tonight

Portal dos Olhos

{descobrimentos
 -  instantes muito mais significativos do que a capacidade dos homens de intuir o destino}

{debruçar o eu sobre o próprio eu em busca de paz.
 - em contentamento, sentir o mais abstrato sem supor condição alguma}


{a esperar o mítico, 
  a compreender o enredo,  
  a buscar resposta para o enigma da salamandra,
  vivem os olhos}


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Parênteses

 encontro cores escrevo  palavras desenho paredes 
invento caminhos apago instantes recrio passados
traduzo olhares sinto cantos espero retornos desejo abraços anseio segredos toco vazios escuto silêncios abraço almas guardo verdades escolho sentidos esqueço imagens lembro vozes sublinho nuvens
 entrego saudades 


....
eu te amo entre parênteses





edemir fernandes bagon










quinta-feira, 25 de junho de 2015

Olhos

o corpo o silêncio encanta
o espírito alcança a palavra ausente
e acalenta os anjos com a sua voz

[que os olhos digam o que o coração não sente]


Edemir Fernandes Bagon 







quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dicionário

nasce o tempo
com a forma de amor

seus olhos encantam o mundo

vez em quando
me encontro traduzindo sua vida em versos de lembranças minhas

como encontrar o sentido primeiro de sua língua misturada na minha?


Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sísifo

o presente sempre desmente o destino
de repente
o desconhecido amor inventa uma de suas histórias
e o caminho de pedras figura diante dos olhos
como um arco-íris



edemir fernandes bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...