segunda-feira, 22 de março de 2010

Milésimos




Sabe que, por um instante,
O instante passou a ser um momento
inteiro da vida ?

E que por um momento
O momento passou a ser o tempo todo
(O todo inteiro do tempo)

E este resistiu e deixou de ser apenas
o instante do momento pela vida

De repente, todos os segundos
todos os milésimos
de segundos
se revoltaram e
organizaram
uma rebelião atemporal
contra o relógio e o tédio


Sabe que, às vezes, a melhor forma de dizer
a todo instante sobre
a vontade, o desejo e a razão
é por meio da timidez do olhar ?

Vou olhar um pouco do mundo
Porque agora te sinto.

Edemir Fernandes Bagon








terça-feira, 16 de março de 2010

Os Mendigos da Praça da Sé


Um cheiro de repolho podre encarnado em suas roupas e corpos. Mãos grudentas e unhas e bocas imundas.  Ela servia-lhe água num copo de plástico encontrado no chão.

Subserviente, a mulher lhe trouxera o líquido como se fosse aquele homem um imperador da praça da Sé. Ficou ao lado de seu senhor que bebia a água da fonte do banheiro público. Este, num gesto de nobreza, deu à mulher o resto d'água. E, então, seus olhos contemplaram juntos o que era o mundo.

A mulher se deitou na praça como a musa árcade de um livro de Bocage. Bebeu também da límpida água com gosto soberano. Diante da estátua do apóstolo Paulo, num abraço de mesma natureza, encontraram-se. E uniram suas línguas num quase silenciamento de amor.  



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 14 de março de 2010

Nascentes




da árvore cai a fruta vermelha que tem sabor de infância

da chuva vem a alegria da lembrança do primeiro beijo



do caminho feito de pedras cinzas não me lembro

das mãos nascem as formas da tristeza



das janelas tem-se o gosto das estrelas de absinto

dos espelhos surgem sonhos invisíveis



das entranhas nascem cegas as paixões

dos instantes vem a vida sem o linho



das estátuas surgem tortas as palavras

da morte descobrem-se os olhos de um menino



da espera viera a mãe com os braços enterrados

da saudade foram lançados do outro lado os espinhos

dos sinos construíram as igrejas com as portas fechadas


do oposto criaram-se os mártires de bronze
do início veio a carne sem o verbo

do início veio a carne sem o verbo

[Edemir Fernandes Bagon]









quinta-feira, 11 de março de 2010

Desenhos


 desenlaçado do instante do medo

 de tempos em tempos
 nasce o amor
 como se fosse  flores no mundo


 de tempos em tempos me vem a saudade
 como se fosse ventos por sobre as colinas


 de tempos em tempos
 me reconheço pleno nos caminhos da vida
 que se desfazem aos poucos


 foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?


 o exterior nada sente com a ausência?
 o exterior é um sorriso infantil quase sempre?



 importa é o que está aqui dentro do meu coração modelado
 feito argila em mãos de  artesão


 meu coração é a imagem do artesanato de minha alma
 alma em forma de cerâmica antiga
 descoberta por efeitos de luz

 artesanato autônomo
 colocado em minha mesa de dentro

 de tempos em tempos 

 retiro a toalha colocada sobre o coração pelo esquecimento
 e as imagens vão se transfigurando em pele diante dos meus olhos 



 de tempos em tempos
 no mundo procuro o escuro
 sem ao menos me recordar do que fui ou do que seria




 me vejo longe e tão longe
 que estranho qualquer história na qual me  reconheça
 pois sempre quis ser apenas um título sem corpo ou apenas um   
 texto escrito no vitral de uma igreja


de tempos em tempos eu me esqueço.




Edemir Fernandes Bagon

sábado, 20 de fevereiro de 2010

II Reis

Não gosto de ir em busca das origens das coisas. Como posso partir para o ponto inicial de tudo se fico sempre no meio do nada? Sei  que o caminho é apenas a imagem daquilo que não é mais. Já não é um grito de dor, porque se tornara canto (não estando mais presente).  A imagem rasga o instante. Sinceramente, ele não me pertence. Não o vejo como um herói. 
Deus é o instante das coisas ausentes. E essas coisas ficam em mim por um longo tempo até que tudo se desfigure e venha a se tornar um trágico riso. De modo que o eu [a consciência de si] transfigura-se em sonho - senhor da infinitude. Nele vive a verdadeira imagem do homem cuja origem  é a perfeição imaculada.
Deus é um sonho profundo do homem. O instante de toda a busca. O sonho que transcende a morte (pôr-do-sol). Breve e triste a cantiga.  A música não existirá enquanto estiver dormindo o ser. A libido, a volúpia e eros caminham na linha em espiral. Nenhuma origem. 
A existência é um símbolo de amor tangente da canção ímpar e a versão mais figurativa da humana unidade solipsista. Bioencarnação do espírito? Fria e sangrenta origem que não procuro. Mas  isso não basta apenas. É preciso fugir e contemplar o pôr-do-sol antes que  sejam abertas as janelas.



Edemir Fernandes Bagon

Definição



Eu não sou uma linha reta,
ou um círculo,
ou um quadrado...

Sou um
gráfico com altos e
baixos.




[Edemir Fernandes Bagon]

Gabriel

Queres conhecer o mundo
Com a ponta
De teus dedos.


Queres aprender a linguagem
Dos homens
Sendo anjo.


[Edemir Fernandes Bagon]

Para meu pai

Os homens deveriam ser tão bondosos quanto meu pai.



[Edemir Fernandes Bagon]

Sol e Estrela

Vem e conheça o sol
para despedir-se com a voz
por entre as vidas e as horas
cada sonho se perfaz com um pouco do mundo
e o homem fica com a forma de um mosntro

Vem e conheça o sol
dê ao sonho o que pede a planta à terra
diferente como um menino que nasce
diferente como o amor que morre

Vem e conheça o sol
e não retorne ao ponto em que antes estavas
uma promessa
uma vingança
um temor

Vem e conheça o sol
para não tardar
para não ficar com a sensação 
de não ter feito do sonho uma realidade

Vem e conheça o sol
assim que o beijo no espírito
se tornar insípido
assim que o velho nada mais souber
 e sua vida não tiver mais sentido

Vem e conheça o sol e o sempiterno mundo
e ficarás feliz como uma estrela da manhã
 se não estiver chovendo.

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

2004

viver sob os olhos de Deus
beber o resto
comer o lixo
fumar bitucas de cigarro tiradas do chão
ter o nome associado à ideia do mal

ainda assim
a coisa bela:
ter um filho
nos braços
e dormir



edemir fernandes bagon

Função f(x)

A reconstrução é o limite da função f(x)= vida + amor.
Não existe nem no mais infinito,
Tampouco no menos infinito.

O mais infinito é você.




[Edemir Fernandes Bagon]

CONCEITO

A SOLIDÃO É  O PONTO-FINAL
DE UMA ORAÇÃO AMOROSA-ABSOLUTA 
ESCRITA NUM PAPEL EM BRANCO...




[EDEMIR FERNANDES BAGON]

INVERNO

DESENHO UM QUADRADO
NUM CÉU ESTRELADO
REVIRO A GAVETA
DO ARMÁRIO EMBUTIDO
ESCREVO À MÁQUINA
UMA CARTA DE AMOR
PROCURO PERDIDO
UM PEDAÇO DE DOR
DESDOBRO MEU OLHAR
DIANTE DO MUNDO
ESTRANHO O VAZIO
PRESENTE NO MAR
EQUILIBRO O SEGUNDO
ERGUIDO NO AR
E TERMINO PERSONAGEM
DE MIM MESMO DENTRE
TODOS OS OUTROS
MORRO E RENASÇO NO FOGO
JOGO MINHAS CINZAS AO VENTO
E AS VEJO AO ABRIR AS JANELAS DO MEU QUARTO
REFLETIDAS NOS RAIOS SOLARES DO MEU INVERNO.


EDEMIR FERNANDES BAGON

GENTE

GERALMENTE, A GENTE SÓ GOSTA DAS PESSOAS DEPOIS QUE ELAS SE VÃO.
E SÓ PENSA NELAS QUANDO NOS ESQUECEM OU QUANDO NÃO NOS PERDOAM.
A GENTE SÓ SENTE AS PESSOAS SE ACASO NOS TOCAM.
NO ENTANTO,
A GENTE SÓ É GENTE QUANDO SONHA
OU QUANDO O AMOR É REPARTIDO
OU QUANDO A DOR É SUPERADA COM SORRISO
OU QUANDO O SORRISO SE TRANSFORMA EM BRILHO DE ESTRELA
NUM CANTO SUAVE.


[EDEMIR FERNANDES BAGON]

ANGÚSTIA

EU DIGO MUITAS COISAS
QUE NÃO SINTO.
SINTO MUITAS COISAS
QUE NÃO FALO.


RESULTADO: ANGÚSTIA.


[EDEMIR FERNANDES BAGON]

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Viagem

Partir é sempre o desejo da gente.



Somos nômades por entre vales e montanhas.

Somos multidões atravessando os desertos e o inconsciente.

Intranquilos seres,sobretudo vivos, navegantes mendigos...


Caravanas inteiras sem destino.



Partir é sempre desejo da gente.



Somos sempre estrangeiros

Viajantes com sede de viver

Ancoradouros partidos

Estrelas cadentes


Meninos e meninas abandonados no mundo


Partir é sempre o desejo



Repentistas do amor
e
Mascates da vida,

Somos destinos por entre dedos estendidos no coração inventado !

Somos pais que morrem sem perdão !

[...]
Partir é sempre o desejo [da gente]
Queda dos anjos sobre a ponte de vidro

Viagem dos dantes...

Inimigos felizes com a imagem do infinito,
Vísceras que voam pra longe...

Partir num navio de prata pelas águas da saudade

partir num desejo efêmero e mentir numa angústia desumana para ver o mundo na linha do horizonte...


[Edemir Fernandes Bagon]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Menino Jesus,
que crescera
com tamanhas
dores e morrera
em grandes desamores
e que depois voltou à terra,
tendo antes ensinado e pregado
o princípio fundamental da vida
"amai-vos uns aos outros":
Viu o noticiário da TV ontem?
O que achou daquelas crianças
diante da igreja cheirando cola?


[Edemir Fernandes Bagon]

Espelho

Tenho comigo
O medo de me ver ao espelho
E perceber em mim
Vestígios de ser humano.


Edemir Fernandes Bagon

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Real

When I dream
I see only your eyes
But sometimes they are so far
That I think to be a real dream...


[Edemir Fernandes Bagon]

Logaritmo



Mundo desigual
Igual sem igual
desigual Mundo

Mundo imperfeito
Perfeito feito
Imperfeito perfeito
Mundo...

Mundo sem metáforas
Hiperbólico metonímico
Metafórico e bélico
Sem expressão ou sentimento

Mundo ímpar - sem par
Ou conjunto universo ou verdade
Intersecção sem dor
Subtração...

Qual é o logaritmo de 2?
Amor.




[Edemir Fernandes Bagon]

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...