quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ainda

Ainda o vento continua brando
Ainda há um pouco de cinzas nos cantos da casa
Ainda teu olhar castanho permanece

Desço a rua para ver o mundo e sentir um pouco do outono
Sentir as folhas caindo

Meu corpo
brando vento em canto cinza

edemir fernandes bagon

Desencantos

Uma criança pega uma laranja podre
na rua da feira.
Desencanto-me, mundo.


Edemir Fernandes Bagon



O Grito

Grito pelo pouco pão dos pobres,
porque dormem nas cinzas ruas
como cinzas.

Vejo o podre andar das vidas negras secas
que alimentam homens
de gravatas e ternos...

De repente, o caminho estreito -
um beco que balança os mortos que esqueceram o sorriso em seu último aviso

Expiraram-se preconceitos, amores e angústias...
[Pois nem sempre viver é o que queremos.]

Cobrir-se com calendário para não ver o tempo e
ver o sentido contrário da criança livre e de existência pura.

edemir fernandes bagon

Invenções

invente um novo coração com plena liberdade de amor 
para que se tornem  sonhos todas as dificuldades da vida
um coração em forma de escudo, mas daqueles de quando se é um menino ainda...
[o que não invalidaria um verdadeiro duelo em tempos de aflição e de loucura]

invente um outro tipo de alma

sem karma
sem inferno
sem paraíso

uma do tipo trança de cabelo de menina [todas as formas livres]
alma da cor do primeiro encanto da vida,
e com rugas também, 
porém sem esclerose nenhuma

invente novas formas de poder com nenhum caráter político
com caráter nenhum de influência sobre o comportamento dos homens
invente outra questão mais complexa  que a da natureza das relações humanas
considere ainda a possibilidade de jamais ter sido visto e analisado o pensamento
invente um quadro artístico sem nada haver pensado 
[com a dimensão de tudo e de mais nada]
como se não houvesse intenção de compreender o feito da tragédia nascida

espere pela ressurreição da noite para que acenda o fogo
e possa iluminar um navio em pleno mar [inventado e distante]

invente um tipo diferente de dor
azul quando estiver triste ou verde quando eu partisse 
em caso de paixão, porém,  castanho-escura 

mas que seja apenas isso: dor inventada
podendo ser formatada quanto ao tipo de fonte

invente outra alma que possa controlar o amor
porque o corpo não pode, pois  não é livre

invente a vida
com ou sem um porto
com ou sem partida

invente o amor
em outras cores para os olhos
- e não corte suas tranças de menina,
porque não se é invenção nenhuma

deixe-se livre como duas almas perfeitas segurando um escudo em forma de coração.

inventar será isso?


edemir fernandes bagon

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

FIM



Quero um filme de amor
num final de tarde
para depois me imaginar o herói da mocinha
para depois me imaginar caminhando ao lado dela
e na frente da tela não ver o final escrito...



Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Em Cada Canto do Mundo



cada canto do mundo
recorto com os olhos
e colo com os dedos
o menor pedaço

em cada vento que sopra
eu o inspiro
e o coloco num muro diante de mim
e me transformo em todos os teus sonhos

quase me engano
quase me perco
para ter aqui o que nem sei

cada canto não sente
cada canto não vive
em cada canto do mundo 

sem contudo encontrar a razão
daquilo que poderia ter sido perfeito
sem terminar
com todos os medos


se em cada canto do mundo
não puder ser livre
como filme
como doce encontro
como semente dentro do fruto

rasga a figura da matemática
e vem viver comigo 

sem número nenhum
em cada canto do mundo
para ser apenas meu filho


edemir fernandes bagon

Formatura de Meu Filho



ouvi meu filho cantar hoje
como se eu estivesse nos seus braços
como se eu fosse o filho
como se eu ouvisse a mim mesmo
feito criança de colo ainda
 e sentisse os dedos pequenos no rosto


ouvi meu filho cantar hoje
como se fosse minha mãe falando tranquilamente
com meu irmão e minha irmã e meu pai
como se eu estivesse outra vez na rua a jogar bola
como se eu estivesse em minha sala de aula com a professora Glória
como se meu espírito vivesse  numa outra época


eu ouvi meu filho cantar para mim
(só para mim e mais ninguém)
como se eu fosse um herói de guerra
como se ele fosse Dylan
como se eu fosse muito mais do que todos os mortais da terra



eu o ouvi cantar para mim hoje e decidi viver para sempre


edemir fernandes bagon

Fluorescência


quando vier a luz 

serei poeira 

e se o tempo deixar a vida 

nem mesmo serei o que um dia quis ser 

quis sobretudo ter apenas o tempo 

para ser um pouco do mundo como criança de colo

e me cansei de tudo 

deixei todas as coisas de um lado 

transformei um vaso em flores sintéticas 

e percebi em mim mesmo quase nada 

me deixei como um velho que caminha para casa 

e fiquei na varanda do céu com os dedos dos pés sobre o mar 


edemir fernandes bagon

Destino



e se amanhã eu me esquecesse de todo e qualquer destino
e me visse apenas ser 

sem cor
sem dor
sem forma
sem escudo

e se amanhã eu me visse  feito apenas de luz 
ou me encontrasse  dentro de uma caixa pequena
sendo desejo 
sendo passado invertido

e se amanhã eu me reinventasse com um toque de luz
e me transformasse em amor 



edemir fernandes bagon

Dente de leite




queremos o mar inteiro

queremos o doce e o sal de toda vida

queremos os segundos e todos os sorrisos

queremos a infância

queremos saída

queremos transformar o interior da sala

queremos o mundo

queremos no fim de tudo apenas que os dois se beijem e que

sejam felizes até que o FIM desapareça na sala de cinema

queremos ter de volta queremos uma troca apenas

queremos terminar o conserto para ver que tudo tem jeito

que tudo é perfeito

queremos isso e aquilo 


para dizer que fizemos 


para nos verem maiores do que somos

(ainda maiores)

De repente, os meninos da estação atravessam a rua querendo pão


querendo leite,

querendo então nosso deleite

escondido bem no bolso da direita

queremos mesmo é  que se vão embora

queremos mesmo que morram (?)

não agora (?)

E ele, com uma pequenina e suja mão (bem suja)

bate no vidro de tudo aquilo que queremos e fala para a moça linda do automóvel (...)

Diz ela ser um batom:  " Tudo o que tenho!"

E pede ele um pouquinho daquele vermelho na boca vista no espelho

e  a deixava  igual a atriz da TV e do cinema...


Era só um beijo de batom 



que o menino queria

um menininho mesmo


com dente de leite e tudo.


Edemir Fernandes Bagon

Vento Leste

Doar-se aos olhos
como a chuva se doa à terra

Entregar-se ao coração
como os anjos fazem nos cantos do mundo

Tornar-se madeira
para servir de mesa

Virar imagem
para ser amado

(Vento leste que me leva para longe)

Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...