Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
domingo, 14 de março de 2010
Nascentes
da árvore cai a fruta vermelha que tem sabor de infância
da chuva vem a alegria da lembrança do primeiro beijo
do caminho feito de pedras cinzas não me lembro
das mãos nascem as formas da tristeza
das janelas tem-se o gosto das estrelas de absinto
dos espelhos surgem sonhos invisíveis
das entranhas nascem cegas as paixões
dos instantes vem a vida sem o linho
das estátuas surgem tortas as palavras
da morte descobrem-se os olhos de um menino
da espera viera a mãe com os braços enterrados
da saudade foram lançados do outro lado os espinhos
dos sinos construíram as igrejas com as portas fechadas
do oposto criaram-se os mártires de bronze
do início veio a carne sem o verbo
do início veio a carne sem o verbo
[Edemir Fernandes Bagon]
quinta-feira, 11 de março de 2010
Desenhos
desenlaçado do instante do medo
de tempos em tempos
nasce o amor
nasce o amor
como se fosse flores no mundo
de tempos em tempos me vem a saudade
como se fosse ventos por sobre as colinas
de tempos em tempos
me reconheço pleno nos caminhos da vida
que se desfazem aos poucos
foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?
que se desfazem aos poucos
foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?
o exterior nada sente com a ausência?
o exterior é um sorriso infantil quase sempre?
importa é o que está aqui dentro do meu coração modelado
feito argila em mãos de artesão
meu coração é a imagem do artesanato de minha alma
alma em forma de cerâmica antiga
descoberta por efeitos de luz
artesanato autônomo
colocado em minha mesa de dentro
de tempos em tempos
retiro a toalha colocada sobre o coração pelo esquecimento
e as imagens vão se transfigurando em pele diante dos meus olhos
de tempos em tempos
no mundo procuro o escuro
sem ao menos me recordar do que fui ou do que seria
me vejo longe e tão longe
que estranho qualquer história na qual me reconheça
pois sempre quis ser apenas um título sem corpo ou apenas um
texto escrito no vitral de uma igreja
de tempos em tempos eu me esqueço.
Edemir Fernandes Bagon
sábado, 20 de fevereiro de 2010
II Reis
Não gosto de ir em busca das origens das coisas. Como posso partir para o ponto inicial de tudo se fico sempre no meio do nada? Sei que o caminho é apenas a imagem daquilo que não é mais. Já não é um grito de dor, porque se tornara canto (não estando mais presente). A imagem rasga o instante. Sinceramente, ele não me pertence. Não o vejo como um herói.
Deus é o instante das coisas ausentes. E essas coisas ficam em mim por um longo tempo até que tudo se desfigure e venha a se tornar um trágico riso. De modo que o eu [a consciência de si] transfigura-se em sonho - senhor da infinitude. Nele vive a verdadeira imagem do homem cuja origem é a perfeição imaculada.
Deus é um sonho profundo do homem. O instante de toda a busca. O sonho que transcende a morte (pôr-do-sol). Breve e triste a cantiga. A música não existirá enquanto estiver dormindo o ser. A libido, a volúpia e eros caminham na linha em espiral. Nenhuma origem.
A existência é um símbolo de amor tangente da canção ímpar e a versão mais figurativa da humana unidade solipsista. Bioencarnação do espírito? Fria e sangrenta origem que não procuro. Mas isso não basta apenas. É preciso fugir e contemplar o pôr-do-sol antes que sejam abertas as janelas.
Edemir Fernandes Bagon
Definição
Eu não sou uma linha reta,
ou um círculo,
ou um quadrado...
Sou um
gráfico com altos e
baixos.
[Edemir Fernandes Bagon]
Gabriel
Queres conhecer o mundo
Com a ponta
De teus dedos.
Queres aprender a linguagem
Dos homens
Sendo anjo.
[Edemir Fernandes Bagon]
Com a ponta
De teus dedos.
Queres aprender a linguagem
Dos homens
Sendo anjo.
[Edemir Fernandes Bagon]
Sol e Estrela
Vem e conheça o sol
para despedir-se com a voz
por entre as vidas e as horas
cada sonho se perfaz com um pouco do mundo
e o homem fica com a forma de um mosntro
Vem e conheça o sol
dê ao sonho o que pede a planta à terra
diferente como um menino que nasce
diferente como o amor que morre
Vem e conheça o sol
e não retorne ao ponto em que antes estavas
uma promessa
uma vingança
um temor
Vem e conheça o sol
para não tardar
para não ficar com a sensação
de não ter feito do sonho uma realidade
Vem e conheça o sol
assim que o beijo no espírito
se tornar insípido
assim que o velho nada mais souber
e sua vida não tiver mais sentido
Vem e conheça o sol e o sempiterno mundo
e ficarás feliz como uma estrela da manhã
se não estiver chovendo.
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
2004
viver sob os olhos de Deus
beber o resto
comer o lixo
fumar bitucas de cigarro tiradas do chão
ter o nome associado à ideia do mal
ainda assim
a coisa bela:
ter um filho
nos braços
e dormir
beber o resto
comer o lixo
fumar bitucas de cigarro tiradas do chão
ter o nome associado à ideia do mal
ainda assim
a coisa bela:
ter um filho
nos braços
e dormir
edemir fernandes bagon
Função f(x)
A reconstrução é o limite da função f(x)= vida + amor.
Não existe nem no mais infinito,
Tampouco no menos infinito.
O mais infinito é você.
[Edemir Fernandes Bagon]
Não existe nem no mais infinito,
Tampouco no menos infinito.
O mais infinito é você.
[Edemir Fernandes Bagon]
CONCEITO
A SOLIDÃO É O PONTO-FINAL
DE UMA ORAÇÃO AMOROSA-ABSOLUTA
ESCRITA NUM PAPEL EM BRANCO...
ESCRITA NUM PAPEL EM BRANCO...
[EDEMIR FERNANDES BAGON]
INVERNO
DESENHO UM QUADRADO
NUM CÉU ESTRELADO
REVIRO A GAVETA
DO ARMÁRIO EMBUTIDO
ESCREVO À MÁQUINA
UMA CARTA DE AMOR
PROCURO PERDIDO
UM PEDAÇO DE DOR
DESDOBRO MEU OLHAR
DIANTE DO MUNDO
ESTRANHO O VAZIO
PRESENTE NO MAR
EQUILIBRO O SEGUNDO
ERGUIDO NO AR
E TERMINO PERSONAGEM
DE MIM MESMO DENTRE
TODOS OS OUTROS
MORRO E RENASÇO NO FOGO
JOGO MINHAS CINZAS AO VENTO
E AS VEJO AO ABRIR AS JANELAS DO MEU QUARTO
REFLETIDAS NOS RAIOS SOLARES DO MEU INVERNO.
EDEMIR FERNANDES BAGON
GENTE
GERALMENTE, A GENTE SÓ GOSTA DAS PESSOAS DEPOIS QUE ELAS SE VÃO.
E SÓ PENSA NELAS QUANDO NOS ESQUECEM OU QUANDO NÃO NOS PERDOAM.
A GENTE SÓ SENTE AS PESSOAS SE ACASO NOS TOCAM.
NO ENTANTO,
A GENTE SÓ É GENTE QUANDO SONHA
OU QUANDO O AMOR É REPARTIDO
OU QUANDO A DOR É SUPERADA COM SORRISO
OU QUANDO O SORRISO SE TRANSFORMA EM BRILHO DE ESTRELA
NUM CANTO SUAVE.
[EDEMIR FERNANDES BAGON]
ANGÚSTIA
EU DIGO MUITAS COISAS
QUE NÃO SINTO.
SINTO MUITAS COISAS
QUE NÃO FALO.
RESULTADO: ANGÚSTIA.
[EDEMIR FERNANDES BAGON]
QUE NÃO SINTO.
SINTO MUITAS COISAS
QUE NÃO FALO.
RESULTADO: ANGÚSTIA.
[EDEMIR FERNANDES BAGON]
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Viagem
Partir é sempre o desejo da gente.
Somos nômades por entre vales e montanhas.
Somos multidões atravessando os desertos e o inconsciente.
Intranquilos seres,sobretudo vivos, navegantes mendigos...
Caravanas inteiras sem destino.
Partir é sempre desejo da gente.
Somos sempre estrangeiros
Viajantes com sede de viver
Ancoradouros partidos
Estrelas cadentes
Meninos e meninas abandonados no mundo
Partir é sempre o desejo
Repentistas do amor
e
Mascates da vida,
Somos destinos por entre dedos estendidos no coração inventado !
Somos pais que morrem sem perdão !
[...]
Partir é sempre o desejo [da gente]
Queda dos anjos sobre a ponte de vidro
Viagem dos dantes...
Inimigos felizes com a imagem do infinito,
Vísceras que voam pra longe...
Partir num navio de prata pelas águas da saudade
partir num desejo efêmero e mentir numa angústia desumana para ver o mundo na linha do horizonte...
[Edemir Fernandes Bagon]
Somos nômades por entre vales e montanhas.
Somos multidões atravessando os desertos e o inconsciente.
Intranquilos seres,sobretudo vivos, navegantes mendigos...
Caravanas inteiras sem destino.
Partir é sempre desejo da gente.
Somos sempre estrangeiros
Viajantes com sede de viver
Ancoradouros partidos
Estrelas cadentes
Meninos e meninas abandonados no mundo
Partir é sempre o desejo
Repentistas do amor
e
Mascates da vida,
Somos destinos por entre dedos estendidos no coração inventado !
Somos pais que morrem sem perdão !
[...]
Partir é sempre o desejo [da gente]
Queda dos anjos sobre a ponte de vidro
Viagem dos dantes...
Inimigos felizes com a imagem do infinito,
Vísceras que voam pra longe...
Partir num navio de prata pelas águas da saudade
partir num desejo efêmero e mentir numa angústia desumana para ver o mundo na linha do horizonte...
[Edemir Fernandes Bagon]
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Sé
Menino Jesus,
que crescera
com tamanhas
dores e morrera
em grandes desamores
e que depois voltou à terra,
tendo antes ensinado e pregado
o princípio fundamental da vida
"amai-vos uns aos outros":
Viu o noticiário da TV ontem?
O que achou daquelas crianças
diante da igreja cheirando cola?
[Edemir Fernandes Bagon]
que crescera
com tamanhas
dores e morrera
em grandes desamores
e que depois voltou à terra,
tendo antes ensinado e pregado
o princípio fundamental da vida
"amai-vos uns aos outros":
Viu o noticiário da TV ontem?
O que achou daquelas crianças
diante da igreja cheirando cola?
[Edemir Fernandes Bagon]
Espelho
Tenho comigo
O medo de me ver ao espelho
E perceber em mim
Vestígios de ser humano.
Edemir Fernandes Bagon
O medo de me ver ao espelho
E perceber em mim
Vestígios de ser humano.
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Real
When I dream
I see only your eyes
But sometimes they are so far
That I think to be a real dream...
[Edemir Fernandes Bagon]
I see only your eyes
But sometimes they are so far
That I think to be a real dream...
[Edemir Fernandes Bagon]
Logaritmo
Mundo desigual
Igual sem igual
desigual Mundo
Mundo imperfeito
Perfeito feito
Imperfeito perfeito
Mundo...
Mundo sem metáforas
Hiperbólico metonímico
Metafórico e bélico
Sem expressão ou sentimento
Mundo ímpar - sem par
Ou conjunto universo ou verdade
Intersecção sem dor
Subtração...
Qual é o logaritmo de 2?
Amor.
[Edemir Fernandes Bagon]
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Outubro
mas para que sentir tanto ?
de que modo o olhar pode ser revelado e por que o engano passa a ser tão simples?
existir por enquanto...
deixe a angústia dentro do livro e veja que nem sempre é possível.
[viver talvez?]
desejo do mundo ser inteiro -
mas para que ter de volta o que nem sentia ou o que nem por sobre o mar pairava ou, contrariamente, o que estendia a mão por sobre a areia?
se em dois me fizera o beijo
se em vários me fizera ser na pele para fingir que vivo...
para quê ?
ainda sinto tanto amor dentro dos olhos e ainda tanto quero fechar o livro, mas não consigo...
(Edemir Fernandes Bagon)
de que modo o olhar pode ser revelado e por que o engano passa a ser tão simples?
existir por enquanto...
deixe a angústia dentro do livro e veja que nem sempre é possível.
[viver talvez?]
desejo do mundo ser inteiro -
mas para que ter de volta o que nem sentia ou o que nem por sobre o mar pairava ou, contrariamente, o que estendia a mão por sobre a areia?
se em dois me fizera o beijo
se em vários me fizera ser na pele para fingir que vivo...
para quê ?
ainda sinto tanto amor dentro dos olhos e ainda tanto quero fechar o livro, mas não consigo...
(Edemir Fernandes Bagon)
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Libertação
Clara escondeu a alegria quando
soube da morte de seu marido. Seu pensamento: livre. Estava livre e a primeira
coisa a fazer seria: cortar os cabelos. A segunda, convidar a melhor amiga e ir
ao parque. Terceira: não sabia o que fazer. Mas era bom sentir-se viva. Era
como no dia em que fora à escola pela primeira vez. Descobrir as letras, as
sílabas, as palavras... os números.
20, 40, 54 anos... viu e não viu
o que se passou. E o que se passou? Nem mais se questionaria, não o era
necessário. Tinha em mão apenas a necessidade de ser livre e isto o que lhe
importava. Calara-se para o mundo durante a vida e agora não queria falar. Seu
silêncio não era silêncio. Era linguagem, era milagre. Era a vida contida e
descontínua pelo desamor do sonho. O sonho... Imenso corpo desenhado no mundo.
Seu corpo desenhado no céu se
fortalecera tanto que não se reconhecia mais a esposa, a viúva, a que recebia
os pêsames sem pesar. Jamais imaginou que faria com gosto o aperto de mão ou o
abraço de amigos do outro que vieram velar. Lembrava-se disso com repugnância,
não obstante sentira-se mulher.
E isso lhe era algo novo.
Sentira-se mulher. Desde menina desejava saber o sentido daquela palavra. Fora
antes filha - mãe - companheira - esposa. O que seria de agora em diante?
Rasgava-se em risos. Gritava o nome santo de femina. Era ela independente e soberana. Era ela amor. Viu seu ser
na expressão máxima do amor, viu seu ser na expressão máxima do ser livre.
Livrara-se do amor do desejo da
carne. Guardara-se no coração. Encontrara a vida. Viu no passado toda tristeza
do pai que se deitara a seu lado com seu corpo imundo. Ouviu no passado toda
palavra suja do marido. Viveu no passado todo castigo torpe. Engoliu o cuspe do
homem imundo e desejou a morte por quase a vida inteira.
Clara não era mais Clara. Naquela
tarde, porém, depois da chuva, caminhou com alegria pelo meio-fio da rua e
seguiu até onde se via a nascente do arco-íris. Estendera os braços e brincou
de balanço no tempo presente com todos os sonhos de infância no sorriso.
Perdoara-se e, com a própria
vida, soprou em si o princípio de sua história: todas as letras, todas as
sílabas, todas as palavras e todos os números lidos agora de outra forma.
Edemir Fernandes Bagon
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