quarta-feira, 22 de abril de 2015

Malebolge

Quando saiu de casa, Ryan sentia que não voltaria mais. Um medo estranho no caminho. Pouco tempo depois, descobrira os olhos e percebeu o mundo.
Perdeu as coisas que amava por engano. Desenhou no céu o nascimento de estrelas e, também, o seu ocaso. 
Seu era o corpo inalado no espaço. 
Quis escrever, quis amar, quis ser o que era antes. Ficou, porém, sentado ali, naquela praça. Os dedos queimados. Havia nos lábios trincheiras. As unhas coçavam-lhe o couro cabeludo. Eram suas as fezes depositadas no centro. 
Vale do Rio Flegetonte. Vale da Floresta dos Suicidas. Vale do Deserto Abominável. Cachoeira de Sangue. Ryan, com a cabeça jogada para frente, foi embora para sempre. 


Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Atalhos

Júlio não pensou duas vezes para mudar o destino de sua vida.
Deixou emprego, família e amigos. O novo soava-lhe como um verso perfeito.
Quando, porém, quis ter de volta tudo o que havia deixado para trás, sentiu que não existia mais nada. Os olhos se aquietaram.
Houve um silêncio tão grande.


Edemir Fernandes Bagon


terça-feira, 14 de abril de 2015

Cirene


nada que pudesse fechar a porta
a não ser a pele desnuda do corpo

nada que não fosse desejo
seria



edemir fernandes bagon




(By Renato Guedes)















domingo, 12 de abril de 2015

Ananke



a gente brinca de ser livre porque tem medo

o silêncio nunca é o mesmo
a alma não dorme

não sei o porquê e nem como
o tempo me encanta


descortina o mundo
tingindo os olhos com instantes



edemir fernandes bagon






quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reflexo


 As coisas mais simples da vida deveriam ser vistas num espelho

inventar o outro em si mesmo
carregar o tempo nas mãos
abrir as portas e limpar as janelas do lado de fora


não é possível compreender o desespero humano com a vaidade
pois bem pouco somos diante de sonhos


Edemir Fernandes Bagon










segunda-feira, 6 de abril de 2015

Istmo

E agora que o tempo esqueceu de existir
Vem-me  assim por engano tocar o meu corpo

Meu espírito é um istmo
E para além das cortinas brancas do meu quarto está o meu pequeno mundo

Procuro por caminhos antigos
Porque meu coração é surdo


Edemir Fernandes Bagon


A cortina de renda, 2008
Márcio Melo ( Brasil)
Acrílica sobre tela, 61cm x 76 cm
 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Incertezas

por outro lado, crer em qualquer tipo de certeza a respeito da vida é uma tolice

o instante é uma peça de Shakespeare
o sentir não é filosofia encenada na galáxia

são os olhos deuses que esperam  sempre compreender o mundo


edemir fernandes bagon






sexta-feira, 27 de março de 2015

Elohim


***

quando era menino

       queria dar a volta  ao mundo em oitenta dias como na história de  Verne


 
o tempo parecia demorar tanto

                                 
        e eu me perguntava por que Deus  apagava a luz das estrelas durante o dia




o mundo era tão grande assim que não cabia nos meus

sonhos


***



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 20 de março de 2015

Totalitarismo

Curiosa foi a revolução da Alma.
Instituíra poder absoluto ao Esquecimento,
Mas sua práxis política em relação à ação subversiva do Amor fracassou.
Consolidou-se assim um Estado Totalitário da Paixão e da Saudade.

Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 17 de março de 2015

Intersecções

procurei por nós dois e me perdi
no tempo das coisas
no tempo de vir
no tempo arcaico

trilhas realinhadas por meus olhos vem-me agora na memória
uma estranha chuva colorida cai por entre meus dedos
vinda com o barulho da espera

(>>>)
teoremas viscerais sob a forma de um obscuro tipo de poder
que a alma inventa e a gente denomina amor.


edemir fernandes bagon


(Sketch from 2013 - Renato Guedes)

quarta-feira, 4 de março de 2015

Desencarnados


a gente não sabe dizer para onde vai o coração
[destino? escolha?  coincidência?]

talvez seja assim um pouco da tarde que chega com a chuva
procurando o instante sem saber da vida e , nem mesmo, como tecer o ontem

o perdão é construído e perdido por entre espíritos

[os olhos libertam o amor]




edemir fernandes bagon

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Partituras

{*}

seriam sempre eternos os encantos trazidos pelo Amor
se os homens não fossem incapazes de amar.

[chega como folha que cai sob o lago
 entra assim pela porta da frente semelhante o mistério do corpo escrito na alma]

seriam os cantos entoados no mar pelas naus do imaginário
a vontade dos olhos em preencher o mundo de imagens?

[a vida desfeita num cesto de vime
 horas que esperam as vozes vazias]

dizer que o contrário é um medo de ser
         que talvez o tempo não saiba esconder a verdade da história

{*}

teriam as cores um relevo de angústia
se não houvesse a infância?

seria assim como um solo com árvores invertidas?
         mártires covardes nas nuvens inventando as flores?


{*}

seria o mundo inteiro minha vontade?
seria o sonho pura expressão da linguagem?
                              ou Cristo atirando pedras no infinito?



edemir fernandes bagon






quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Diadorim

olhar o mundo e ficar sem entender como as coisas existem 
sem metafísica 
sem explicação filosófica
sem razão nenhuma investigada 
sem amor inventado
sem palavras ou fotografias

vez em quando vem o fim - desapego do instante.

o silêncio é amargo 


edemir fernandes bagon



sábado, 7 de fevereiro de 2015

Campo de Sangue

(E disse-lhes: Não vos pertence saber os tempos ou as estações que o Pai estabeleceu pelo seu próprio poder. - Atos 1:7)


O tempo não espera nada. 

.
..
....
......

                                     
                                         São os olhos que desenham a vida





edemir fernandes bagon










segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Archangelus

Miguel cresceu pertinho do mar.
Brincava todo o tempo com as ondas que vinham despertar a areia da praia.
De longe, a mãe chamava seu nome:
 - Miguel! Miguel! Vem, anjo!

Um dia, Miguel amarrou uma linha na cabeça de um peixe morto e correu pela orla inteira imitando o barulho de um carro.
A mãe achava graça de ver na mão do seu menino uma linha  enrolada nos restos do peixe do mar.

- Miguel! Miguel! Vem, anjo!

A voz da mãe ecoou nos cantos do mundo como a de um arcanjo contra dragões inimigos e anjos infiéis.

Miguel não veio.


Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Petição


vem o tempo 
de repente 
com o coração enfermo
com as unhas sujas
com os olhos perdidos nas ruas 

vem 
o tempo 
   de repente
ouvindo letras de um poema
vendendo desenhos de nuvens

vem o tempo 
de repente por entre as pedras
tirando enganos dos dogmas

vem o tempo de repente 
com perfumes de sândalo
com o cheiro de memória abraçada a um  corpo sem flores

vem o tempo de repente 
pedindo amor para não ser nômade



edemir fernandes bagon

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...