sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cérbero


Descolavam das mãos os desenhos coloridos
Pássaros com adornos
Cães em relevo
Céu azul monocromático
E o homem-deus deitado no teto de suas angústias

Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Renascença


Cabem no tempo
As pedras cristalinas tocadas pelos pés dos anjos sobre as águas dos rios
A espera
Dos que sentem amor por aqueles que nada têm a entregar

Cabem no tempo
O mistério das palavras atrás das nuvens
E o silêncio dos olhos 

Cabem no tempo
Os caminhos perdidos ou deixados dentro do baú das horas
E as histórias inventadas pelo desespero

Cabem no tempo
O sentido e o desejo
O pronome e o nome do mundo

Cabem no tempo
A corda estendida do alto da casa em direção à rua
O menino com a pipa no horizonte

Cabem no tempo
O ainda
O talvez
A saudade e o recomeço


Edemir Fernandes Bagon


Andrew Biraj/Reuters

Menino empina pipa em Cabul, Afeganistão


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Memórias












Pedras guardadas nos caminhos dos esquecidos
Anjos arrastados sobre palavras escritas em pergaminhos
Vinte pássaros de prata em torno de estrelas cadentes
Mistérios de barro e de ferro condenando os olhos dos reis
A cidade em ruínas diante dos réus
A invenção das máquinas de mentir
Corpos escuros e nus amarrados a doutrinas
O homem-estado decepado por espadas de bronze
Os impostos de Saulo cobrados pela solidão
As valas encobertas pelo pó
Sinais e montes invisíveis engolidos vivos pela Loucura
Imensidão da memória


Edemir Fernandes Bagon







sábado, 10 de junho de 2017

Inquietações



Os olhos
O passado
O que vem depois
As cores do céu
A terra sob os pés

A fé
Os caminhos deixados atrás dos vales
Os círios colocados perto do espírito

Existir em versos e em arcos prateados
Em pedaços de madeira colados
Em sinais de trânsito
Em declarações de guerra e de amor

Deixar o pensamento acalentando o desespero
Para então silenciosamente conhecer a vida


Edemir Fernandes Bagon




sábado, 13 de maio de 2017

oração . a banda mais bonita da cidade (c/ leo fressato)

Vestes


são as coisas perdidas  no tempo
os encantos das estátuas sob a chuva
os espaços escritos na memória

são os anúncios publicados nos becos
as inúmeras formas de existir no mundo sem forma

são os olhos dos pedintes nas ruas
são os gritos dos filhos do incesto
a pátria morta
a república dos senhores dos grandes empreendimentos

são os pastores cortados na carne e alimentados por demônios
são os criadores da miséria nos planaltos, nas planícies e desertos

são as mãos levantadas no calvário
os apostólicos personagens de uma grande farsa encenada por egos monstruosos



("A Torre de Babel", Van Valckenborgh - séc. XVI)

no alto do edifício babilônico
estendidas foram as vestes sujas daqueles que vociferam

Edemir Fernandes Bagon


sábado, 29 de abril de 2017

Linguística amorosa

Amor é isso: linguística aplicada a uma teoria literária fundamentada na vida e na imagem do outro.

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 21 de abril de 2017

White

Não havia mais tempo.
Era a hora de encontrar a si mesmo.
Compreender suas próprias escolhas e aceitar os erros.
O que poderia fazer da vida agora?
Restava-lhe ir a outro canto do mundo.
Seus olhos queriam ver as nascentes dos rios, embora todo o resto do corpo desejasse não ser.

Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 30 de março de 2017

Cegueiras

prontas estão as armas
porque os olhos não enxergam as feridas

os desvios egoístas 
dos homens deformados pela ingratidão

as sombras caídas e abraçadas em terras escuras
os escárnios cruzando ruas e vielas antigas

os restos escolhidos pelo arbítrio 
livremente
o pouco tempo transformado em ausência eterna



prontas estão as armas.


Edemir Fernandes Bagon


Saturne dévorant un de ses fils (1819-1823), Francisco de Goya

sábado, 18 de março de 2017

Atos



Perder?
Não se pode pensar a vida dessa forma.
Existem tantos caminhos.
Presente e futuro.
Há um pouco de solidão nos versos.

Sentir?
Seria uma maneira de compreender o universo.
Difícil aceitar a verdade do que somos.
Enganar a própria alma ou interpretar a si mesmo?

Bondade?
Viver num mundo de aparências sem aparência.
Retirar as cores de um quadro para simplesmente vir a ser moldura.

Silêncio?
O que existe para além das formas?
Sonhos?
Perfeição?
Mistério?
Farsa?

O sentido da vida é um conto inventado por Deus.


Edemir Fernandes Bagon



quarta-feira, 8 de março de 2017

Prerrogativa


[...] mas as palavras... estas possuem uma necessidade tão grande de existir.


edemir fernandes bagon




sábado, 11 de fevereiro de 2017

Cadafalso

interior

silêncio inconformado
     céu transparente agarrado à cor da cortina



resposta que virá ou nunca
história do sem fim


desatino


inquietar-se nos ombros feitos em forma de âncora
trancar-se atrás de portas quebradas


em qualquer destino o medo inventa uma história acabada


Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Lâmia


linha tênue
descaminho em sentido contrário cheio de implícitos

o tempo entre os laços dos fios e dos pedaços estilhaçados dos espelhos
em parte desalinhado passado

ausência


Edemir Fernandes Bagon


sábado, 14 de janeiro de 2017

Ana Carolina & Seu Jorge


Conflito

o tempo nascido nas estrelas
a poeira escrita nos olhos
o corpo dividido na alma
o passado inventado na ignorância dos sentidos

caminhos sem margens
cruzes nas pedras do mirante

o medo não acordado
a voz correndo no quintal da infância

a vida imersa
num espírito imundo


Edemir Fernandes Bagon


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Cárceres













Rasgam cinzas os insanos perdidos nas ruas
Queimam pétalas nos olhos dos faunos

Vieram pelas moedas de ouro
Trouxeram lagos de areia como dádivas para o mal


Tergiversam os pobres nos murais e porões
Sombras dos muros apodrecem em nome das leis

As lanças apontadas para a vida dos incautos
Os cães sem nome bebendo a água com sal e vísceras

Os círios transformam escadas de ferro em prata

Impérios sob os canais de sangue inventam naus aladas
                                                Pedras entalhadas no céu
Valas e calhas desfiguram a carne dos culpados sem rito

Nobres e falsos celestiais nas marquises dos templos

Cárceres úmidos desaparecendo na poeira dos corpos desnudados
As formas justas das injustas formas das imagens dos vidros encarnados


Edemir Fernandes Bagon





segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O dia do perdão


Foram dias esperando chegar a notícia do retorno de Santiago. Deu tempo para esquecer todas aquelas palavras que ambos disseram naquela noite. Por insistência de sua mãe, Pedro quis perdoar seu irmão. Fosse talvez mais jovem, não aceitaria refazer o destino.

O certo mesmo era que, em menos de trinta dias, Pedro haveria de partir.  A hora era incerta. O pâncreas lutava contra seu signo. O sol nascia com as dores em seu corpo. Os olhos desertavam. Ele sabia... e a mãe sentia suas mãos com serenidade.

Santiago havia telefonado em dois momentos antes de sua chegada. Dona Lurdes respondia-lhe com brandura. Tinha numa das mãos uma foto dos filhos pequenos. Colocara, na estante, outros dois retratos nos quais os meninos estavam seguros nos braços do pai.

Tão logo ela desligara o aparelho, Pedro chamou por sua presença. Encostou nela seu mistério e, por fim, olhou-a com a alegria de quem pudesse ter de volta os melhores dias da infância.



Edemir Fernandes Bagon

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...