domingo, 3 de maio de 2020

Incógnita



claro riso em moldura rosa dos lábios
mar de verdes olhos que ensinam ao tempo 
amor vermelho dos cabelos de mulher-moça-menina 
escorpião tocado pelos seios gêmeos 
quadraturas de versos ascendentes em Libra e Áries 
mãos em forma de vida e água e terra e ar
cantigas em todos os cantos do espírito
[presentes, sob forma única, na memória do destino.

ventre de cristal molhado de orvalho 
vaso de amoreira dentro da pele branca
corpo encilhado no gosto da língua doce 
palavras escritas nas paredes equivocadas de autores desconhecidos
imagens, em silêncio discursivo do desejo,  sussurradas nos ouvidos 
brincos de pérola deixados atrás dos sonhos
[sementes e frutos, tocados nus, adormecem  sob a lua minguante.


Edemir Fernandes Bagon



terça-feira, 21 de abril de 2020

Campos Elíseos



Com seus olhos de pedra
A alma procura o vício
A dor come as próprias vísceras 
O corpo nomeia-se sagrado


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 7 de abril de 2020

Dourados



Desceu as escadas de sua casa com toda a poética de uma criança. Riscou o tempo com as mãos, trazendo as folhas de seu caderno no espaço. Deixou este nos degraus com suas letras e desenhos.  Em seguida, pegou de uma só vez aquele brinquedo de rodas que estava sob a árvore do quintal. Um pé no pedal e o outro, também. Os olhos voltavam-se para o portão da frente da casa. Num esforço contínuo, realizou magicamente seu maior desejo naquele momento. Depois, deixara seu brinquedo no chão e abraçou seu caderno outra vez. Gritou pelas irmãs mais novas, pela mãe, pela tia e pelos avós (numa felicidade incontida, até mesmo, pelo céu dourado daquela tarde).
- Eu consegui! Parabéns pra mim!! Eu consegui, Vô! Aprendi a andar de bicicletaaaa! Uhuhuhuhu!


Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 24 de março de 2020

Introspecção


intangível o querer
                          intransponível a saudade
intramuscular o desejo
                           intransitivo o ciúme
interativo o silêncio
                           intermitente o passado
invertido o sinônimo

                           
                           invertebrado o cansaço
inoperante o descaso
                           inofensivo o abraço
impuro o atraso
                           inválido o prazo
inalterado o quadro
                           inexata a solidão
indexada a memória
                            indivisível o sonho



Edemir Fernandes Bagon


quarta-feira, 4 de março de 2020

Nefelibata


deixo meu corpo num tanque cheio de espinhos
espero pela canção do mar

espalho sal nos olhos dos espíritos
e, nas ruínas do tempo,
                                permito que meus pés se afastem do deserto


por entre os vícios do mundo
e estátuas profanadas

[minhas cidades de vidro cortam o céu em pedaços]


                      antes de ser, meu não-ser brincava com as nuvens



Edemir Fernandes Bagon




By @diegoorigrafima

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Máscaras



o mar descansa, pura e simplesmente, porque é da sua natureza esperar pelo toque das pedras
as incertezas compreendem a delicadeza da vida

a infância, guardada em silêncio, engana o corpo queimado pelo cigarro nas mãos
o espírito, dominado pelo horror da loucura, devora asas de anjos no escuro

virá na forma de chuva o deus salvador (?)
ter desfeito um dos nós do destino é ter a ferida aberta  ou a dor  mascarada (?)


Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Cor de linho



               destino
               película

                         de perto o sentido das coisas
                         da cor de linho puro

                poema
                interlúdio





Edemir Fernandes Bagon





 





domingo, 2 de fevereiro de 2020

Insólito calvário dos olhos

Caravaggio (1571-1610)

dentre os finitos
o destino

entre os ídolos
a carne

tocados nas vestes
o amor


para onde for o tempo
o agora

desfaz o disfarce
a verdade

querer assim
a vontade

insólito calvário dos olhos



Edemir Fernandes Bagon

sábado, 28 de dezembro de 2019

Ceticismo

Charles S. Ricketts - Orpheus and Eurydice




o silêncio dos céticos que se esconde da face de Deus
as falésias  avistadas de um templo de vidros quebrados

o medo de olhar para fora do ego
os erros deixados nas mãos de Orpheu 




Edemir Fernandes Bagon






quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Céu

em tudo existe perda
para fora do espírito
na linha reta das planícies
no encontro das águas da chuva com os rios escuros

nas encostas sublimes das montanhas rosas
nas flores que nascem nos campos
nos filhos que não nos encontram
no passado eclesiástico do profano

são as horas estilhaçadas no vazio
os gritos desmedidos dos perdidos
os que abandonam nos acenos seus navios
os que enganam no seu teatro interior


Edemir Fernandes Bagon





terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Teoria do Conhecimento




nada mais passou a ter importância diante do que sinto quando me encontro
perto de teu espírito

aninhado assim no teu corpo
atrelado nas palavras da tua boca

decerto
nada mais passou a ter sentido
                             para entregar em teu nome
                                                   a minha memória

 como uma rubrica
 ou uma forma esculpida na terra por formigas que fogem da chuva


eu me encanto apenas porque me tens para sempre
e te espero com a certeza da vida desse lado de dentro do mundo
onde o amor não precisa de fórmulas químicas, nem de física ou matemática



Edemir Fernandes Bagon


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Perto do Portão da Escola





ali, deixado para sempre,
espero

encosto os dedos em seu ventre
para nascer de novo

toco meus lábios em seus lábios
para viver

seguro em suas mãos para o destino
ser uma certeza em mim

espelha-se em seus os meus olhos
para não me perder em tanto amor

[perto do portão da escola]



Edemir Fernandes Bagon



domingo, 10 de novembro de 2019

"I never left you"*


Era um dia encantado 
[desses em que germinam sementes
                 e  nascem flores do campo.]

Ali, pertinho do coração, a mãe abraçou o filho.
O corpo macio zelava o espírito e
                                                    as palavras vieram para acalentar o mundo.

- Eu te amo para sempre, Gui.


E o menino, como que encantando o tempo, reinventou o sonho:
- Eu te amo desde o passado.


Edemir Fernandes Bagon


*Verso da canção "Mother", de John Lennon. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Eighty-four





os nomes escritos num papel de caderno
o doce encontro nos cantos da escola
[o riso deixado para além das horas]

o mar inventado num quadro azul e branco
o barco deixado no lado de onde vejo o tempo
[presente perfeito conjugado em seu nome]



Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Pedro

Parecia perdido diante do portão de ferro da escola.  Aquilo tudo era para ele um mundo feito de concreto. Ali, naquela hora, zelava pelo acolhimento de seus dois irmãos. A mãe ficava no guichê, esperando atendimento. Os papéis de matrícula e a falta de sensibilidade dos atendentes.
O orgulho  e a inquietude da infância faziam dele um ser muito mais do que especial. Era ele os braços e os olhos do irmão menor (cadeirante), bem como a consciência do irmão do meio. De repente, seu nome foi chamado pela mãe. Teria que dar conta de encontrar o irmão mais novo. E, por entre os carros no estacionamento do prédio escolar, deslizou seus olhos na direção do outro (perdido, talvez?).
Sem querer, no entanto, encontrou uma mulher de olhos verdes sentada perto de uma coluna. Sentiu seu toque suave nos braços e um abraço foi trocado no tempo. Timidamente dissera seu nome ("Pedro").
O corpo franzino e as roupas sujas.
Outro abraço na forma interrogativa .

A mulher de olhos verdes perguntou:   

- Achou seu irmão? Sua mãe quer saber onde ele está.  

Pedro correu para um canto. Logo depois,  voltou com um sorriso (quase perfeito), empurrando uma cadeira de rodas de cor azul.
O irmão mais novo estava perto.
Estava salvo.

- Como se chama seu irmão?  
- Lucas. 
- Por que ele está na cadeira?
- Ele perdeu os movimentos das pernas, mas logo vai voltar a andar.


Edemir Fernandes Bagon



sábado, 24 de agosto de 2019

Laços*



“Ninguém escolheria viver sem amigos mesmo 
se tiver todos os outros bens, a nobreza ou gentileza para si."  
(Aristóteles)



algo assim feito céu
feito mar de Deus

tanto desse jeito
que se perde
tanto desse modo
que se encontra

tanto mar íntimo
tanto marítimo

tanta alma
tanto tempo que num abraço cabe


Edemir Fernandes Bagon



(*)  Para Ana, Márcia e Marina.

Insano


O destino é incapaz de reconhecer a insanidade do desejo.





Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Resiliência LIII

Em pouco tempo Elisa descobriu quem era. Restava ainda buscar do outro lado do mundo a parte misteriosa de sua vida. Quase no final, sentou-se na calçada da Avenida Plutão e arriscou sentir um pouco de tudo que não via com bons olhos. 
Enxergou de longe as sombras do passado que ela  cuidava. Viu de perto seus próprios inimigos reais e inventados. Distanciou-se dos cínicos, mas continuou ali para esperar com resignação a vinda de seu maior amor. 
Vieram a chuva e o frio. Vieram as flores e o sol. Cresceram os frutos e as sementes que foram deixadas no chão. Os pássaros azuis chegaram e se alimentaram dos frutos e dos sonhos de Elisa. Assim, ela seguiu  em direção  ao oriente e acabou se deitando bem perto do céu.


Edemir Fernandes Bagon


Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...