quinta-feira, 25 de junho de 2015

Olhos

o corpo o silêncio encanta
o espírito alcança a palavra ausente
e acalenta os anjos com a sua voz

[que os olhos digam o que o coração não sente]


Edemir Fernandes Bagon 







quarta-feira, 17 de junho de 2015

Dicionário

nasce o tempo
com a forma de amor

seus olhos encantam o mundo

vez em quando
me encontro traduzindo sua vida em versos de lembranças minhas

como encontrar o sentido primeiro de sua língua misturada na minha?


Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sísifo

o presente sempre desmente o destino
de repente
o desconhecido amor inventa uma de suas histórias
e o caminho de pedras figura diante dos olhos
como um arco-íris



edemir fernandes bagon

domingo, 24 de maio de 2015

Yuna - Come As You Are

Gaia

temendo à Luz
o Tempo coloriu-se de azul
e virou um céu inteiro de brilho

os olhos de todos viram as flores que dançavam à beira do rio
junto a Deus a poesia veio
e o Amor escutou as palavras de um sábio debaixo da árvore do encanto

e foi assim que o mundo se fez


edemir fernandes bagon




sábado, 16 de maio de 2015

Sobre as coisas que não me saem da memória

seu instante: meu princípio filosófico
seu caminho: minha escolha intuitiva
seu descanso: meu canto de encontro

seu sorriso: sempre o verso último de meu livro
seu mistério: destino e desatino sob o céu de Vênus
seu encanto: meus olhos procurando ser no mundo


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Oração

Bem-aventurados os que nascem para ter esperanças
Bem-aventurados os que amam sem exigir do tempo nenhuma perfeição
Bem-aventurados os que ensinam com a própria vida
Bem-aventurados os que encontram um caminho e também um labirinto

Bem-aventurados os que negam aos poucos sonhadores sua incompreensão
Bem-aventurados os que se perdem sem olhar para trás
Bem-aventurados os enganos abandonados nas esquinas do mundo
Bem-aventurados os nomes dessacralizados da arte

Bem-aventurados os loucos comedidos
Bem-aventurados os silêncios decorridos do discurso
Bem-aventurados os momentos esquecidos no abismo
Bem-aventurados os nós desatados com sangue escorrido nas mãos

Bem-aventurados os mistérios acorrentados pelos olhos
Bem-aventurados os que vigiam o mar e sentem o gosto amargo do corpo arrependido
Bem-aventurados os egos nos espelhos quebrados
Bem-aventurados os instintos remidos que se levantam do chão desconhecido





Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Estacionamento

Eu me procuro no tempo
Esperando a chuva terminar
Esperando a palavra criar o mundo
Esperando os olhos lerem o céu e o mar


Eu me procuro o tempo inteiro
Inventando espaços verdadeiros em mim
Colando pedaços de papel nos vidros da infância


Eu me inscrevo no que vier sob a forma de destino
Escravizando o escândalo como efeito do desejo
Eu me procuro sendo seu espírito
Eu me reconheço como fim daquilo que não veio


me transformo em música feita de silêncio
abraçando-me o peito como tornado o seu amor desfeito

e eu me procuro...
não sei em qual tempo e tampouco em qual mundo



Edemir Fernandes Bagon

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cecília

Manhã de quarta-feira. Ainda cansada da jornada do dia anterior, Cecília arrumou-se  para o trabalho. Sabia que não poderia fazer corpo mole. Aluguel, água e luz para pagar. Era preciso passar na casa de Flora, sua irmã mais velha, e deixar suas filhas pequenas ali.
Recebeu um telefonema de seu ex-marido e discutiram como de costume. Ela chegou na estação de trem por volta das sete e quinze. Completaria o trajeto até a loja do centro da cidade. Olhou ansiosa para o letreiro, procurando ter uma ideia de quantos minutos se atrasaria. Saindo da estação, virou à esquerda, desceu uma rua e pronto. Lá estava.
Com o pouco movimento, Cecília esperava que a dona da loja fosse liberá-la antes das cinco da tarde. Entretanto, ficou encarregada de arrumar  o estoque após o fechamento. Com isso, garantiria algumas extras. Na sua condição, era necessário. Avisou à irmã que iria demorar para voltar. Falou com as meninas. Buscou forças.
Terminado o expediente, correu para a estação. Trem lotado. Uma amiga falava-lhe. Seu pensamento longe havia sido desfeito ao desembarcar. Era um pouco mais de nove da noite. Faltava-lhe pouco para chegar.  O namorado novo a esperava. Tinha motivos para acreditar que poderia ser diferente a vida. 
Um passo, dois - e as mãos de ambos se tocaram. Um leve toque nos lábios. A paz encontrada. Era tudo bem diferente daquilo vivido em seu casamento. 
Flora a esperava. As meninas vieram também. Sérgio acompanhou-as até o portão. Ele despediu-se carinhosamente de Cecília e de suas filhas. 
Alguns minutos depois, a vizinhança ouvia três disparos de arma de fogo. "Sérgio", sentiu Cecília. 
Carros de polícia. Um grupo de pessoas na rua. Perícia. IML. Investigação e constatação do que parecia ser óbvio: a prisão do ex-marido.  


Edemir Fernandes Bagon

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Malebolge

Quando saiu de casa, Ryan sentia que não voltaria mais. Um medo estranho no caminho. Pouco tempo depois, descobrira os olhos e percebeu o mundo.
Perdeu as coisas que amava por engano. Desenhou no céu o nascimento de estrelas e, também, o seu ocaso. 
Seu era o corpo inalado no espaço. 
Quis escrever, quis amar, quis ser o que era antes. Ficou, porém, sentado ali, naquela praça. Os dedos queimados. Havia nos lábios trincheiras. As unhas coçavam-lhe o couro cabeludo. Eram suas as fezes depositadas no centro. 
Vale do Rio Flegetonte. Vale da Floresta dos Suicidas. Vale do Deserto Abominável. Cachoeira de Sangue. Ryan, com a cabeça jogada para frente, foi embora para sempre. 


Edemir Fernandes Bagon


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Atalhos

Júlio não pensou duas vezes para mudar o destino de sua vida.
Deixou emprego, família e amigos. O novo soava-lhe como um verso perfeito.
Quando, porém, quis ter de volta tudo o que havia deixado para trás, sentiu que não existia mais nada. Os olhos se aquietaram.
Houve um silêncio tão grande.


Edemir Fernandes Bagon


terça-feira, 14 de abril de 2015

Cirene


nada que pudesse fechar a porta
a não ser a pele desnuda do corpo

nada que não fosse desejo
seria



edemir fernandes bagon




(By Renato Guedes)















domingo, 12 de abril de 2015

Ananke



a gente brinca de ser livre porque tem medo

o silêncio nunca é o mesmo
a alma não dorme

não sei o porquê e nem como
o tempo me encanta


descortina o mundo
tingindo os olhos com instantes



edemir fernandes bagon






quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reflexo


 As coisas mais simples da vida deveriam ser vistas num espelho

inventar o outro em si mesmo
carregar o tempo nas mãos
abrir as portas e limpar as janelas do lado de fora


não é possível compreender o desespero humano com a vaidade
pois bem pouco somos diante de sonhos


Edemir Fernandes Bagon










segunda-feira, 6 de abril de 2015

Istmo

E agora que o tempo esqueceu de existir
Vem-me  assim por engano tocar o meu corpo

Meu espírito é um istmo
E para além das cortinas brancas do meu quarto está o meu pequeno mundo

Procuro por caminhos antigos
Porque meu coração é surdo


Edemir Fernandes Bagon


A cortina de renda, 2008
Márcio Melo ( Brasil)
Acrílica sobre tela, 61cm x 76 cm
 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Incertezas

por outro lado, crer em qualquer tipo de certeza a respeito da vida é uma tolice

o instante é uma peça de Shakespeare
o sentir não é filosofia encenada na galáxia

são os olhos deuses que esperam  sempre compreender o mundo


edemir fernandes bagon






sexta-feira, 27 de março de 2015

Elohim


***

quando era menino

       queria dar a volta  ao mundo em oitenta dias como na história de  Verne


 
o tempo parecia demorar tanto

                                 
        e eu me perguntava por que Deus  apagava a luz das estrelas durante o dia




o mundo era tão grande assim que não cabia nos meus

sonhos


***



Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 20 de março de 2015

Totalitarismo

Curiosa foi a revolução da Alma.
Instituíra poder absoluto ao Esquecimento,
Mas sua práxis política em relação à ação subversiva do Amor fracassou.
Consolidou-se assim um Estado Totalitário da Paixão e da Saudade.

Edemir Fernandes Bagon

terça-feira, 17 de março de 2015

Intersecções

procurei por nós dois e me perdi
no tempo das coisas
no tempo de vir
no tempo arcaico

trilhas realinhadas por meus olhos vem-me agora na memória
uma estranha chuva colorida cai por entre meus dedos
vinda com o barulho da espera

(>>>)
teoremas viscerais sob a forma de um obscuro tipo de poder
que a alma inventa e a gente denomina amor.


edemir fernandes bagon


(Sketch from 2013 - Renato Guedes)

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...