Por que a vida
Quase nunca é como a sonhamos?
Por que nossos sonhos, geralmente,
Não se realizam?
Por que temos que esperar
Quase sempre para sermos felizes?
Por que é tão complicado viver?
[Edemir Fernandes Bagon]
Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
domingo, 9 de maio de 2010
Revelação
ter sono
é bom para esquecer um pouco as mentiras da gente
e inventar sonhando a verdade
sem ter que fingir
apenas para ser aceito no rebanho de falsos cordeiros de Deus.
Edemir Fernandes Bagon
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Rosas
nem sempre é necessário olhar abismos a todo o tempo
existe a possibilidade de reencontrar aquela antiga rua feita de paralelepípedos e rosas
existe sempre uma chance de reconstruir a vida...
edemir fernandes bagon
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Severina
Estação de trem. Carapicuíba.
Severina estendeu-me o braço.
Queria ela saber onde estava o antigo prédio (...).
Fez um gesto e se dirigiu para o caminho da grande pedra.
Severina pegou o ônibus errado.
Eram quase três horas da tarde.
Descrevia-lhe tudo ao redor: calçada, banco, faixa, semáforo...
Eu a deixei diante do prédio antigo.
Retornei a casa e não quis mais me ver ao espelho.
[Edemir Fernandes Bagon]
Severina estendeu-me o braço.
Queria ela saber onde estava o antigo prédio (...).
Fez um gesto e se dirigiu para o caminho da grande pedra.
Severina pegou o ônibus errado.
Eram quase três horas da tarde.
Descrevia-lhe tudo ao redor: calçada, banco, faixa, semáforo...
Eu a deixei diante do prédio antigo.
Retornei a casa e não quis mais me ver ao espelho.
[Edemir Fernandes Bagon]
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Prece
Me transforma, Amor:
Porque te encontro ainda aqui.
[Porque]
Talvez eu soubesse que tua cor já estivera em mim...
[Quando senti a luz tocando cítara.]
Percebi o mundo tão estranhamente e me achei descoberto por teus olhos.
Me transforma, Amor.
Me faça um velho de corpo para intuir a verdade
para imaginar a beleza do universo inteiro.
Me transforma em água, fogo, terra e mar.
Me entrega à vida com o direito de ressurgir
Sem que eu saia de mim mesmo.
Me transforma num cristal nu
Como sujeito livre caindo no mar de palavras
me transforma em objeto
sem que eu venha a inventar o tempo e o espaço
Achei o mundo em palavras caídas sobre os escombros que o Amor construiu.
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 25 de abril de 2010
Ouro em Grego
mas para que sentir tanto ?
de que modo o olhar pode ser revelado
e por que o engano passa a ser tão simples?
existir por enquanto...
deixe a angústia dentro do livro
e veja que nem sempre é possível
[viver talvez?]
desejo do mundo ser inteiro
mas para que ter de volta o que nem sentia
o que nem por sobre o mar pairava
ou o que estendia a mão por sobre a areia?
se em dois me fizera o beijo
se em vários me fizera ser
na pele para fingir que vivo...
para quê ?
ainda sinto tanto amor dentro dos olhos
e ainda quero fechar o livro, mas não sinto...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Saudade
Ela abriu o portão de sua casa e ficou na calçada... imóvel.
Um vestido cinza e a mão no rosto.
O que fizera da moça que existia ainda em seu espírito, mas que um dia fugiu de seu corpo?
O sol perto de sua morada.
Alguns passos à direita para depois retornar ao mesmo canto em frente ao antigo portão.
Seu pai um dia ali esteve .
Sua mãe e irmãos, também.
Sua avó brincara naquele canto...
Sua mãe e irmãos, também.
Sua avó brincara naquele canto...
De repente, levou os dedos aos cabelos brancos que não se ajeitavam mais como queria.
Silêncio de toda a gente que passava.
E era um silêncio de mar.
Era o silêncio da avó, do pai, da mãe, dos irmãos.
Silêncio e tempo.
E era um silêncio de mar.
Era o silêncio da avó, do pai, da mãe, dos irmãos.
Silêncio e tempo.
Olhara novamente para as ruas de todo o passado e se viu tão sozinha que não quis esperar pelo pôr do Sol.
Pensou em Carlos (seu único filho).
Desejou que o tempo passasse depressa para encontrá-lo.
Desejou que o tempo viesse numa pétala de rosa e que lhe fosse entregue.
Achou o tempo injusto com ela .
Achou o filho bonito no sonho.
E desejou partir sem ter outono...sem ser .
Deixou que o corpo idoso brincasse com o espírito do filho.
Quando abriu, porém, um sorriso e viu sem querer o sol se pondo ...
Quando abriu, porém, um sorriso e viu sem querer o sol se pondo ...
Em silêncio, arrastara os pés para dentro de seu próprio corpo com uma saudade imensurável de Carlos.
Fechou o portão com as mãos tristes e, com seu vestido cinza, despediu-se da vida.
Fechou o portão com as mãos tristes e, com seu vestido cinza, despediu-se da vida.
Edemir Fernandes Bagon
Quase instante
Esquecer o mundo com uma estranha sensação de bem-estar.
Mas o que deve ser lembrado?
As mãos que dadas foram ao acaso,
Ou o olhar desencontrado do menino?
Mas o que deve ser lembrado?
As mãos que dadas foram ao acaso,
Ou o olhar desencontrado do menino?
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 11 de abril de 2010
Esperar
Caminhar sem as impressões do destino
ou
lembrar apenas do que se foi para
refazer a vida?
Talvez a fé possa traduzir o doce encontro
ou talvez o sonho?
(longe o mar se equilibra sobre a fúria da saudade num barco que navega sem amor)
As coisas deixam
de ser como as sonhamos
ou
o destino ?
Por onde se encontra sinceramente a vida?
Nas escolhas feitas em nome do imponderável ou naquelas determinadas pela forma mais exata e calculada?
De um lado os caminhos são escuros, sombrios e tristes.
No entanto, existem tantos outros que se formam nas matizes de todas as cores do mundo.
De repente, os pés se enchem de cores diversas até o ponto em que nada é visto (por serem tão puras).
E, contrariamente, as impressões se calam e viram pedras no fundo de um oceano.
Os cabelos que caem terão destino?
Quando não se espera, não há dor...
Ou o melhor amor é a esperança?
Por onde se encontra verdadeiramente a vida?
Edemir Fernandes Bagon
Esperar
Caminhar sem as impressões do destino
ou
lembrar apenas do que se foi para
refazer a vida?
Talvez a fé possa traduzir o doce encontro
ou talvez o sonho?
(longe o mar se equilibra sobre a fúria da saudade num barco que navega sem amor)
As coisas deixam
de ser como as sonhamos
ou
o destino ?
Por onde se encontra sinceramente a vida?
Nas escolhas feitas em nome do imponderável ou naquelas determinadas pela forma mais exata e calculada?
De um lado os caminhos são escuros, sombrios e tristes.
No entanto, existem tantos outros que se formam nas matizes de todas as cores do mundo.
De repente, os pés se enchem de cores diversas até o ponto em que nada é visto (por serem tão puras).
E, contrariamente, as impressões se calam e viram pedras no fundo de um oceano.
Os cabelos que caem terão destino?
Quando não se espera, não há dor...
Ou o melhor amor é a esperança?
Por onde se encontra verdadeiramente a vida?
Edemir Fernandes Bagon
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Anjos
Angelina tinha uma sincera e devotada paixão por Angelo. Namoro. Noivado. Casamento.
Filho. Nome: Vítor. Trinta anos. Ele com cinco a mais.
Sete anos de compreensão. Mas depois deles, alguma coisa havia incompreendida.
As surpresas acabaram-se aos poucos. E aos poucos, também o apego.
Vítor crescia. Angelo crescia. Angelina, não.Presa dentro de seu próprio coração - ela esperava mudar, crescer e conhecer o abraço do céu infinito com a terra.O mundo era igual como as coisas que era.
Quando percebeu que o tempo estava longe, quis gritar.
[Para quem?]
Não havia sentido olhar-se e não se reconhecer. Não existia motivo para mostrar-se [?]
Numa tarde, entretanto, transformara-se.
Deixou Angelo e Vítor para sempre.
[Edemir Fernandes Bagon]
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Mistérios
Chegará um dia em que terá a chance de reencontrar a vida
Mesmo que tudo tenha acabado.
Seguirá em frente
De punhos fechados
E com um sorriso no rosto.
Seguirá
E terá vivido.
Poderá ensinar aos outros sua vida, sua dor...
Seguirá para não mais ser humilhado e dirá ao mundo inteiro que liberdade é amor -
Intenso desejo de viver.
Seguirá em frente para recitar versos livres
Num mundo dissonante cujo futuro a sua história perguntará: "Quem é?"
Virá a serpente conforme a canção anti-celestial
Fechará os olhos para não sentir os leões a dilacerarem seus braços e
Será visto como a árvore seca no meio da praça, sustentando raízes sob o cimento da calçada.
Seguirá em frente como substância
Como amanhecer
Como chuva
Como um rato morto em cima do colchão de espuma
Como cão raivoso uivante
Para sempre .
Seguirá em frente todo desgosto da morte
Seguirá em frente toda forma de submissão
Seguirá em frente o paraíso
E renascerá talvez tão longe o eterno, numa nuvem, o pássaro - oriundo
De uma rosa cortada e exalará um perfume benigno diante
Da traição de um amigo
E seguirá em frente não feito judas ,tampouco todas as dalilas, mas com todos os irmãos e meios-irmãos...
Terá o mundo algo inexplicável de modo que um porco irá falar num alto-falante e sairão dos bueiros as almas brancas.
Seguirá em frente o Corpo
O trono aviltado
O sangue do útero jorrará a vida e seguirá em frente cada passo dado na angústia
Abrindo-se numa ferida misteriosa o mar.
Seguirão em frente a política do pão da tarde,
A partida trágica, a corda de cima do teto e um prêmio recusado pelo grande artista no carvalho.
Seguirá para fora
Pelo meio-fio
Pela mais-valia
E encontrará o silêncio da vida...
[Edemir Fernandes Bagon]
segunda-feira, 22 de março de 2010
Milésimos
O instante passou a ser um momento
inteiro da vida ?
E que por um momento
O momento passou a ser o tempo todo
(O todo inteiro do tempo)
E este resistiu e deixou de ser apenas
o instante do momento pela vida
De repente, todos os segundos
todos os milésimos
de segundos
se revoltaram e
organizaram
uma rebelião atemporal
contra o relógio e o tédio
Sabe que, às vezes, a melhor forma de dizer
a todo instante sobre
a vontade, o desejo e a razão
é por meio da timidez do olhar ?
Vou olhar um pouco do mundo
Porque agora te sinto.
Edemir Fernandes Bagon
terça-feira, 16 de março de 2010
Os Mendigos da Praça da Sé
Um cheiro de repolho podre encarnado em suas roupas e corpos. Mãos grudentas e unhas e bocas imundas. Ela servia-lhe água num copo de plástico encontrado no chão.
Subserviente, a mulher lhe trouxera o líquido como se fosse aquele homem um imperador da praça da Sé. Ficou ao lado de seu senhor que bebia a água da fonte do banheiro público. Este, num gesto de nobreza, deu à mulher o resto d'água. E, então, seus olhos contemplaram juntos o que era o mundo.
A mulher se deitou na praça como a musa árcade de um livro de Bocage. Bebeu também da límpida água com gosto soberano. Diante da estátua do apóstolo Paulo, num abraço de mesma natureza, encontraram-se. E uniram suas línguas num quase silenciamento de amor.
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 14 de março de 2010
Nascentes
da árvore cai a fruta vermelha que tem sabor de infância
da chuva vem a alegria da lembrança do primeiro beijo
do caminho feito de pedras cinzas não me lembro
das mãos nascem as formas da tristeza
das janelas tem-se o gosto das estrelas de absinto
dos espelhos surgem sonhos invisíveis
das entranhas nascem cegas as paixões
dos instantes vem a vida sem o linho
das estátuas surgem tortas as palavras
da morte descobrem-se os olhos de um menino
da espera viera a mãe com os braços enterrados
da saudade foram lançados do outro lado os espinhos
dos sinos construíram as igrejas com as portas fechadas
do oposto criaram-se os mártires de bronze
do início veio a carne sem o verbo
do início veio a carne sem o verbo
[Edemir Fernandes Bagon]
quinta-feira, 11 de março de 2010
Desenhos
desenlaçado do instante do medo
de tempos em tempos
nasce o amor
nasce o amor
como se fosse flores no mundo
de tempos em tempos me vem a saudade
como se fosse ventos por sobre as colinas
de tempos em tempos
me reconheço pleno nos caminhos da vida
que se desfazem aos poucos
foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?
que se desfazem aos poucos
foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?
o exterior nada sente com a ausência?
o exterior é um sorriso infantil quase sempre?
importa é o que está aqui dentro do meu coração modelado
feito argila em mãos de artesão
meu coração é a imagem do artesanato de minha alma
alma em forma de cerâmica antiga
descoberta por efeitos de luz
artesanato autônomo
colocado em minha mesa de dentro
de tempos em tempos
retiro a toalha colocada sobre o coração pelo esquecimento
e as imagens vão se transfigurando em pele diante dos meus olhos
de tempos em tempos
no mundo procuro o escuro
sem ao menos me recordar do que fui ou do que seria
me vejo longe e tão longe
que estranho qualquer história na qual me reconheça
pois sempre quis ser apenas um título sem corpo ou apenas um
texto escrito no vitral de uma igreja
de tempos em tempos eu me esqueço.
Edemir Fernandes Bagon
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