quarta-feira, 28 de abril de 2010

Prece




Me transforma, Amor:

Porque te encontro ainda aqui.

[Porque]

Talvez eu soubesse que tua cor já estivera em mim...
 [Quando senti a luz tocando cítara.]

Percebi o mundo tão estranhamente e me achei descoberto por teus olhos.

Me transforma, Amor.

Me faça um velho de corpo para intuir a verdade
para imaginar a beleza do universo inteiro.

Me transforma em água, fogo, terra e mar.
Me entrega à vida com o direito de ressurgir

Sem que eu saia de mim mesmo.

Me transforma num cristal nu
Como sujeito livre caindo no mar de palavras
me transforma em objeto
sem que eu venha a inventar o tempo e o espaço

Achei o mundo em palavras caídas sobre os escombros que o Amor construiu.


Edemir Fernandes Bagon


domingo, 25 de abril de 2010

Ouro em Grego


mas para que sentir tanto ?
de que modo o olhar pode ser revelado
e por que o engano passa a ser tão simples?

existir por enquanto...

deixe a angústia dentro do livro
e veja que nem sempre é possível
[viver talvez?]

desejo do mundo ser inteiro

mas para que ter de volta o que nem sentia
o que nem por sobre o mar pairava
ou o que estendia a mão por sobre a areia?

se em dois me fizera o beijo
se em vários me fizera ser
na pele para fingir que vivo...

para quê ?
ainda sinto tanto amor dentro dos olhos
e ainda quero fechar o livro, mas não sinto...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Saudade



Ela abriu o portão de sua casa e ficou na calçada... imóvel.
Um vestido cinza e a mão no rosto.
O que fizera da moça que existia ainda em seu espírito, mas que um dia fugiu de seu corpo?
O sol perto de sua morada.
Alguns passos à direita  para depois retornar ao mesmo canto em frente ao antigo portão.
Seu pai um dia ali esteve .
 Sua mãe e irmãos, também. 
Sua avó brincara naquele canto...
De repente, levou os dedos aos cabelos brancos que não se ajeitavam mais como queria.
Silêncio de toda a gente que passava.
E era um silêncio de mar. 
Era o silêncio da avó, do pai, da mãe, dos irmãos. 
Silêncio e tempo.
Olhara novamente para as ruas de todo o passado e se viu tão sozinha que não quis esperar pelo pôr do Sol.
Pensou em Carlos (seu único filho).
Desejou que o tempo passasse depressa para encontrá-lo.
Desejou que o tempo viesse numa pétala de rosa e que lhe fosse entregue.
Achou o tempo injusto com ela .
Achou o filho bonito no sonho.
E desejou partir sem ter outono...sem ser .
Deixou que o corpo idoso brincasse com o espírito do filho. 
Quando abriu, porém, um sorriso e viu sem querer o sol se pondo ...
Em silêncio, arrastara os pés para dentro de seu próprio corpo com uma saudade imensurável de Carlos. 
Fechou o portão com as mãos tristes e, com  seu vestido cinza, despediu-se da vida.



Edemir Fernandes Bagon

Quase instante

Esquecer o mundo com uma estranha sensação de bem-estar.
Mas o que deve ser lembrado?
As mãos que dadas foram ao acaso,
Ou o olhar desencontrado do menino?

Edemir Fernandes Bagon

domingo, 11 de abril de 2010

Esperar



Caminhar sem as impressões do destino

ou
lembrar apenas do que se foi para
refazer a vida?

Talvez a fé possa traduzir o doce encontro

ou talvez o sonho?

(longe o mar se equilibra sobre a fúria da saudade num barco que navega sem amor)


As coisas deixam

de ser como as sonhamos
ou
o destino ?

Por onde se encontra sinceramente a vida?


Nas escolhas feitas em nome do imponderável ou naquelas determinadas pela forma mais exata e calculada?


De um lado os caminhos são escuros, sombrios e tristes.


No entanto, existem tantos outros que se formam nas matizes de todas as cores do mundo.

De repente, os pés se enchem de cores diversas até o ponto em que nada é visto (por serem tão puras).

E, contrariamente, as impressões se calam e viram pedras no fundo de um oceano.


Os cabelos que caem terão destino?


Quando não se espera, não há dor... 

Ou o melhor amor é a esperança?
Por onde se encontra verdadeiramente a vida?



Edemir Fernandes Bagon

Esperar



Caminhar sem as impressões do destino

ou
lembrar apenas do que se foi para
refazer a vida?

Talvez a fé possa traduzir o doce encontro

ou talvez o sonho?

(longe o mar se equilibra sobre a fúria da saudade num barco que navega sem amor)


As coisas deixam

de ser como as sonhamos
ou
o destino ?

Por onde se encontra sinceramente a vida?


Nas escolhas feitas em nome do imponderável ou naquelas determinadas pela forma mais exata e calculada?


De um lado os caminhos são escuros, sombrios e tristes.


No entanto, existem tantos outros que se formam nas matizes de todas as cores do mundo.

De repente, os pés se enchem de cores diversas até o ponto em que nada é visto (por serem tão puras).

E, contrariamente, as impressões se calam e viram pedras no fundo de um oceano.


Os cabelos que caem terão destino?


Quando não se espera, não há dor... 

Ou o melhor amor é a esperança?
Por onde se encontra verdadeiramente a vida?



Edemir Fernandes Bagon

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Anjos

Angelina tinha uma sincera e devotada paixão por Angelo. Namoro. Noivado. Casamento.
Filho. Nome: Vítor. Trinta anos. Ele com cinco a mais.
Sete anos de compreensão. Mas depois deles, alguma coisa havia incompreendida.
As surpresas acabaram-se aos poucos. E aos poucos, também o apego.
Vítor crescia. Angelo crescia. Angelina, não.Presa dentro de seu próprio coração - ela esperava mudar, crescer e conhecer o abraço do céu infinito com a terra.O mundo era igual como as coisas que era.
Quando percebeu que o tempo estava longe, quis gritar.
[Para quem?]
Não havia sentido olhar-se e não se reconhecer. Não existia motivo para mostrar-se [?]
Numa tarde, entretanto, transformara-se.
Deixou Angelo e Vítor para sempre.


[Edemir Fernandes Bagon]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mistérios


Chegará um dia em que terá a chance de reencontrar a vida
Mesmo que tudo tenha acabado.
Seguirá em frente
De punhos fechados
E com um sorriso no rosto.
Seguirá
E terá vivido.
Poderá ensinar aos outros sua vida, sua dor...
Seguirá para não mais ser humilhado e dirá ao mundo inteiro que liberdade é amor -
Intenso desejo de viver.
Seguirá em frente para recitar versos livres
Num mundo dissonante cujo futuro a sua história perguntará: "Quem é?"
Virá a serpente conforme a canção anti-celestial
Fechará os olhos para não sentir os leões a dilacerarem seus braços e
Será visto como a árvore seca no meio da praça, sustentando raízes sob o cimento da calçada.
Seguirá em frente como substância
Como amanhecer
Como chuva
Como um rato morto em cima do colchão de espuma
Como cão raivoso uivante
Para sempre .
Seguirá em frente todo desgosto da morte
Seguirá em frente toda forma de submissão
Seguirá em frente o paraíso
E renascerá talvez tão longe o eterno, numa nuvem, o pássaro - oriundo
De uma rosa cortada e exalará um perfume benigno diante
Da traição de um amigo
E seguirá em frente não feito judas ,tampouco todas as dalilas, mas com todos os irmãos e meios-irmãos...
Terá o mundo algo inexplicável de modo que um porco irá falar num alto-falante e sairão dos bueiros as almas brancas.
Seguirá em frente o Corpo
O trono aviltado
O sangue do útero jorrará a vida e seguirá em frente cada passo dado na angústia
Abrindo-se numa ferida misteriosa o mar.
Seguirão em frente a política do pão da tarde,
A partida trágica, a corda de cima do teto e um prêmio recusado pelo grande artista no carvalho.
Seguirá para fora
Pelo meio-fio
Pela mais-valia
E encontrará o silêncio da vida...

[Edemir Fernandes Bagon]

segunda-feira, 22 de março de 2010

Milésimos




Sabe que, por um instante,
O instante passou a ser um momento
inteiro da vida ?

E que por um momento
O momento passou a ser o tempo todo
(O todo inteiro do tempo)

E este resistiu e deixou de ser apenas
o instante do momento pela vida

De repente, todos os segundos
todos os milésimos
de segundos
se revoltaram e
organizaram
uma rebelião atemporal
contra o relógio e o tédio


Sabe que, às vezes, a melhor forma de dizer
a todo instante sobre
a vontade, o desejo e a razão
é por meio da timidez do olhar ?

Vou olhar um pouco do mundo
Porque agora te sinto.

Edemir Fernandes Bagon








terça-feira, 16 de março de 2010

Os Mendigos da Praça da Sé


Um cheiro de repolho podre encarnado em suas roupas e corpos. Mãos grudentas e unhas e bocas imundas.  Ela servia-lhe água num copo de plástico encontrado no chão.

Subserviente, a mulher lhe trouxera o líquido como se fosse aquele homem um imperador da praça da Sé. Ficou ao lado de seu senhor que bebia a água da fonte do banheiro público. Este, num gesto de nobreza, deu à mulher o resto d'água. E, então, seus olhos contemplaram juntos o que era o mundo.

A mulher se deitou na praça como a musa árcade de um livro de Bocage. Bebeu também da límpida água com gosto soberano. Diante da estátua do apóstolo Paulo, num abraço de mesma natureza, encontraram-se. E uniram suas línguas num quase silenciamento de amor.  



Edemir Fernandes Bagon

domingo, 14 de março de 2010

Nascentes




da árvore cai a fruta vermelha que tem sabor de infância

da chuva vem a alegria da lembrança do primeiro beijo



do caminho feito de pedras cinzas não me lembro

das mãos nascem as formas da tristeza



das janelas tem-se o gosto das estrelas de absinto

dos espelhos surgem sonhos invisíveis



das entranhas nascem cegas as paixões

dos instantes vem a vida sem o linho



das estátuas surgem tortas as palavras

da morte descobrem-se os olhos de um menino



da espera viera a mãe com os braços enterrados

da saudade foram lançados do outro lado os espinhos

dos sinos construíram as igrejas com as portas fechadas


do oposto criaram-se os mártires de bronze
do início veio a carne sem o verbo

do início veio a carne sem o verbo

[Edemir Fernandes Bagon]









quinta-feira, 11 de março de 2010

Desenhos


 desenlaçado do instante do medo

 de tempos em tempos
 nasce o amor
 como se fosse  flores no mundo


 de tempos em tempos me vem a saudade
 como se fosse ventos por sobre as colinas


 de tempos em tempos
 me reconheço pleno nos caminhos da vida
 que se desfazem aos poucos


 foi o tempo desenhado no interior do quarto escuro?


 o exterior nada sente com a ausência?
 o exterior é um sorriso infantil quase sempre?



 importa é o que está aqui dentro do meu coração modelado
 feito argila em mãos de  artesão


 meu coração é a imagem do artesanato de minha alma
 alma em forma de cerâmica antiga
 descoberta por efeitos de luz

 artesanato autônomo
 colocado em minha mesa de dentro

 de tempos em tempos 

 retiro a toalha colocada sobre o coração pelo esquecimento
 e as imagens vão se transfigurando em pele diante dos meus olhos 



 de tempos em tempos
 no mundo procuro o escuro
 sem ao menos me recordar do que fui ou do que seria




 me vejo longe e tão longe
 que estranho qualquer história na qual me  reconheça
 pois sempre quis ser apenas um título sem corpo ou apenas um   
 texto escrito no vitral de uma igreja


de tempos em tempos eu me esqueço.




Edemir Fernandes Bagon

sábado, 20 de fevereiro de 2010

II Reis

Não gosto de ir em busca das origens das coisas. Como posso partir para o ponto inicial de tudo se fico sempre no meio do nada? Sei  que o caminho é apenas a imagem daquilo que não é mais. Já não é um grito de dor, porque se tornara canto (não estando mais presente).  A imagem rasga o instante. Sinceramente, ele não me pertence. Não o vejo como um herói. 
Deus é o instante das coisas ausentes. E essas coisas ficam em mim por um longo tempo até que tudo se desfigure e venha a se tornar um trágico riso. De modo que o eu [a consciência de si] transfigura-se em sonho - senhor da infinitude. Nele vive a verdadeira imagem do homem cuja origem  é a perfeição imaculada.
Deus é um sonho profundo do homem. O instante de toda a busca. O sonho que transcende a morte (pôr-do-sol). Breve e triste a cantiga.  A música não existirá enquanto estiver dormindo o ser. A libido, a volúpia e eros caminham na linha em espiral. Nenhuma origem. 
A existência é um símbolo de amor tangente da canção ímpar e a versão mais figurativa da humana unidade solipsista. Bioencarnação do espírito? Fria e sangrenta origem que não procuro. Mas  isso não basta apenas. É preciso fugir e contemplar o pôr-do-sol antes que  sejam abertas as janelas.



Edemir Fernandes Bagon

Definição



Eu não sou uma linha reta,
ou um círculo,
ou um quadrado...

Sou um
gráfico com altos e
baixos.




[Edemir Fernandes Bagon]

Gabriel

Queres conhecer o mundo
Com a ponta
De teus dedos.


Queres aprender a linguagem
Dos homens
Sendo anjo.


[Edemir Fernandes Bagon]

Para meu pai

Os homens deveriam ser tão bondosos quanto meu pai.



[Edemir Fernandes Bagon]

Sol e Estrela

Vem e conheça o sol
para despedir-se com a voz
por entre as vidas e as horas
cada sonho se perfaz com um pouco do mundo
e o homem fica com a forma de um mosntro

Vem e conheça o sol
dê ao sonho o que pede a planta à terra
diferente como um menino que nasce
diferente como o amor que morre

Vem e conheça o sol
e não retorne ao ponto em que antes estavas
uma promessa
uma vingança
um temor

Vem e conheça o sol
para não tardar
para não ficar com a sensação 
de não ter feito do sonho uma realidade

Vem e conheça o sol
assim que o beijo no espírito
se tornar insípido
assim que o velho nada mais souber
 e sua vida não tiver mais sentido

Vem e conheça o sol e o sempiterno mundo
e ficarás feliz como uma estrela da manhã
 se não estiver chovendo.

Edemir Fernandes Bagon

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

2004

viver sob os olhos de Deus
beber o resto
comer o lixo
fumar bitucas de cigarro tiradas do chão
ter o nome associado à ideia do mal

ainda assim
a coisa bela:
ter um filho
nos braços
e dormir



edemir fernandes bagon

Função f(x)

A reconstrução é o limite da função f(x)= vida + amor.
Não existe nem no mais infinito,
Tampouco no menos infinito.

O mais infinito é você.




[Edemir Fernandes Bagon]

CONCEITO

A SOLIDÃO É  O PONTO-FINAL
DE UMA ORAÇÃO AMOROSA-ABSOLUTA 
ESCRITA NUM PAPEL EM BRANCO...




[EDEMIR FERNANDES BAGON]

Island

The sea writes waves while my eyes sleep beneath red clouds. Although his soul reads the whole island in my dreams, my tongue challenges eve...