a vida não é um eterno retorno...
se trata de um instante
no qual se descobrem os abismos
e os céus avermelhados da tarde
que amiúde procuram os lagos perdidos em que
às vezes se julgam as horas cansadas e
noutras tantas se desfaz o sentimento assim repentinamente
como um gemido ou como uma rosa....
e no que se pensa e no que se diz
não há a intensa verdade de uma
oração voltada para uma divindade
não há sequer um pouco do desejo puro
porque este é apenas invenção dos olhos
ainda que se diga o contrário disso
pensar o amor e vivê-lo são coisas diversas -
coisas que não se encontram como os céus avermelhados e a terra.
e, no entanto, deve existir, ou melhor, existe em algum canto do mundo.
mas esse é o abismo interior distanciado da mentira...
a vida é um pouco mãe - que - morre quando se é menino ainda
de repente, com o tempo passado, a imagem vai se desfigurando...se desfigurando...desfigurando... ando
e uma estranha dor com a forma de algo sem forma é colocada à frente de tudo
e logo não se reconhece mais
e tão-somente se sente a saudade de dentro.
a vida é saudade puramente saudade [não é eterno retorno de nada].
mesmo assim é necessária para ser dita ao filho
mesmo assim é necessário viver
mesmo assim é imprescindível nascer sempre e contrapor-se aos céticos
e dizer ao menos que não deveria haver injustiça social
que não deveria haver falsidade e egoísmo e racismo e ...
dizer ao menos que a vida é necessária para amar o que se está amando
que é necessária para pensar em outras maneiras de dividir o acumulado nos bancos
de repartir as terras
e dividir a beleza dos livros de amor
mas é a saudade que todos repartem com todos -
vida que fica na rua quase perdida perto do lago do ego atrás do tempo.