Amanhecer no Horizonte é um blog de poesias, microcontos, artigos e reflexões escrito por Edemir Fernandes Bagon, onde o cotidiano, a memória e os afetos ganham voz em textos intensos e humanos.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Achados
recomece a viver
e reencontre
sentido nas coisas simples
como
na maneira
que a mãe
segura o filho
como no tempo
que a nuvem leva
para formar no céu
desenhos
como no namoro da terra
com a chuva
como no encontro
do vento
com os cabelos da mulher sentada na calçada
como na despedida para sempre
como no silêncio incontido do amor
recomece a viver
e reencontre sentido
nas coisas simples
para não perder os sentidos
para não perder os instantes
para não perder o encanto de uma dança do ventre
para não perder o incontingente
para não se esquecer da voz do pai
para não se esquecer das necessidades da vida
reencontre o começo
edemir fernandes bagon
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Paraíso
e em cada ponto do mundo escreva
sobre a vida das crianças de bangladesh
decore seu apartamento lindo com as pedras do haiti
e desfile pela av. atlântida seu honda civic pago
inteiramente pelo dinheiro do crack do morro da rua do fim
espere pelo funcionário da eletropaulo cortar a luz do cortiço
e vamos todos juntos tomar banho de água fria no esgoto
ou numa bacia de plástico jogada na beira do córrego
pague para ver na tv a moça sendo desfigurada
e espere o jornal dizer amanhã tudo o que te revolta
para dormir tranquilamente esperando hoje pelo gol fantástico do mito
e tenha um feliz domingo na praça
edemir fernandes bagon
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Prenúncio
(Espera ainda pela livre essência do mistério)
Barco sobre o mar igual feito sorriso de menino
Infinito parte seguindo com a chuva que renasce
(Porque és um nômade em teu próprio corpo-precipício)
Edemir Fernandes Bagon
Barco sobre o mar igual feito sorriso de menino
Infinito parte seguindo com a chuva que renasce
(Porque és um nômade em teu próprio corpo-precipício)
Edemir Fernandes Bagon
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Esclarecimentos
eu te amo da mesma forma desesperada que um menino chora quando espera pela mãe atrasada na porta da escola
eu te amo da mesma forma desesperada que uma moça fica quando perde seu primeiro namorado
eu te amo da mesma forma que um velho se sente ao encontrar seu álbum de fotografia
eu te amo da mesma forma que um crente ama a Deus
eu te amo da mesma forma que um corrupto do congresso nacional ama o poder
eu te amo da mesma forma que um escritor inventa sua obra
eu te amo da mesma forma da saudade que fica à beira da estrada acenando um adeus
eu te amo da mesma forma que o tempo infinito
eu te amo da mesma forma do amor sublime
eu te amo da mesma forma do ciúme de otelo
eu te amo da mesma forma que o céu se coloca sob o mundo [inteiramente azul]
eu te amo como a semente semeada na terra
eu te amo feito corpo e espírito que amam a própria existência unida em intenção
eu te amo como a história da filosofia e da loucura
eu te amo desesperadamente da mesma forma do princípio ao fim [que não reconheço]
edemir fernandes bagon
Opus Dei
semelhantes somos na imagem da Graça
porém desaparecemos diante dos espelhos,
curiosamente, num contrato de indiferenças
Edemir Fernandes Bagon
domingo, 30 de janeiro de 2011
Sobre o tempo
estranho tempo de voltar
estranho tempo de caminhar ao lado de um espírito
estranho tempo de olhar para o céu repleto de estrelas
estranho tempo de ver o verde campo se perdendo no mar
estranho tempo da restituição do que se perdeu
estranho tempo de Deus
estranho tempo de amor
estranho tempo do mundo inteiro
estranho tempo de nascer
estranho tempo de ir embora
edemir fernandes bagon
estranho tempo de caminhar ao lado de um espírito
estranho tempo de olhar para o céu repleto de estrelas
estranho tempo de ver o verde campo se perdendo no mar
estranho tempo da restituição do que se perdeu
estranho tempo de Deus
estranho tempo de amor
estranho tempo do mundo inteiro
estranho tempo de nascer
estranho tempo de ir embora
edemir fernandes bagon
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Janelas
desvia o vento por entre a janela
porque o destino se desprende do tempo
[cada um a seu modo insiste em viver]
desvia o vento por entre a janela
porque é a espera o tempo de todo destino.
edemir fernandes bagon
porque o destino se desprende do tempo
[cada um a seu modo insiste em viver]
desvia o vento por entre a janela
porque é a espera o tempo de todo destino.
edemir fernandes bagon
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Germinar
Aqui e ali
Deixaram que tudo de nojento
Viesse e tomasse conta da História
Tomaram por vontade própria o Destino
E acabaram com a beleza que havia no Princípio
E o que veio depois disso?
A hipocrisia.
No entanto,
Nascemos para tocar as estrelas que parecem ficar perto do rio
Nascemos para ler os escritos deixados pelas borboletas.
edemir fernandes bagon
sábado, 25 de dezembro de 2010
Retrato
somos desertos
retração de sentidos
inflação de paixões
desmentidas
téoricas verdades
divertidas
somos sempre pôr-do-sol
edemir fernandes bagon
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Ocaso
E ele entrou naquele ônibus por acaso. Decidiu sentar-se naquele banco quase que por vontade. Sentiu um vento passa por entre seus dedos, vindo de um vazio do mundo.
Sentiu-se só diante de todas aquelas pessoas que o viram chegar com sua pele escura.Teria o que para fazer de si mesmo? Por instantes se iludira.
Tempo vindo e indo. Gosto triste. Alegria de ser um pouco de tudo no seu traje deselegante. Ia desistindo de sua inexistência em cada parada da viagem.
Os segundos se faziam um pouco mais demorados. Quis descer perto do Mercado Municipal, mas acabou seguindo outro destino. Sem ter a consciência de nada, a tarde passou.
Em um desejo, imaginara seu corpo dividido: uma parte dormia profundamente, enquanto a outra ficava assim como um pássaro voando sob o mar.
Vinda da rua, uma canção o fez lembrar de uma blusa vermelha. Instante da ausência de si. Seria mais se não fosse sua chegada ao lugar onde novamente sentiria aquele vento por entre seus dedos.
Corpo inteiro unido aos ouvidos e olhos. Havia medo, porém um medo estranho que não permitia a sua voz escandir os versos de sua vida e que desobedecia o paradigma do destino. Com seus olhos traduzira o mundo e fizera um gesto simples com a mão.
No caminho de volta para casa, sentou-se no mesmo banco de ônibus e procurou em seu olhar aquele instante. Procurou em seu corpo e na própria vida. Diante de todos... continuava semelhante. E o mundo não lhe causava mais estranheza nenhuma.
Seu mundo e de todos os outros recompostos à alma. Tripartidos e consubstanciados. Rindo da imensidão do acaso.
Reacendeu-lhe a vontade de viver.
Tempo vindo e indo. Tempo indo e vindo.
De repente, no meio da rua e com uma caixa nas mãos, uma moça de olhos brilhantes (usando uma blusa vermelha) apareceu diante dele e de seus instantes.
Permanecera imóvel em seu riso unido aos olhos.
E aquela música se fez continuar para sempre em sua saudade.
edemir fernandes bagon
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Medievo
I
feição de moça triste no campo sob o estranho céu de Deus
descida de todos os anjos que espreitavam um canto antigo da memória
num balaústre delineado no amplo território do espírito
II
bem ao fundo
uma parede branca
com armário embranquecido
e no eterno uma cantiga medieval
III
não ao tempo e ao mistério
morte da angústia e da cegueira
abram-se os montes das oliveiras com as mãos
com as vísceras
com a carne
IV
no espelho do quarto
esteja esperando a vez de partir
fique esperando a vez de sonhar
com o corpo feito de rosas
com cabelos de flores
com dores nos dentes
V
termina a vida com uma canção nos lábios
seja a partida e o sonho ao mesmo instante
sem repartir nada
deixe dois livros sobre a mesa
cinzas de cigarro pelo chão da casa
reivente um mito grego
em silêncio
VI
feição de moça triste nos campos sob o estranho céu de Deus.
edemir fernandes bagon
feição de moça triste no campo sob o estranho céu de Deus
descida de todos os anjos que espreitavam um canto antigo da memória
num balaústre delineado no amplo território do espírito
II
bem ao fundo
uma parede branca
com armário embranquecido
e no eterno uma cantiga medieval
III
não ao tempo e ao mistério
morte da angústia e da cegueira
abram-se os montes das oliveiras com as mãos
com as vísceras
com a carne
IV
no espelho do quarto
esteja esperando a vez de partir
fique esperando a vez de sonhar
com o corpo feito de rosas
com cabelos de flores
com dores nos dentes
V
termina a vida com uma canção nos lábios
seja a partida e o sonho ao mesmo instante
sem repartir nada
deixe dois livros sobre a mesa
cinzas de cigarro pelo chão da casa
reivente um mito grego
em silêncio
VI
feição de moça triste nos campos sob o estranho céu de Deus.
edemir fernandes bagon
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Chácara de Cajamar
Descansa tranquilamente, pai.
Porque a vida ainda está triste.
Não tenha pressa nenhuma em partir,
porque a saudade é como gota de chuva que não preenche nunca o vazio do mundo.
Seja o canto das formas circulares para que eu o procure em minha vida toda
Para que eu compreenda o erro conceptual da linguagem
Para que a verdade eu encontre nas ideias e imagens
Se fossem meus os instantes, eu os entregaria para sempre
Se fossem minhas as histórias, deixaria apenas o fim para te contar os feitos heroicos
Se me fosse dada a escolha de viver outra vez,
Eu seria a sua voz grave para me chamar de filho
E sentarmos na calçada e vermos a chuva triste ir embora
Pai, venha me ver porque continuo com os instantes em minhas mãos.
Porque a vida ainda está triste.
Não tenha pressa nenhuma em partir,
porque a saudade é como gota de chuva que não preenche nunca o vazio do mundo.
Seja o canto das formas circulares para que eu o procure em minha vida toda
Para que eu compreenda o erro conceptual da linguagem
Para que a verdade eu encontre nas ideias e imagens
Se fossem meus os instantes, eu os entregaria para sempre
Se fossem minhas as histórias, deixaria apenas o fim para te contar os feitos heroicos
Se me fosse dada a escolha de viver outra vez,
Eu seria a sua voz grave para me chamar de filho
E sentarmos na calçada e vermos a chuva triste ir embora
Pai, venha me ver porque continuo com os instantes em minhas mãos.
domingo, 5 de dezembro de 2010
riso, rios, céus de prata
livremente caminhar
para dentro do coração
com armas em punho
descer ao inferno
com um sorriso irônico
e mentir com uma rosa na boca
por entre os dedos
e dentro dos olhos
um escudo de bronze
cintilam estrelas
folhas de prata
nos cantos do céu
e, por fim, um rio
com horas no fundo
peixes boiando com câncer
existirá sentido nas cores da realidade?
tempo fora do corpo
espaço dentro da alma
pelos poros interagir
descolorindo as palavras.
edemir fernandes bagon
para dentro do coração
com armas em punho
descer ao inferno
com um sorriso irônico
e mentir com uma rosa na boca
por entre os dedos
e dentro dos olhos
um escudo de bronze
cintilam estrelas
folhas de prata
nos cantos do céu
e, por fim, um rio
com horas no fundo
peixes boiando com câncer
existirá sentido nas cores da realidade?
tempo fora do corpo
espaço dentro da alma
pelos poros interagir
descolorindo as palavras.
edemir fernandes bagon
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Ferida
Escrevi num muro
A palavra amor
E a chuva apagou
Escrevi num muro
Novamente a palavra amor
E alguém o pintou
Com uma cor estranha
Escrevi no muro
uma palavra de amor
com um canivete castanho
Pulei o muro
e me cortei.
Edemir Fernandes Bagon
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Tulipas estampadas e nuas sob os céus
Te deu o mundo
Com um pouco de alegria
E um pouco de tristeza
Sorriu para o tempo
Com a força da espera
Te entregou para os olhos
Com um carinho sobre-humano
Esperou pela linguagem e pela imagem
Caminhou por toda terra
Segurou-se em teus sonhos
Transformou-se em tuas estrelas
Engoliu teus oceanos - feito barco de esperanças
E num dia cheio de infinito
Recordou-se de teu riso
Respirou o sol e
semeou a ti mesmo
num passado
numa história em que grandes tulipas estampadas e nuas sob os céus foram criadas.
Edemir Fernandes Bagon
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Tetraedro
para este lado do mundo
vive o encanto
para este lado do mundo
brinca o sonho
mas é tão difícil encontrar o caminho para esse lado do mundo
edemir fernandes bagon
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Margens
Velhas canções
Tempo
Manhã que não vejo
Longe no rio
Corre o vento
Silêncio se esconde
Encanto e remanso
Perto do monte
Não te alcanço
Longe no rio
Corre o vento
Pedra e penhasco
Distantes
Livre do mundo
Pássaro me vejo
Longe no rio
No meio me encontro
feito forma de margem
Canções antigas
Entoam os mortos
Mas não sei porque os ouço ainda
Fico da cor do céu que chove
Te chamo pelo nome
Livre do mundo
no rio me encontro
Livre do mundo
Pássaro me vejo
Edemir Fernandes Bagon
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Ruas de Agosto
a chuva veio me encontrar
e eu não sabia que não era mais
o que havia em mim
e a água desceu pelo meu corpo
e nada mais havia de ser levado embora
depois de tanto tempo
a chuva veio me encontrar
mas não existia nada em meus olhos
já não me recordava das mãos claras
do riso
do sino
do mundo do lado de dentro de minha vida
depois de tanto tempo
caminhei pelas ruas de agosto
esperando a noite
esperando
Edemir Fernandes Bagon
e eu não sabia que não era mais
o que havia em mim
e a água desceu pelo meu corpo
e nada mais havia de ser levado embora
depois de tanto tempo
a chuva veio me encontrar
mas não existia nada em meus olhos
já não me recordava das mãos claras
do riso
do sino
do mundo do lado de dentro de minha vida
depois de tanto tempo
caminhei pelas ruas de agosto
esperando a noite
esperando
Edemir Fernandes Bagon
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